Miséria da economia

O debate despoletado pela revisão de um trabalho da dupla Rogoff-Reinhardt (RR) feito por uma dupla de estudantes de doutoramento continua bem vivo mas pouco frequentemente pelas boas razões.
A reavaliação evidencia três pontos mais relevantes: a selecção dos anos incluídos na análise, uma abordagem pouco comum no manuseamento dos dados e por fim, o riscado erro do excel. Fazendo estas correcções de forma muito simples percebe-se que o crescimento anual médio nos países com quocientes dívida pública / PIB iguais ou superiores a 90% é igual 2.2% em vez de -0.1% no artigo de RR.

A partir daqui desenvolvem-se milhentos comentários que reflectem também muitas coisas mas principalmente a derrota do pensamento crítico humano e a sua submissão ao mecanismo algorítmico.
A discussão revela uma ausência notória de discussão individualizada. São muitas as razões subjacentes a esta postura.
Num ambiente intelectual menos condicionado facilmente se apreenderia que não seria o valor deste rácio o cofactor mais decisivo e isto aceitando que haja alguma relação causal entre as duas variáveis.

A congénita procura de sentido para a observação, a incessante construção da coerência levam-nos a ser uma repetente presa da falácia narrativa.

Seria de todo surpreendente que todas as dívidas tivessem uma qualidade semelhante, que todas tivessem um similar componente de bolhas imobiliárias, que incorporassem valores irmãos de investimento em capital intensivo e extensivo. Sabemos também que diferentes dívidas de diferentes estados ao longo de períodos alongados de anos viveram com níveis de juros muito díspares. Conhecemos desde Pareto o que se entende por benefícios marginais, claramente diferenciáveis entre estados situados em pontos distantes uns dos outros da sua linha de progresso produtivo. Seria extraordinário assumir que os estados partilham níveis mais ou menos iguais de corrupção ou de preparação da mão de obra. Não é possível negar as variadas qualidades demográficas das populações analisadas, particularmente a sua componente imigratória, emigratória e a distribuição da idade. E poderíamos continuar e continuar de tal modo que, fosse encontrada qualquer correlação, certamente seria por qualquer acaso estatístico e mais polémico ainda, a relação poderia existir, ténue e de sentido inverso.

Lateralmente, as falhas no trabalho de RR parecem ter uma dimensão para além do que seria de esperar numa dupla que se passeia por patamares logo acima da pleiade de ministros das finanças e logo abaixo da dos directores dos bancos centrais, algo entre V Gaspar e V Constâncio – se calhar, fica tudo explicado.

Também no contexto da história que se humaniza para melhor passar, não se trata de nenhuma falha no programa excel, apenas uma selecção, dita involuntária, inapropriada das células da folha de cálculo. Não foi a máquina a trair o homem, mas isto passa de tal forma bem que é uma construção inevitável.

Certamente que nada disto é muito relevante, embora não seja de nula importância, para a formação das taxas de juros de eventuais empréstimos a Portugal, ou a qualquer outro país em situação semelhante, mais ainda no nosso caso em que a dívida /PIB andará já muito perto dos 130%, outros dirão ainda dos 140%. Mas, tal como outro conceito nunca provado, muito pelo contrário, de que o preço das acções consegue incorporar toda a informação relevante, também as taxas de juros não o conseguirão – Sextus reconhece que o erro potencial da associação existe, mas a vida é o que é.

Outro ponto que está ausente da discussão é a mudança no nível global da vantagem competitiva das nações analisadas e que está a jogar um papel que Sextus reputa como um do quarteto decisivo no evoluir da situação económica. Os outros são a componente demográfica junto com as características do tecido produtivo, todos condicionados pelo passado percepcionado pelos outros (mas também pelos próprios), enfim coisas viscosas, entediantes e pouco dadas a nascimentos de homens novos e nações novas.

Para completar esta miséria, a revelação que a maior parte dos lusos veria com bons olhos a instituição de um governo económico europeu centralizado é o reflexo de um povo descrente em si, com níveis muito baixos de auto-apreciação, caído numa argumentação repetida ad nauseum, todos juntos é melhor.

Um povo que não consegue valorizar a bondade da independência acaba por obter aquilo que merece. Talvez seja a triste confirmação da visão que de nós têm os povos do norte europeu: criados um dia, criados para toda a vida, ou como diriam os autores de ” porque falham as nações “, extractivos colonizadores no passado, extractivos colonizados no futuro.
Ficam os capatazes para assistir às conferências de RR e descendentes.

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