Sextus recomenda paciência, ainda falta bastante até batermos no muro

Privados que continuamos da informação sobre as grandes decisões do querido líder norte-coreano restringimo-nos às minudências, actividade comum mas nem por isso isenta de efeitos potenciais muito nocivos.

A discussão contínua das minudências é a versão miserável da grande tagarelice cacânica que ecoa nalguns salões mais próximos do Reno.

Provavelmente não iremos reflectir sobre adicionais fugas do último conselho de estado, preferimos agora a discussão amolecida sobre a vontade dos alemães de disponibilizar crédito mais barato a algumas empresas portuguesas que o não conseguem junto da banca lusitana. No tumulto da desinformação contínua ficamos sem saber se há ou não restrição de crédito mas sempre conseguimos perceber que a competição entre as empresas europeias se faz com condições muito diferentes de investimento, o que não é nada surpreendente se já as dívidas públicas dos diferentes países da moeda única pagam juros que variam entre o quase 0% e os 10%. Ou seja, conseguimos acertar muitas coisas, o tamanho disto e daquilo, a forma desta fruta e de outra, o peso dos ovos, mas o mundo não nos vê como um conjunto e em breve vai voltar a olhar-nos como sempre fomos, um saco de gatos mal dispostos, onde uns são maiores que os outros e portanto mandam e comem mais – isto se a coisa correr bem.

A natureza é montra de muitas situações semelhantes e apresenta soluções também múltiplas.

Quando a disparidade entre dois seres vivos é muito grande, quer no seu tamanho quer no seu modo de funcionamento desenvolvem-se formas de comensalismo e nalguns casos parasitismo. Como seria óbvio, o ser vivo mais pequeno fica completamente dependente do ciclo de vida do ser dominante, base. Certamente, o ser dominante pode mudar de ambiente a ponto de beneficiar de outro comensal ou até ficar melhor se se desembaracar dele de forma absoluta. Encontrar outra base para esse ser mais pequeno pode ser difícil e mesmo impossível resultando no seu desaparecimento. De qualqer modo e por definição, o parceiro mais pequeno não pode sonhar em ter um projecto autónomo. Como diria uma letra conhecida, as”mulheres de atenas não tem defeito nem qualidade, têm medo apenas (Sextus corrige uma vez em que citou mal esta lírica).

Nas últimas três décadas, as elites política e financeira deste infeliz país conceberam uma relação de comensalismo-parasitismo da Europa abdicando dos deveres da sobrevivência na esperança dos benefícios das rendas. Isto misturado com o discurso mal amanhado da terciarização do mundo ocidental enquanto que os homens em desenvolvimento da Asia se subordinavam aos lavores dos mundos primário e secundário da produção. Depois para compôr o ramo surgiu a maravilha da informação e derivados. O futuro seria risonho.

Os solavancos fortes dos últimos cinco anos vieram despertar os adormecidos mas continua a haver uma grande confusão entre causas e efeitos, entre passado e futuro. A civilização humana depois de ter contraído o espaço preparava-se para quase abolir o tempo. Alguns hesitam entre o imaginar do fim da história, outros preferem a visão do movimento para a frente contínuo, nada interessa que o passado não aprove nenhuma das visões e ambas são visões filhas, paradoxalmente opostas dessa negação do tempo.

Nestes tempos preparatórios de curva da história também oscilamos entre o voluntarismo exacerbado, seja a crença na bondade e poder das grandes decisões – o exemplo melhor é a afirmada vontade da integração europeia – ou a angústia de perceber que a principal função do capitão não vai muito além de se mostrar fardado na ponte.

Sextus já aqui tem dito que os governos, ao longo dos tempos, têm duas funções, o lançamento de impostos com redistribuição dos recursos a favor das elites – com mais ou menos demagogia á mistura conforme o regime político em vigor – e a gestão da força e da violência. Nos momentos de curva, o segundo dever do governo pode ser o mais importante – raramente o é -no resto os governos são o capitão fardado com os imediatos junto a si na expectativa de quem vai sobreviver melhor ao embate, que mudança de rumo vai ser gritada.

No nosso pobre caso sofremos duas crises, a lusa e a europeia. Continuamos a apostar no comensalismo mesmo após termos percebido que a besta que nos suportava dá mostras de grande inquietude por não se sentir confortável nos campos que escolheu.

Um dos debates que nem sequer se faz – por ser demasiado importante e fortemente traumático para Portugal e em igual grau para a europa é a energia. Tudo leva a crer que o acesso ao meio principal de energia vai continuar a estar fortemente regulado pelo conjunto de alguns poucos países que possuem força para controlar as suas fontes, os EUA e a Rússia, com admissão á antecâmara por bons e leias serviços no passado do RU e do seu apêndice em divisão esquizofrénica, a Holanda – parece que há alguns holandeses que depois de aspirar algumas passas, supõe-se, encostam-se à Alemanha, renegando os últimos quinhentos anos, vai ser interessante ver como vai sair disto a magnífica Royal Anglo- Dutch Company, mais conhecida por Shell. Todo o resto do mundo vai estar disponível para qualquer confronto na luta pela energia. mas a CE não irá ter nenhum papel relevante, a França não soube gerir bem o desafio, não percebeu que os EUA permitiam ajudantes mas não mais que isso e o poderio militar gaulês é risível. Alguns distraídos nem sequer se preocupam com a esta luta, sonham que serão as forças do mercado que empunharão a batuta desta ópera, vão perceber que o mercado começa quando alguém tem força para impôr uma primeira compra ou primeira venda.

Claro que a nós nada resta senão pacientemente aguardar o embate mas devíamos ter consciência que não estamos a prepararmo-nos para o dia seguinte. Se realmente houver dia seguinte para nós, vamos penosamente descobrir que nos enganamos na escolha do bote, por muitas razões, uma delas porque nele não está incluído o mapa do tesouro dos hidrocarbonetos. Não vai ser fácil afastar a pleiade de capatazes acobertados por frágeis aristocratas financeiros mais ou menos dependentes, alindados e apaladados por uma camada espessa de creme pasteleiro onde se escreve, sem inscrever realmente, que não há alternativa á diluição final.

Qualquer bom pirrónico é avesso aos internacionalismos, manifestações de vontades incontroladas e insensatas de mascarar as diferentes realidades, mas tragicamente tanto mais fácil após o ensino do duplipensar e da novilíngua.

A médio prazo, se isto correr mesmo mal, vamos todos lembrar o grande povo norte-coreano, não prestando já homenagem ao grande líder mas provavelmente à banana que nos destinarão para alimento.

E diga-se, se é bem verdade que cada nação goza da governação adequada, também cada um terá a alimentação que lhe convém. Enfim, será a mais espantosa combinação dos dois gémeos, Marx e Hayek, um venerador da luta de classes, outro adulador dos mercados, um promove os actores, o outro os adereços. Nem um nem outro dão alguma atenção ao texto, cristalizaram no monstro do capital social-financeiro que ameaça devorar todas as outras formas de capital, aquelas em que há iniciativa, ambição, risco, aquelas em que há homens com devir. Isto pode mesmo correr mal.

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