O regresso aos mercados e quando o sorriso aparece na face de um dependente ou quem não sabe o que é a independência e a liberdade e administra um país, pobre país

A Lusitânea-cacânea lá voltou aos mercados ou em honra da precisão, os mercados voltaram á Lusitânea e aos motes. Seria impossível ler todos os comentários sobre este regresso mas após cerca de trinta minutos passados nessa tarefa, Sextus, um céptico, sabe que não está ensandecido e refugia-se na “Crítica da razão cínica”, algo que foi escrito há trinta anos e que readquiriu nova modernidade (o texto estava fadado para isso, é certo, mas a década da bolsa dos oitenta e a repetição acrítica da revolução da informática e globalisação podiam fazer crer aos leves e distraídos que não se voltaria a limpar a poeira ao trabalho do filósofo alemão).

Até se pode desculpar o aparente contentamento de Gaspar, segundo se percebe era uma imposição do BCE e dentro da sua natureza, um capataz cumpre ordens, não aspira a comandos. De qualquer modo, pedindo desculpa por iluminar o óbvio, a taxa de juro que iremos pagar deve ser igual a 5.6%, mais décima, menos décima. Para alguém que irá contrair talvez mais de 3% é preocupante, para quem nem sequer concebe crescer a metade dessa taxa nos próximos cinco anos, passa a tornar-se mais do que angustiante, parece antes um comportamento de um negacionista. Um capataz negacionista mas não toldado na sua razão que faz isto sabe que vai ser substituído e recompensado.

Faz parte de uma das falácias mais bem sucedidas o modo como tem sido apresentado o plano de reequilíbrio orçamental. Primeiro tivemos a austeridade do corte das gorduras, isto apenas para consumo luso, nos restantes países foi vendida uma austeridade para salvar o estado que consumia e não conseguia colectar os impostos (Grécia) ou para salvar o sector financeiro que tinha sido imprudente (Irlanda), descuido que poderia reclamar grande parte do repetido milagre do país da lira (em situação muito similar emcontrava-se a Espanha, só que esta tinha uma dívida pública no início da crise, inferior à alemã, dado que os contadores da falácia nunca relembram). Para outra parte da Europa que era conveniente não ser colada de forma tão óbvia à crise, imaginou-se a teoria da austeridade expansionista. Na fase actual, repudia-se a austeridade e fala-se finalmente em consolidação orçamental.

Chegados a uma rotulagem mais correcta, prosseguimos no pensamento mágico, ou se quisermos, a razão cínica. Insistimos que é muito aceitável, bom até, endividarmo-nos a taxas muito mais altas que outros que não apresentam défice tão profundos, que é muito normal o BCE emprestar a 0.5% a bancos e a 3-4% a estados (o mundo de pernas para o ar, as dívidas privadas passam a pagar menos que as dívidas públicas), que esses estados mostram grande sucesso ao contrair empréstimos a 5% junto dos mercados e que num mundo ocidental relativamente homogéneo, é pacífico conviver com uma parte que resolveu injectar até agora e nos últimos três anos uma quantidade de dinheiro astronómica, 3.000.000.000.000 de dólares, ou seja, tendo em conta que os USA têm uma população um pouco menor que 350M, constitui um programa de financiamento algo maior do que o da troika para Portugal e isto a juros mais de seis vezes inferiores ao que está em vigor aqui. Se isto é o pensamento “mainstream” económico é realmente muito complicado, só inteligível quando conformado pela razão cínica. (deixo uma nota para um artigo de PM no CM que felizmente aborda algo que Sextus já aqui mencionou: o financiamento do estado deve ser interno nesta altura, Sextus adianta que, só em situações de catástrofe natural pode ser de ouro modo).

Se percebermos, quando restritos por outra razão, a que gostávamos de reclamar desde há séculos, que não há plano nenhum de crescimento para uma periferia a esvaziar-se de capital (pagamentos de juros), de recursos humanos (uns a fugir do presente, outros que nunca virão do futuro) e de vontade, com uma elite de capatazes que repetem o mantra de não há alternativa e que , por natureza, apenas reconhece o dono com que aspira poder conviver, o desastre passa a ser o mais provável.

Hoje, para além do pequeno sucesso da emissão da dívida, convivemos com o efeito lateral: a obediência aos ditames do mundo financeiro é tão genuína que consegue vestir um sorriso a quem o destino lhe rouba essa possibilidade.

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