Décadas depois desvelado o segredo do D: dívida, dependência, desemprego, desistência

A condição portuguesa vai continuar o seu trajecto involutivo durante muito tempo, tanto mais quanto a capacidade de adaptação humana é enorme e mais ainda, quando a realidade é uma percepção fortemente influenciada pela expectativa. Um dos milagres dos políticos do nosso tempo foi a transmissão bem sucedida sobre a inevitabilidade e facilidade da amputação, logo a expectativa negativa potencia enormemente a dimensão da contracção aceitável.

Um século depois da manipulação ter sido formalmente exercitada por um estado – ao contrário do pressuposto do conhecido rancho de crentes filo-anglosaxónicos, esse país foi o RU durante a segunda metade da I Grande Guerra – a eficácia do condicionamento torna-se cada vez mais evidente. É interessante notar algumas diferenças entre a actualidade e o início do passado século, embora a sociedade tenha mudado bastante menos do que é propagandeado. Nas alturas da guerra era possível manipular apostando essenciamente na deturpação mais ou menos moderada da realidade potenciada pela sua repetição. Na actualidade, como o objectivo a promover é muito mais difuso e a recompensa mais negativa, suportada pela aposta na menor perda possível do status quo e não num ganho, os caminhos usados sustentam-se na técnica da explosão por estilhaços, ou seja, não há grandes eixos estruturantes da comunicação, aposta-se na multiplicidade de vectores de sentidos que abrangem quase 360 graus criando essencialmente confusão e depois renúncia. Dito de outro modo, antes apostava-se na galvanização agora prefere-se o cansaço e numa primeira fase esta última é muito mais eficaz já que a gestão do dia seguinte ao atingir do objectivo é muito mais difícil nas curvas positivas do que nas negativas.

Tudo tem consequências, mesmo nas sociedades em cacanização muito avançada, ou como diriam os inimitáveis economistas, não há realmente almoços grátis. A aposta no cansaço gera por si uma retro-alimentação de cansaço e isto, por sua vez, pode cabar por causar um encolhimento superior ao inicialmente pretendido. Num plano diferente, o encolhimento pode mesmo funcionar com um relógio biológico invertido com uma infantilização inesperada e até perigosa.

A vida portuguesa está a passar por um caminho decalcado do que dissemos. A percepção de ter deixado as dívidas escapar ao controlo está a produzir uma resposta que evolui em etapas de fácil identificação. A primeira que foi corporizada pelo engenheiro governante foi tipificada pela negação. Claro que esta negação não era absoluta, havia um fortíssimo componente de manipulação e condicionamento, mas a realidade só pode ser retratada por esquemas porque a nossa compreensão e capacidade de transmissão é o que é – num registo de bom selvagem, Sextus até pode aceitar que a manipulação é filha dilecta e primogénita da incompletude da transmissão e este mal foi apreendido pelos homens desde o início, o que se pode é especular se a própria noção e praxis do mal não deriva fatalmente da incompletude, ou seja, o bom selvagem ao ver-se incompleto fica sujeito á alta probabilidade do mal. Mas o nosso engenheiro não é um bom selvagem, como sabemos confessa-se como animal feroz.

Nesta altura da resposta sobrepõe-se várias etapas, com a aceitação do dever adicionada da reconstrução da realidade, ambas a sofrer já a sombra da quasi emergente da desistência e anulação perante o pai. De qualquer modo é bom lembrar que uma análise da dívida privada seria muito interessante, já se sabe que a maioria repousa no imobiliário mas o restante não está iluminado adequadamente e esse restante não deve andar longe dos 100 mil M de euros – paro onde foi, para além dos depósitos no exterior, há realmente um valor importante de maus negócios, de maus projectos, algo que Sextus gostaria de saber.

Seja como for, o desemprego finalmente surgiu na boca da cena e levanta sem dúvida o problema mais importante. Há algum debate sobre o papel do emprego na estruturação de um homem, mas este debate ocorre em modelos experimentais ou em projecções futuras derivadas desses modelos. Na sociedade que é a nossa o desemprego é constituinte insubstituível do carácter humano e um afastamento prolongado da actividade gera algo diferente. O desemprego prolongado não originará apenas um tipo de resposta, mas num grande grupo, provavelmente o dominante vai criar um sub-humano irrequieto e bastante asocial. Será alguém que terá tendência a percepcionar-se como incompleto com tendência a exteriorizar essa falta, esse mal. Como já qui se citou abundantemente, tudo isto foi pensado há muito tempo e até já gerou um protótipo de resposta, o tittytainement. Outros mais optimistas refugiar-se-ão numa realidade muito diferente que pode ser lida num livro engraçado “Robots will steal your job but that’s OK”, mas Sextus não partilha essa visão. Se isso ocorrer, os neoliberais tinham razão e os pirrónicos estavam no erro, criaram o homem novo.

Sextus está convicto que mais do que o encolhimento do estado social, será mais complicado gerir a competição pelo emprego e é disso que se trata no mundo ocidental em compita com os anteriores desempregados do sul e da Ásia. Neste caminho, muitos feridos irão morrer porque a dívida mundial só era facilmente gerível em ambiente de crescimento económico e demográfico. Mesma este último vai desaparecer, basta ver o que está a ocorrer no sudoeste asiático e na China, o auemento demográfico vai repousar sore o sub-continente indiano e a áfrica.

O caso português torna-se dramático, o caminho para a reestruturação da dívida é percorrido com razoável velocidade e já não nos resta muito até lá chegar. Tudo isto pode ser mais complicado se as portas da emigração forem parcialmente encerradas, rapidamente e em apenas uma geração teremos um dos países mais velhos do mundo sem capacidade de suportar o grande número de desempregados que ainda vai crescer mais. Não teremos capacidade para o tittytainement, podemos ser empurrados para a terceiro-mundialização, mas sem a dimensão de alguns desses países, nações desse mundo pequenas são mesmo simpáticas e quase inexistentes, seremos uma ilha, infelizmente com águas algo frias e sem frutas em abundância.

A elite lusa não quer saír do seu palácio de cristal, aguarda ordens e ajuda dos patrões. a limitação da autonomia chegou a níveis inesperados, mesmo para Sextus. Alguém acredita que nos seria permitido realizar um referendo sobre a manutenção do euro, não foi assim que caíu o governo grego, não obrigaram or irlandeses a repetir o referendo até encaixar. Não disse Obama a Cameron que o projecto de tratado comercial entre os USA e a CE não poderia ser reproduzido com o RU caso este optasse por saír.

Trinta anos depois da experiência democrata portuguesa descobrimos finalmente o D., equivalia a dívida, desemprego, dependência e desistência.

Tudo isto se tornou mais fácil após dois séculos de cinismo, o homem não soube suportar o embate com o Iluminismo, isto num plano mais alargado ao mundo ocidental. Podemos ficar entregues ao debate entre os revolucionários do passado (islâmicos) e os do futuro (judeus) olhados à distância por aqueles que convivem há muito com a ausência do passado e do futuro 8hinduistas e budistas). A outra religião do livro retirou-se amedrontada e cansada para os claustros e igrejas vazias.

A gestão da realidade torna-se agora mais fácil, o buraco europeu é paradoxalmente mais fácil de gerir do que o buraco norte-coreano. Os neoliberais realmente ganharam aos marxistas, o homem novo dos primeiros é mais fiável do que o dos segundos até porque os primeiros querem essencialmente tirar, os segundos querem impôr antes de dar, o que resta a quem se tira tudo em troca do irrespirável e gélido único palácio de cristal é a infantilização total que quase dispensa o grande irmão, aqueles a quem nada se dá a não ser a vontade do futuro exigem mesmo múltiplos grandes irmãos e há sempre o risco da avaria. È por isso que Sextus tem saudades dos noticiários norte-coreanos.

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