De Bruxelas a Bagdad, a mesma luta ou as possibilidades desconhecidas de relacionamento entre um lémure e um gorila

A demissão, na aparência, tresloucada de Portas velou muito do interessante que se vem desenrolando esta semana que como base pode ser correctamente lida como os perigos e efeitos laterais graves da formação do império, seja ele qual for, o nível de extensão tentacular desses poderes, geralmente a fase mais avançada antes da implosão. O que preocupa Sextus é o que de quase definitivo pode ter causado o império, a história não vai para a frente como diria muito bem Popper e portanto também lhe está vedado o voltar atrás.

O primeiro evento que foi objecto do véu foi o conteúdo da carta gaspariana, escrita num momento de descontrolo por exaustão do mesmo. Torna-se difícil compreender como alguém que foi ministro durante dois anos se permite escrever um memorando como aquele. Mais ainda e apesar de tudo, esse memorando é coxo, inevitável consequência de alguém que certamente sabe muito de finanças complicadas e quase ilegíveis e que acabou por ficar intoxicado pela verborreia neoliberal.

Noutro post anterior Sextus realçou que o debate económico entre uma visão genuinamente liberal e a visão mista liberal-direccionada foi ganha por esta última, em vários embates, sendo mais interessante estudar os que ocorreram na Inglaterra do século XVI na origem da indústria dos texteis e nos EUA no século XIX sobre até onde podia ir a divisão do trabalho / divisão de produtos, mas esta transformação e martelagem da realidade é uma característica deste credo.

Pior contradição, o que esta teoria ainda não resolveu é a que existe entre mercado e globalização – mercado único. O liberalismo sério só é compatível com uma multiplicidade de mercados mas torna-se destrutivo com a imposição do mercado único pelos incubentes nos vários produtos. As entidades reguladoras que poderiam atenuar esta contradição bloqueante entre globalização, logo vencedor único e uniformização do mercado ex post pelo produtor, falhou tão clamorosamente que só os crentes ou intelectualmente desonestos querem não ver.

Mais, além das vitórias reiteradas da visão mista mesmo nos países ditos liberais, o que ocorreu nos cento e cinquenta anos desde a vitória do pensamento de Hamilton, nos EUA, foi a progressiva transformação do estado numa empresa cada vez mais gigantesca, capturado cada vez mais pelo mundo financeiro. Cem anos depois de Spengler e repetimo-lo aqui, ocorreu o inevitável, o mundo financeiro capturou tudo e acabou por extraír o estado do controlo da nação, mais correctamente, retirou o estado das mãos da elite terratenente e industrial das nações e pô-lo sob administração dos seus delegados capatazes.

Na Europa, o chefe de orquestra é o Sr. Draghi que “dit n’importe quoi” ao serviço desse projecto que como sempre é levado ao seu limite de desenvolvimento até á sua implosão. O limite teórico deriva da concentração do vencedor e da resultante eliminação da redundância dos seus competidores com o desaparecimento de lugares de emprego. Para já o Sr. Draghi trata de ajudar a limitar os teóricos prejuízos ex post da banca, só entendíveis à luz dos não menos teóricos lucros ex ante da mesma, algo que muitos do vulgo ainda não compreenderam e que tem sido dissimulado debaixo do conhecido termo alavancagem. Quando Draghi afirma ” the portuguese achievements are… if not outstanding” voamos céleres de Bruxelas a Bagdad.
A visão iraquiana alastra-se quando nos apercebemos do descaramento destas políticas de correcção da intervenção do estado que vão a par de taxas de impostos à volta de 50% e vendas ao desbarato de algum património do estado – ainda vamos saber coisas deprimentes sobre isso.

A expansão tentacular do império foi protagonizada pelos PIGS subtraídos da Irlanda e grécia (porque não foram chamados a pronunciar-se) e complementados pelos gauleses ao negar o voo do pobre boliviano. A ditadura global tenta forçar a entrada na antecâmara e não será precisa muita violência. Esta é parte que Sextus teme, os efeitos perniciosos da narrativa do fim da história, ou da frase “não há alternativa”, ou da globalização inevitável e desejável podem ter chegado a estadios de penetração muito profunda. Lembrando alguns escritos de semanas atrás- são conhecidas as repetições dos pirrónicos – a Coreia do Norte está em todo o lado, é um saltinho até Bagdad e depois outro até Bruxelas.

É verdade que este tipo de texto pode ser acusado de representar uma revisão pseudoactualizada do orgulhosamente sós mas Sextus repudia essa interpretação. O que se está aqui a apoiar era a versão antiga do sábio cepticismo inglês, a recusa já milenar de “Little John”, a sabedoria da navalha de Occam, a recusa dos entusiasmos proclamada por Buerke, o perceber que a ansiada paz perpétua do bom Kant é um desejo mais perigoso que o cinismo de Clausewitz.

O dilema, o debate, o confronto, se não formos profundamente anestesiados, vai ser entre os globalistas e os nominalistas políticos, entre o fim da história dos zombies e as agruras dos que querem viver livres, o dilema final vai ser a percepção ou a negação de que não há maior bem do que a liberdade-independência que vai sempre acompanhada da divisão. O uno é um tema religioso, não é próprio do homem por muito que custe a César Augusto.

Bruxelas-Bagdad vai garantindo o pão e com isso a aliança do lúmpen com o subgrupo dos capatazes financeiros, aliança mais sólida numa nação com uma elite demissionária que não quer o risco de mandar, almeja o conforto da renda e da representação. Se conseguir manter isto, logo que condimentada com o uso repetido e inteligente do medo, a raça humana vai evoluir nos periféricos primeiro, como os outros primos primatas – Sextus confessa a sua ignorância sobre as possibilidades de acasalamento entre um lémure e um gorila.

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