Sextus corrige Spengler: o mundo financeiro roubou os governos às nações, as fábricas aos empresários, os projectos aos engenheiros e o trabalho aos operários ou na novilíngua, os silêncios funcionam como pontos e traços para os cegos

Um amigo de Sextus chamou a sua atenção para a entrevista de João Rato a Gomes Ferreira no programa emitido ontem, o que o fez ver essa peça, hoje. Na realidade é muito interessante e Sextus também a recomenda.

Nesse programa há a mensagem sobre a boa trajectória da percepção dos mercados a propósito da capacidade de pagamento do estado luso-cacânico, algo que estava a ficar mais claro, independentemente dos efeitos da posição do BCE tomada no passado mês de Agosto. Constitui um dos sucessos que este cacãnico governo reclama, algo que Sextus bem entende.

Já aqui se contrapôs a tese de Medina Carreira, ou seja, não desqualificando esse sucesso, condição necessária para estancar a crise económico-financeira, interessa igualmente realçar que aquilo que é preciso não equivale àquilo que é suficiente. Parece que muitos se esforçam por esquecer que financiamento foi coisa que pouco faltou a Portugal durante vinte e três dos últimos vinte e oito anos. E curiosamente, para a maior parte da Europa, durante todo este período a abundância de capital esteve sempre presente.

Abra-se um parêntesis para a medida de hoje, tomada pelo BCE de diminuir a taxa de empréstimo para 0.5%, o nível mais baixo desde sempre, sucedendo ao outro record imediatamente precedente de 0.75%. Nessa entrevista tivemos um quase silêncio quando Gomes Ferreira, exagerando na previsão da descida, chamava a atenção para o potencial de agravamento de perdas nos contratos swap muito badalados nos últimos dias. Como um por cento parece equivaler a uma perda potencial de 900M de euros, 0,25 poderá traduzir-se em cerca de 225M de euros (lá se vai o equivalente a mais do dobro da descida de 1% dos salários para financiar a ADSE – passámos da extinção da ADSE para maior financiamento da mesma, no Portugal cacãnico e obedecendo à definição, as ideias duram o tempo de um quark).

O silêncio mais revelador foi quando Gomes Ferreira inquiriu sobre a bondade de metade da dívida pública passar para propriedade nacional, directa e não através do que até agora tem sido seguido, pedindo empréstimo aos bancos estabelecidos em Portugal que depois se financiam no BCE, seguindo os ditames das regras impostas por Bruxelas. A resposta óbvia seria positiva, mesmo até sugerindo que melhor seria ultrapassarmos esse patamar de 50% – já aqui se chamou a atenção para a particularidade japonesa, onde uma dívida estatal gigante, a maior de todas no mundo, ser compaginável com uma economia viável por conseguir que a propriedade dessa dívida seja nacional em mais de 90% do montante, mas também certamente, pelo alto nível de poupança dos japoneses. Mas Rato ficou quedo e mudo e aparentemente, algo embaraçado.

Lembramo-nos das suaves críticas de alguns, poucos, quando se extinguiu, na prática, a emissão dos certificados de aforro. O mundo financeiro prefere apostar nas dívidas públicas, quase sempre garantidas, do que nas dívidas privadas, que sofrem sempre de risco de incumprimento.

Sextus volta a lembrar uma das propostas feitas aqui há bastante tempo: aos estados não deveria ser permitido lançar dívidas para além dos seus cidadãos, obtendo duas vantagens ao mesmo tempo, uma o controlo adicional pelos governados sobre decisões de investimento, outra, a preservação do grau necessário de independência nacional.

O grande sucesso do mundo financeiro foi conseguir através do controlo dos meios de comunicação o afastamento desta proposta e a venda do artigo único dos mercados financeiros. Voltando a Spengler, quando se fala de liberdade de imprensa, depois deve-se sempre inquirir quem a financia.

Não posso deixar de realçar o mais relevante da conferência proferida ontem, em Lisboa, do prémio Nobel da economia de 2010, cipriota. Uma o óbvio, menos para os ministros alemão e holandês: a solução cipriota foi uma estocada profunda nos bancos dos países periféricos e um frete aos dos países centrais e isto deveria ser repetido para minorar o desejo de repetição.

A outra afirmação realça a impossibilidade da manutenção do euro nas actuais circunstâncias e a igual impossibilidade de reunir as condições que o citado economista julga necessárias para a sobrevivência da moeda europeia, maior integração política e financeira.

Há outra impossibilidade que ele não referiu: no discurso novilinguístico reclama-se por Adam Smith. Sextus já qualificou o notável escocês de optimista cheio de boa vontade, mas perigosíssimo se levado á letra. Na realidade, Smith foi derrotado por Hamilton, primeiro secretário de estado das finanças dos USA e nestes últimos duzentos anos, em novos embates, nunca os seguidores de Hamilton perderam até agora, com obra feita. Chegados á sexta ou sétima manhã, os neoliberais revolucionários voltam a reclamar por Smith, voltam a anunciar a nova primeira manhã. De facto, quando já se ganhou, não há risco em trocar de baralho de cartas.

Fica por saber se Smith também co-assinaria a peça de Tocqueville que, com gosto, Sextus preencheu o último post.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s