Falácias Monetárias Inúmeras ou crise não é oportunidade é quando não se sabe, não se quer e não se é competente para fazer

No trajecto lento de descida para o pântano da irrelevância das cacânias pobres há momentos de aceleração, intermitentes e de curta duração, tal como o que estamos a viver. Nem sempre estes incrementos resultam de maiores clarividências e quando o são, as forças contrárias promovem a contra-informação, quer de modo deliberado, quer de modo reactivo mas primário, ou o moribundo perante a inaceitável apreensão da morte eminente.

Ontem o responsável do FMI pelo programa de ajustamento irlandês – mas já oportunamente saído dessa organização -lá confessou numa entrevista que vê as medidas lá contidas como inadequadas e contraditórias, para logo de seguida, emitir a mesma apreciação sobre o programa português que não foi da sua lavra. Assume a responsabilidade pelo desenho mas assinala que está em muito boa companhia, leia-se, eu saí mas ficaram lá os outros.

A falácia sobre o sucesso irlandês já aqui foi mencionada mas continua viva, tal como a de que nós fomos além da troika e somos o seu bom aluno. Muitos comentários se podem fazer sobre estas declarações mas um dos mais interessantes é a confissão que os dois programas são semelhantes, surpreendente tendo em conta a colossal diferença entre os problemas dos dois pequenos países. Se é estúpido persistir numa acção que se verificou inadequada esperando que a insistência possa por fim torná-la eficaz, também não será muito avisado propôr terapêuticas similares para coisas dissemelhantes.

Ontem, o ministro Gaspar admitiu que a sua principal preocupação é o número de desempregados e a incapacidade para gerar emprego, deslocando-se lentamente da temporária loucura que varreu toda a a equipa das finanças que não realizou que, tão importante como conseguir dinheiro era o saber que fazer com ele. A busca desesperada por financiamentos, perfeitamente compreensível, esquecia que dinheiro foi coisa que houve em demasia nestas terras durante vinte dos últimos vinte e cinco anos.

Na Europa não se consegue vislumbrar nenhuma proposta credível algo que facilmente se compreende. Subjugados pela falácia da comunidade europeia alimentada pelos anos das vacas gordas da desregulação financeira trabalhando de braço dado com uma classe política tomadora e distribuidora de benefícios e de rendas apetecíveis como nunca, queremos continuar a acreditar no milagre do cozinheiro servir um prato que agrade não só a gregos e troianos como a tutti quanti.

Tudo isto servido pela maior falácia de todas, a de que o capital não tem bandeira, verdade de curtíssima vivência e só verificável também em tempos de progresso e crescimento contínuo, sempre com duração definida, propagandeada pelos vencedores, transmitida pelos capatazes e pelos perdedores. Como se irá ver no futuro breve, o capital vai ter de oscilar entre a maior rentabilidade e a sobrevivência – o ultra-rico sem abrigo, sem domicílio, sem nacionalidade é a interessante excepção, nada mais. Se pelo contrário tal acontecer, então a barbárie profunda, casamento entre o castelo de Kafka e a quinta de Orwell triunfará, mas isto é demasiado negro e, dentro da teoria das probabilidades, não é verdade que tudo que possa correr mal corra e da pior maneira. Mais suavemente, vai vir um tempo em que as grandes empresas alemãs irão recuar mais para dentro das suas fronteiras, pressionadas pela falta de emprego qualificado a oferecer na Alemanha – a extraordinária notícia sobre o processo que a Bélgica pôs à Alemanha por dumping social e competição desigual pelos sete milhões de micro-empregos na Alemanha com pagamentos de três euros por hora espelham o que Sextus quer dizer (noutro plano sobre a nacionalidade do capital, veja-se a previsível e desastrosa evolução que a CIMPOR está a ter, no que respeita aos intereses de Portugal depois que passou para a mão dos brasileiros, há apenas dois anos).

Nada disto é muito interessante, muito pelo contrário, Sextus pede desculpa por voltar a lembrar o tittytainement. Mas como sempre em tempos de crise, a elite que tenta administrá-la tem muita dificuldade em mudar a percepção do seu devir embora neste caso, mais do que os administradores que têm menos a perder que os seus patrões, poderia ser mais fácil a mudança de escolhas. Provavelmente, a tragédia é que eles acreditam na sua própria história, ou seja, Gaspar está preso naquilo que quis aprender, só agora ao bater contra o muro está a realizar os desafios que enfrentava para além do financiamento. Os programas do FMI para a Europa do sul são comicamente desajustados, fruto da já insuportável ignorância anglo-saxónica sobre as sociedades meridionais que julgam que a produção de laranjas ou vinho constituem a sua principal e autorizada actividade.

De qualquer modo, não se vislumbra nada de efectivo se não retroceder no caminho, temos que fazer uma descida nos padões de vida, aceitar que vamos ter que pedir a declaração de falência, recriar uma moeda para reerguer fronteiras funcionais. Mas pode correr muito pior se nos atrasarmos, olhe-se para o desenvolvimento da solução cipriota, não vai bastar a confiscação dos depósitos, o ouro vai ser envolvido.

Até onde a impreparação de PPC/Gaspar nos pode levar é sempre uma incógnita mas impõe-se corrigir o rumo depois de arranjar alguém que queira realmente ter um rumo e não se limitar a receber ordens.
O conflito entre os que querem a liberdade e os que optem pela aversão ao risco abraçando a servidão é quase tão velho como a humanidade. Mais difícil é a discussão num ambiente afogado em falácias, incompetências e mentiras deliberadas, mas também aqui se faz a escolha, o servo acredita na falácia que é feliz assim, ou a falácia de confundir o que é preciso com o que é suficiente como verbalizou o PM finlandês.

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