De Portas a Sowden ou o fim da infância e passagem à infantilidade adulta

Sextus sempre se apresentou como incapaz de adivinhar o futuro, pecha estrutural num céptico mas supõe que quase ninguém poderia antecipar a infantil decisão de Portas, legível num contexto de esgotamento perante o fracasso reiterado em mudar alguma coisinha importante que contribuísse para amparar o trajecto desgovernado deste país.

Talvez que esta demissão venha a constituir a última bóia de salvação de PPC se esta surpresa for adicionada por outra, esta oriunda de Belém com a antecipação de eleições. Sextus acredita que Cavaco vai manter o governo que passará a estar suportado por uma maioria parlamentar casuística, pelo menos até á próxima Primavera, embora se reconheça a dificuldade de governar em tais condições. Infelizmente, muitos esquecem que a tarefa de governar este país é muito fácil depois do falhanço da geração que afastou os ingleses em 1830, com a excepção de um interregno protagonizado pelo consulado de Salazar. A elite portuguesa há pelo menos cinco gerações que não acredita na viabilidade do país, apenas divide a colecta dos impostos, que se tornou gorda nos últimos trinta anos e nos últimos tempos, com o agudizar da dependência cumpre as directivas externas com maior ou menor aproximação – estamos a reconhecer com o habitual destempo que a proposta da equipa de médicos à periferia era fraca e que o proclamado cumprimento excelente dos trabalhos troikianos apresentado mensalmente pelos jornais, mais do que publicidade fraca era o resultado das autoconvencidas análises dos gestores da treta e da coisa nenhuma.

Esta crise não vai pois mudar nada de relevante, como aqui já se disse, teremos que penar bastante mais até que se possa vislumbrar uma solução. Não é possível afastar esta elite pouco competente e desprovida do menor brio nacional mas por vezes a história presenteia-nos com surpresas, não é de todo impossível que a geração seguinte recupere a coragem da geração de 30 do século XIX.

Como diz Kanheman, não é verdade que tudo que pode correr mal corra mal, mas provavelmente o simétrico também é verdade. Talvez que o espectáculo protagonizado pela lamentável elite europeia perante o caso Snowden contribua para o lento mudar da geração seguinte, negando a construção perigosíssima do homem novo, habitante “low-cost” de um império globalizado, totalitário, exemplo desse fim de história, não do tolo japonês mas do preclaro e tuberculoso Blair britãnico.

É extraordinário que apenas passadas duas gerações se compreenda que a esperança que nem tudo corra mal reside no desmantelamento dos maiores blocos, incluindo e europeu, com a salvaguarda da recuperação da validade das regiões e das cidades e com o humilde reconhecimento de que já que não se consegue educar o padeiro, é imperioso diminuir-lhe a farinha que lhe chega.

Mais uma vez Snowden é útil – tal como aqui se disse, as actividades da NSA nada tem a ver com o terrorismo como compreenderam bem os chineses desde o início mas com espionagem económica. Os cidadãos não devem tolerar que os seus impostos sejam usados para isso e outros afins. Torna-se necessário levar a política de volta á dimensão menos perigosa e abanar os mitos que nos foram impondo, desde o que é bom para a General Motors é bom para a América até ao presente dito de salvar os bancos a todo o custo porque são demasiado importantes.

O estado deve ser reduzido às dimensões e funções mais razoáveis, o estado não pode ser uma agência de impostos em nome de bens ditos superiores mas que o não são. Se o soberano quer que para atravessar uma ponte se pague taxa para pagar o empréstimo, então não se construa a ponte. Os estados não devem poder endividar-se externamente, apenas internamente – leia-se como a substituição de Gaspar só podia ser por quem foi, neste estado suicidário, ou de como é possível fazer-se e desfazer-se contratos com instituições financeiras com a salvaguarda do sigilo e o espantoso que isto é, não vos contamos como usamos o vosso dinheiro.

Nunca como antes a importância da luta entre o direito do cidadão e o direito do estado foi maior do que é, nunca como antes se estabeleceu a confusão nas trincheiras. Dormimos com o inimigo, temos que lutar para nos livrarmos dele e do que está á frente. Historicamente o mais perigoso é o que está em frente, mas o mais decisivo é a capacidade do que está ao lado em transformar uma vitória numa cedência igualmente fatal.

Da incapacidade em Snowden arranjar asilo até á inevitabilidade da escolha da ministra, a passagem de Portas à reforma por no fundo não ter conseguido fazer a transição dos sonhos de criança para a enfadonha realidade da elite adulta infantilizada.

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