Exercícios inúteis para começar a semana ou a fatal ruína da quinta entregue ao capataz ou nunca aprendemos com os nossos erros

Não é fácil identificar os erros atempadamente mas o que é quase impossível é aprender com eles. A crença nessa possibilidade é no entanto muito útil para viver em sociedade e foi por isso muito abraçada pela maior parte das religiões, todas ocupadas na preservação da espécie.

A exasperação nasce quando nos confrontamos com a evidência que quase nunca aprendemos com os erros (um céptico recusa usar o nunca, palavra fatalmente debaixo da pena de suspensão).

Sabemos desde há muito os benefícios e prejuízos da representação e a história está preenchida de exemplos de ambos mas sugere que em tempos difíceis e de incerteza, a representação tende a ir em paralelo com maior prejuízo que benefício.

Há vários graus de representação com uma correlação positiva entre a sua magnitude e a grandeza do corpo de onde emana. Com tempo, a representação acaba por inflectir de forma exponencial a sua função de modo que o grande grupo deixa de ser representado, os agentes dessa função apenas se representam a si próprios e a proximidade com os interesses da fonte legitimadora varia de forma imprevisível e aleatória.

Os episódios de representação mais antigos objecto de relatos que gozem da reputação de fidelidade datam dos tempos da conhecida “História da Guerra do Peloponeso”. A sua leitura, cerca de 2300 anos depois da sua escrita, é extraordinariamente reveladora, já nessa altura as pulsões de domínio, submissão mais ou menos voluntária, desejo de autonomia e representação jogavam papéis determinantes numa região que oscilava entre o conservadorismo atomizado e a pulsão da agregação, controlada por uma facção mais dinâmica e mais aberta à aceleração da história. Sabemos que as vitórias e derrotas dividiram-se e que a confusão de valores era muito maior do que pretendiam os discursos, que todas as moedas tinham duas faces, que aqueles que propagandeavam as virtudes da liberdade podiam praticar tanto ou mais controlo e submissão do que aqueles que não se entusiasmavam com esses valores. Estavam aqui em jogo os limites da representação, quem aceita a sua representação, no extremo aceita a menorização da sua liberdade – Hobbes exagerou depois para fundamentar a soberania.

O projecto europeu constitui outra forma de exercício de agregação com representação num grau de derivação muito elevado, mais profunda que noutras regiões de dimensões ainda maiores porque estas últimas beneficiam de uma partilha e integração mais ou menos forçada de um passado que pretendem comum.

A elite política europeia acompanha a evolução da superelite financeira mundial e é resultado de uma representação muito derivada da sua origem de tal forma que verdadeiramente, já só se representa a si mesma ou na melhor das hipóteses, representa a superelite financeira.

A interpretação do passado e a a visão do futuro que esta elite política nos quer transmitir inclui algumas premissas que têm sido empurradas para o patamar de verdades sem alternativas. Como já se disse, a verdade sem alternativa é a tia favorita do fim da história.

A primeira é a ideia de crescimento, inevitável mensagem de qualquer grupo liderante. Alguém proclamar o contrário assume a desistência da governância, ou seja, é quase incompatível por definição de elite.

A segunda é a ideia de uma comunidade que se matrimoniou de forma razoável e que apesar de haver coisas que não correm bem, as despesas a suportar pelo seu divórcio seriam tremendas. A evolução para a agregação / globalização é contada como desejável no primeiro tempo, como inevitável no segundo tempo, outra forma do fim da história.

A terceira é o recurso ao vocabulário neolinguístico de forma profusa, o paradigma é a associação de crise com oportunidade e evitar reconhecer que crise é um desajustamento entre a ideia e o ser mas a assunção de que outro pode estar a emergir é novamente incompatível com a fronteira do fim da história.

Há ainda mais pilares importantes, apenas se torna necessário adicionar mais um, a ideia que há muita informação e logo muita elaboração intelectual à custa disso embora se privilegie que, conforme ao fim da história, a análise acabe por não variar.

O que é curioso e paradoxal (embora qualquer pessoa atenta perceba que nada há curioso no paradoxo, apenas o interesse de vermos a força da complexidade) é o aprisonamento da elite pela pós-modernidade e socialismo quando se reclama do neo-liberalismo, mas enfim, por natureza os neo são sempre muito oportunistas e dados a miscegenizações surpreendentes.

A aparente dominância da globalização depois de invadir todos os tecidos parece ter, quase deterministicamente, que desembocar no social-capitalismo – foi esse o erro de Thatcher, não existe capitalismo popular.

Nestas alturas, nas diferentes periferias assiste-se a um espectáculo bastante similar, os patrões dessas zonas venderam o que tinham, outros venderam-se, de forma que essas zonas estão entregues aos capatazes. Os capatazes não têm medo nem qualidade, são os homens da Atenas do presente.

Com um bocado de sorte e Sextus já aqui afirmou que como céptico nega o pessimismo, nem tudo que pode correr mal tem que correr, a desagregação pode iniciar-se. Há até vários cenários. O mais doloroso realiza-se quando as periferias sujeitas a um desgaste demasiado profundo requerem a sua desatrelagem das centralidades e optam por percorrer um caminho autónomo, muito lento e inclinado. A improbabilidade resulta da dificuldade na verificação de um poder de capatazes evoluir para patrões verdadeiros, mas geralmente a mente de um capataz nunca percebe bem a diferença entre o que é e aquilo que sonha representar – há uma versão benigna, curiosa, muito lusitana, a do bom aluno.

Outro cenário menos doloroso seria a saída de parte da centralidade, tal como parece defender um movimento de centro-direita alemão que aspira a formar partido. Era uma forma do euro restante iniciar a necessária descida para o valor mais próximo do que reflectisse a realidade económica da maior parte da europa. A fadiga do credor também existe, não é só a do devedor, embora a história que os países de resgate recebem doações dos alemães é muito boa para contar às suas crianças para adormecer mais contentes, não são só os juros que os devedores pagam, é a incapacidade de competir com os credores teutónicos que beneficiam de taxas de empréstimos espantosamente baixas, ou quando o adversário é demasiado fraco e mete golos na própria baliza, nem necessário se torna comprar o árbitro (e ele é deles, na realidade, outro sofisma, a arbitragem e regulação).

Tal como vamos, apenas estamos a responder temporariamente aos quesitos dos nossos credores, que estão mal representados por homens já muito distantes da fonte legitimadora. Esta distância torna-se mais exuberante quando se toma nota da dissonância do gabinete central do FMI e a actuação do seu representante em Portugal. Por exemplo, uma teoria para perceber algumas das razões para o Japão ter escapado à crise de 1936 sustenta que foi a combinação da desvalorização da moeda, estímulos fiscais e alívio quantitativo, ou seja, nada disto está presente nas abordagens propostas aos países sob resgate.

Para já temos que sustentar o discurso neolinguístico que combinação de subida de impostos e descida de salários é a mistura de sucesso, algo que se suporta bem, melhor ainda desde que liberto de moralismos estridentes do padre pecador e tendo em conta que a solução real já está em curso, seguindo desta vez os irlandeses que emigraram nos últimos dois anos, 450 mil, dez por cento, o milagre celta.

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