Quem não sabe mas sabe que não sabe, sabe fazer gestão

A segunda metade do século passado é a data mais aproximada do nascimento da gestão, monstrinho que foi gerado há mais ou menos cem anos. Trata-se pois do animal com o mais alongado período de gestação conhecido e com uma gravidez tão arrastada acabou por dar nascimento a múltiplos, algo como a fecundação artificial.

Este monstrinho cresceu, engordou, arrebitou, amancebou-se com as sempre noivas, menina política e senhora financeira, vitaminou-se com a publicidade e finalmente tomou conta do espaço vazio deixado pela forte conjuge das finanças que sempre preferiu lugares mais selectos, estimulantes e vigorosos. Com a liberalização dos costumes, passou a ser tolerado o iterativo incesto entre o monstrinho e todos os filhos da política. Nestes tempos, a modalidade do incesto é a mais abrangente possível, mães com filhos, pais com filhas, irmãos, primos, tios e sobrinhos e todas as possibilidades hetero e homosexuais. Com o arrastar das gerações, não será uma surpresa os filhos assim gerados exibirem uma alta prevalência de fealdade e de imbecilidade, apenas suficientemente toleradas pelas diligências dos primos da publicidade, doutorados na novilíngua.

Quando se ouve ou lê estes monstrinhos hiperdotados de uma lábia sem par, cheios do nada, frequentemente, como escreveu Kuhn, é sumamente difícil distinguir entre uma incompetência, uma imbecilidade ou um ardil – lady Macbeth nunca passou por muito esperta (Hello René: you stupid woman).

Quando se vê a produção destes monstrinhos com funções ditas políticas também nunca entendemos bem até onde querem chegar, o que querem confundir, o que querem ocultar. As fortes declarações do ministro teutónico das finanças e do mestre sem o ser, ambos vindo do berço dos gestores financeiros são difíceis de perceber. Querem arruinar os bancos dos países periféricos provocando uma monumental força centrípeta de dinheiro para os seus queridos donos? Admitem que não sabem resolver o problema dos contratos de financiamento que vão obrigar à declaração de imparidades incompatíveis com a sobrevivência de alguns bancos do sul da europa e de França e outros escondidos nas clássicas praças do Luxemburgo e da Suiça e perante a paralisia são tomados por incontinência verbal?

Quando se ouve o desajeitado discurso de Barroso que fica sujeito à publicação na totalidade do mesmo para não desagradar ao centro germânico, será falta de engenho ou pelo contrário muito jeito para ir aquecendo o óleo na frigideira? Barroso despertou para a eliminação alargada da classe média de toda a periferia da Europa, primeiro e depois não se sabe o que poderá surgir num segundo e terceiro tempos? Ou Barroso abraçou esse projecto de destruição de liberdade de organização na periferia que implica a eliminação dos estratos médios de uma sociedade contraída num lúmpen guiado por um exército numeroso de capatazes, projecto que se torna visível quando se observa a facilidade quando os monstrinhos da gestão ditos neoliberais apoiam o aumento de impostos como forma de correcção dos défices do estado e não se lembram nem das velhas gorduras quanto mais das inutilidades estatais que vivem para justificar a sua existência e o seu controlo – são os neogestores neoliberais na política.

Quando lemos que o ministro da saúde se lembra de desenvolver as consultas até às 22 horas, é puro delírio de gestor, ignorância de outros modelos ou a ambição de produzir uma sociedade apatetada por uma fadiga num trabalho estatal mal pago e inútil, completada numa cadeira a olhar paradamente um pseudodebate, uma telenovela, um concurso, á espera de ser chamado para a observação por um clínico destreinado, pouco competente por redundante na sua existência em hospitais incapazes de qualquer administração, administrando fármacos para o colesterol?

Quando somos informados de mais más decisões de equipas de gestores financeiros que passaram por empresas públicas, contratos feitos com os inevitáveis JP Morgan, GS e BNP, foi conluio entre todos para apetitosos prémios para quem se sentou á mesa, foi a má sorte de quem pensa que sabe – é verdade que na altura tinham a desculpa de não estar disponível num livro a melhor parte dos trabalhos de Kahneman – “Pensar depressa e devagar “- que Sextus recomenda com gosto, ou ainda outra coisa um pouco pior?

Há cerca de quarenta anos a Lusitânia-cacãnia evoluiu para um regime político diferente do anterior que apresentava sinais de esgotamento de uma oligarquia demasiado pequena, nascida em parte do que restava da aristocracia existente na entrada do século XX. Agora, o que no início era uma mais ou menos uma clássica democracia parlamentar ocidental, o regime apresenta mais uma vez sinais de decadência e esclerose preocupantes.

Uma democracia que nada tem para decidir, uma democracia num protectorado é uma impossibilidade. Um povo que tal tolera está à espera que alguém tome conta dele. Vale a pena voltar a ler O y Gasset na “rebelião das massas”, não merece a pena tentar perceber no meio das nuvens criadas para o palco onde os gestores representam, eles, coitados, não sabem o que lêem.
A muito escassa elite portuguesa ainda não percebeu o que tem que fazer, ou então se entregou os seus destinos á equipa dos monstrinhos só teremos pela frente a servidão medíocre perante donos que não reconhecemos num castelo que não construimos.

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