Um pouco de gasto energético inútil, ou desde o tempo de antes rainha por um dia que condessa toda a vida até quando se prefere a reforma cedo antes que tarde

Continua a discussão sobre a interpretação do trabalho Rogoff-Reinhardt, a resposta dos autores, as reinterpretações, as derivações e tudo o mais. Mesmo assim, no meio de todo este esforço intelectual o que mais emerge é a pobreza resultante da simplificação.

É algo paradoxal mas o reducionismo analítico parece ser o resultado das primeiras poucas décadas do tratamento algorítmico da complexidade. O homem na sua adolescência evolutiva realizou as impossibilidades práticas da descontrução da complexidade e parece estar preso da deriva algorítmica construída para tratamento redutor da multiplicidade. O mundo fractal é deslumbrante e ofuscante, a tentativa de vectorização da fractalidade só por muito feliz acaso desemboca em algo interessante e compreensivo.

RR vêm hoje apresentar alguma defesa e vale a pena lê-la, mais ainda para um lusitano.

RR citam números – mas nunca foi tão confuso o mundo dos números, são tão inconsistentes de relatório para relatório – mas o mais interessante é o tratamento primário dos mesmos. Segundo RR, a razão dívida pública é igual a 106% nos USA, 82% na Alemanha, 90% no RU e 238% no Japão, aparentemente em Dezembro de 2012. RR admitem que o caso do Japão é peculiar porque quase toda a dívida está tomada por nacionais. É absolutamente extraordináro que a pecularidade não inicie uma investigação de uma hipótese, esta recusa pode ser filha da incapacidade dos intelectuais do presente em tratar as caudas dos dados. Mas se RR estivessem mesmo interessados em pensar e não em vender uma teoria para apresentar em conferências e entrevistas, recordariam que uma das maiores dívidas públicas foi a do RU em 1815, algo mais que 250%, imediatamente antes de um alongado período de trinta anos de vigorosa expansão económica. Aliás o outro exemplo mais notório foi o igual valor atingido pela dívida pública no fim da II Guerra nos USA. Estes dados deveriam logicamente ter incitado RR em inibir a interpretação que outros fizeram do seu trabalho.
O que interessa na dívida pública é um conjunto de factores muito importantes, dois deles muito óbvios que RR nunca comentam, a rentabilidade do dinheiro emprestado (nos casos citados a importância da superioridade militar) e a sustentabilidade do pacto de gerações, algo que o mundo ocidental quebrou nos últimos trinta anos.

Continuando em plano inclinado de qualidade intelectual, RR lembram que já defenderam que nos casos de Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda deve-se avançar para “write-down of soverign debt and senior bank debt”. Ou seja, RR contradizem-se, porque a dívida pública espanhola atingiu só no fim de 2012 um valor superior a 90%, antes tinha estado bem abaixo, na verdade quase colada ao valor alemão. Ou seja, o conselho para seguir uma estratégia de resolução muito diferente apoia-se em racionalidade que nada tem a ver com a razão dívida/PIB.

A indigência intelectual desce para o olvidar no debate sobre a razão dívida total sobre produto interno bruto, que é superior a 500% no Japão, Reino Unido e USA, à volta de 350% para a França e perto dos 330% para Alemanha e Itália, valores que devem ser depois lidos no maior texto da evolução demográfica, claramente negativa para o Japão e Itália, positiva para os USA e estável para a França e Alemanha.

Parece que actualmente é muito difícil realizar uma discussão interessante sobre o declínio do ocidente.
Sextus do seu refúgio céptico consegue fazer algumas recomendações. Em tempos de incerteza e de tormenta abdicar do comando do barco, apresentar velame largo e desfraldado, esperar pela ajuda de amigos, confiar nos pilotos estranhos contratados para evitar as maiores armadilhas são boas alternativas para o naufrágio. Será sensato perceber que aquilo que pode ser bom para uns não o é para outros, em tempos de crise, aquilo que é bom para o centro é mau para a periferia, aquilo que o capataz defende é incompatível para a sustentabilidade daquilo que sempre foi aquela terra.

É verdade que tudo indica que não vamos evitar o desastre, já não temos uma mulher que prefere ser rainha por um dia do que condessa a vida inteira, temos uma que prefere a reforma cedo antes que tarde.

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