Pode-se governar á distância recorrendo aos serviços dos funcionários e capatazes, mas por quanto tempo ou a fraqueza do projecto de controlo pelo mundo financeiro

Segundo relata o último número do Expresso, um pequeno vídeo extraído de um programa de José Gomes Ferreira está a ser visto e comentado por muita gente na net. Sextus tinha chamado a atenção, nessa altura, para esse diálogo entre o apresentador e Moreira Rato. Brevemente, apenas se tratava de expressar a surpresa pela não permissão de acesso de investidores individuais ao mercado da dívida pública. Nem Moreira Rato respondeu nem qualquer partido do arco do poder o fez nos dias seguintes. A Lusitãnea não está sozinha neste campo, embora alguns países não partilhem esta opção, os caso mais notórios são o Japão e a Itália. Pode-se também ficar surpreendido pela ausência de um debate nos jornais lusos sobre isto, mas será que se pode.

Também neste número do Expresso é muito interessante a crónica de João Duque sobre a sucessão de notícias sobre os contratos swap.

Nada que não venha ao encontro do que aqui se tem defendido. Se a crise por que passa o Ocidente é multifacetada com mais do que uma causa dominante, há um vector de tal forma relevante que permeia quase todos os outros, com a excepção da modificação demográfica cuja relevância toda a gente acorda – a natureza acaba por gerar mais consenso de apreensão do que a obra humana, nada mais previsível. Esse vector é o contributo destrutivo do mundo financeiro para esta crise que tem várias facetas mas a principal é a mentira da avaliação que os bancos fazem dos seus activos o que gera a mentira dos passivos dos outros- algo que muita gente parece não querer lembrar como é que se constrói uma folha de balanço, ou então a anedota de querer produzir e reduzir o consumo ao mesmo tempo.

Este poder consegue acumular mais poder de forma contínua e coloca os seus funcionários em todos os sítios importantes, protege-os e promove-os de uma forma profissional e eficaz. Os maiores disparates são apagados, as maiores irrelevâncias são elevadas a decisões estruturantes, as correlações fabricadas a martelo são providas a leis naturais, as tautologias grotescas elevadas a folhas normativas.

A compra e controlo dos meios de comunicação data de há várias décadas, quer de forma directa como no caso de alguns casos em Portugal, quer de forma indirecta, emprestando os avultados meios financeiros para esse controlo a personagens que ninguém sabe donde vieram nem para onde querem ir. Estes meios de comunicação ocupam-se predominantemente da falsificação, da manipulação e da distracção – querido líder norte-coreano, os lusos tremem de emoção por sonhar que alguma vez nos visitarás.
Claro que esta acumulação de poder corrompe e quando maior for, maior será o poder corruptor, quer nos próprios titulares desse poder que formam uma percepção de inimputabilidade, quer nos seus agentes com folhas de pagamento mais ou menos directas.

Estas dificuldades na condução das sociedades são conhecidas há muito e foram alvos de teorias e hipóteses de resolução. A mais remota e muito célebre, quer pelo seu conteúdo notável quer precisamente pelo seu carácter primicial é a “República” de Platão. Sabe-se que a solução lá proposta, quando foi mais ou menos implementada, rapidamente desviou para paranóides governações com mais ou menos auto-destruição implacável. Os homens puros nunca escapam ao seu carácter terrível, essa cautela era comum ao homem de estado britânico até ao efeito corrosivo de muitas décadas de dinheiro abundante ter permitido ao poder da City escolher cada vez mais formas degeneradas dos seus centuriões, atingindo um zénite no incansável Blair, o pai e a mãe de todas as PPP, seja civis, seja militares, o homem das visões, a terceira via para o mundo novo.

Sextus também acha que soluções para a governação são decepcionantes, pelo menos do ponto de vista teórico. Como qualquer céptico encartado, potenciado pela sua profissão, o melhor que se pode conseguir é a profilaxia – sempre imperfeita e parcial – e a menorização dos estragos quando estes acabam por surgir.

Traduzindo, não se pode deitar fora o bébé com a água, os méritos do mundo financeiro foram provados para além da dúvida, assim como os limites do mesmo. O problema está na capacidade das sociedades em quebrar e é disto que se trata, quebrar, o poder financeiro e reduzi-lo das actuais proporções gargantuescas, insaciáveis. A necessidade disto é agora muito real, tanto mais que o poder financeiro começa a tomar a sua visão como a única objectiva e sensata, a famosa não há alternativa – antes já o poder financeiro tinha promovido e publicitado até saturno o monumental equívoco do nipo-americano não historiador. A realidade que está a construir é demasiado perigosa mas muito eficaz, assenta na aliança entre o lúmpen e os capatazes, um pouco como se Roma passasse a ser governada á distância pelos senadores que projectavam para o fórum os escravos e os centuriões.

A Europa e a sua fingida união de nações e da moeda é mais um desses actos de tomada total de poder pelo mundo financeiro.

Um dos maiores medos de Sextus respeita a uma condição que lhe parece necessária para este projecto seguir o seu curso, a manipulação desenfreada associada à infantilização. Também a educação das crianças passa pela apresentação de soluções únicas e globalizantes, para uma criança não parece haver maior bem que estarmos todos juntos comungando da mesma visão, da ausência de dúvidas, a criança sonha sempre em matar o incómodo, inesperado céptico que a começa a dilacerar.

A pertença de Portugal ao mundo da moeda única é publicitada como um bem que é preciso sofrer para o guardar, quando não é mais do que o cavalo de Tróia do mundo financeiro para mais controlo. No fundo, a moeda única seria aceitável se as empresas do estado e o próprio estado fossem impossibilitados de aceder aos mercados da dívida, deixando-os para os privados, apenas. O desastre é ouvir os nossos responsáveis afirmar o seu entusiasmo em voltar ao mercado para vender dívida pública. Mas tudo isto é compreensível, são os funcionários – capatazes desse poder.

Não será possível enfrentar o grande problema que a natureza nos confronta, a demografia, nem como recolocar a importância do emprego na sociedade a curto-médio prazo, nem como lidar com a apreensão da impossibilidade da efectivação do potencial de cada um sem quebrar o mundo financeiro ou sem quebrar o homem que conhecemos até agora. A não alternativa ao crescimento confronta-se com o mundo que conhecemos.

Paradoxalmente, depois de séculos em que as religiões do livro se casavam melhor com o modelo financeiro, chega a vez do casamento com o mundo hindu e budista. A irrelevância da vida para os orientais torna agora mais eficaz o seu conúbio com as finanças, o desejo da morte perante o interminável absurdo acalma-se com a distracção da bolsa. No ocidente, a morte de deus ou o seu contrário, o desejo de merecer o além, tornam mais insuportáveis a ausência de paraíso terrestre ou a inacção, respectivamente.

A fraqueza do projecto do mundo financeiro é que nunca avança com rostos, apenas as máscaras dos capatazes que são fracos porque não têm espírito, no sentido de Maquiavel, por definição. Roma foi governada, por assim dizer, durante algumas décadas, sem imperador por centuriões até á queda final. Se calhar, é a nossa distracção induzida que nos cega para reconhecer que já lá chegámos.

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