O paradigma do conselho de estado cacânico ou quando se revela o que se diz ser secreto, se discute o que se não controla nem se planeia o pós-derrota

Agora que já passaram 48 horas sobre a mais alta reunião cacânica da Lusitânea talvez não haja mais fugas de informação relevantes. Se assim é, foi uma óptima reunião, tal como se antecipava. Pena não podermos ver o relato que já terá sido feito num telejornal norte-coreano, com mais detalhes.

A capacidade para atirar ao lado é infinita, por definição o que está ao lado é tudo menos o ponto, logo as hipóteses de insucesso são irreais. Estas reuniões de pessoas similares, paradoxalmente primeiro afunilam-se terrivelmente ao fim de poucos minutos mas encontram um desenvolvimento através duma explosão centrífuga na parte final, discutindo-se todos os lados, próprios de um alto espírito cacãnico que por sua vez permite a sua reprodução e sobrevivência. Como quase sempre, partindo de um pensamneto ao lado pode-se chegar de uma forma mais produtiva ao destino.

A Lusitãnea tem um défice preocupante por várias razões mas no fundo são duas as forças mais importantes que a empurraram até aqui: má qualidade nas decisões sobre atribuição de recursos, competitividade elevada com fraco potencial de vitória mesmo nas boas opções.

A má qualidade decisória é antiquíssima e não é sensato prever que se vá alterar de forma significativa no futuro. A melhor tradução desta insuficiência é representada pela justiça lusa, já deficiente no tempo do príncipe das sete partidas, já percepcionanda ainda antes de Pedro I quando se fundaram as primeiras universidades portuguesas ou até no momento da escolha dos conselheiros jurídicos dos monarcas, homens vindos do mundo gaulês ou italiano, por vezes dos vizinhos espanhóis. Qual é a razão para esta desconfiança sobre o saber e julgamento dos locais é algo muito interessante e deprimente. Mas temos sempre planos de fuga, não é só o magnífico Bach. A melhor fuga é a simplificação, é a extinção pura de leis e regulamentos que além de serem contraditórios potenciam uma má apreciação e nalguns uma voluntária preversão da resolução dos conflitos. Churchill dizia que uma lei com dez mil regulamentos era uma ofensa ao estado de direito.

Quais são os principais obstáculos para isto? Vários, começemos pela ausência de qualidade para a simplificação – todos vemos as mediocridades de gestão e direcção disfarçadas de volumosos e macarrónicos relatórios – pela vantagem que um grupo de satélites-sustentáculos do poder retiram da confusão da multitude de regulamentos, barrando a competição e descobrindo fundamentos para o seu apoio, mais fáceis de identificar numa linguagem própria dos sinais de fumo ou dos vaticínios pós abertura dos animais sacrificados, agravado por uma conjunção de interesses entre os favorecidos locais e os europeus, por sua vez determinados em barrar a ascensão dos periféricos, mais uma vez disfarçados de promoção de uma competição total mas regulada por uma mais totalizante regulamentação legal construída pelos seus funcionários. A má qualidade decisória é ainda potenciada pelo ambiente de auto-menosprezo, de receio, quando não de medo, da elite nacional quando confrontada com o diferente e não conhecido. É o nosso traço feminino de aversão ao risco, medo de ser descoberto numa falha, determinados por sociedades com alto contexto. Na realidade, é ainda mais pernicioso, somos só na aparência uma sociedade de alto contexto porque não valorizamos de modo muito positivo esse contexto, adoptamo-lo quase que a contra-gosto, somos um povo, melhor, temos uma elite em guerra íntima consigo própria. Adicionalmente e em consequência, somos uma sociedade de alto contexto com grande vulnerabilidade ao diferente quando carreado pelo dominante. As sociedades de alto contexto na derrota são compreensívelmente mais destroçadas do que as de baixo contexto.

Sofremos sempre, mas particularmente desde que recolhemos para as fronteiras iniciais, de desvantagens competitivas. No presente, a discussão foi centrada na discussão da dívida o que era compreensível mas tal foi lesivo a partir do momento em que se cristralizou nesse ponto. A dívida tem muitas causas e é primordial distinguir as várias causas.
A tentativa de sistematização de dados conduz a teorias interessantes apenas como exercício de crítica mas não como captura da realidade.
O melhor exemplo são os anos sucessivos de dívida acima dos 100% em vários períodos do RU, sempre seguidos, com a excepção do último, de períodos de grande progresso como se pode ver na famosa folha de dados de Rogoff e Reinhardt. A explicação é simples, foi dívida contraída para adquirir poder militar, que sempre se pagou mas foi muito bem rentabilizado com a excepção do último evento pela simples razão que esse gasto em recursos militares já não garante a projecção de força pela competição que sofre e que o menoriza, o poderio americano.

Uma das razões para a dívida portuguesa é o desemprego. O desemprego impede a criação de riqueza e lucros necessários para a amortização da dívida. As causas do desemprego crónico em Portugal são antigas, persistentes, mas outras são novas. Não é bem verdade o que se escreveu no Ecclesiastes “o que se fez vai voltar a ser feito”, é parcialmente verdade. Frequentemente, surgem pequenos pormenores novos, a natureza está sempre a recriar-se. A principal razão para o desemprego em Portugal já não é falta de capital, Sextus tem aqui repetido isto múltiplas vezes. É por isso que poder regressar aos mercados é preciso mas não chega. Tem sido todo o equívoco deste governo, a confusão entre o que é preciso e o que é suficiente. A maior causa de desemprego é a falta de mercado para o produto, quer o mercado interno quer o externo.

A crise que o mundo ocidental não consegue resolver tem também duas causas, uma delas é repetida, um enorme desajustamento entre o que foi avaliado no passado e o aquilo por que é valorizado no presente, sendo que esta imparidade está a ser paga pela classe média – nunca a classe média foi tão selvaticamente desapossada dos seus haveres, nesta quantidade e nesta previsível duração. Não deixa de er irónico recordar que o velho Marx atribuía ao crédito o crédito pela futura crise do capitalismo.
O paradoxo é que o erro está obviamente no passado, faz parte da definição, a causa está ex ante e a discussão está a ser preversamente a ser remetida para uma causa futura que não pode retrogadamente quase nada influenciar – Sextus deixa aqui o quase nada para confortar os adeptos da circularidade temporal no evoluir histórico – dito de outro modo, o realíssimo dilema das pensões nada tem a ver com o presente, é algo com que nos vamos confrontar brevemente, é a outra curva da história, diferente daquela em que nos despistámos quando concebemos que a deslocalização da produção para a periferia era compaginável com um núcleo gordo. Não é, a globalização vai ao par com um “winner takes it all” extremado e destrutivo com uma redução brutal dos núcleos triunfantes, logo o bom emprego fica cada vez mais reduzido.

O cacânico Conselho de estado não estava pois capacitado para discutir aquilo que é determinante porque os seus membros foram os agentes mais ou menos conscientes da criação das condições para a involução da Lusitânea em protectorado. Como os associados já não capazes de qualquer escolha fogem para o relato proibido da paralisante conversa que tiveram.

Só se faz a paz com os falcões e não com as pombas mas aquele conselho só contém funcionários falcões, esses são bons para trabalhar os documentos, nunca servem para decidir.

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