Da sabedoria das multidões à rebelião das massas, ou duas patas é bom, quatro patas é mau

Três notícias não muito importantes divulgadas por jornais americano, espanhol e inglês compõe um conjunto que vale mais do que os seus constituintes.

Detroit, que já foi a quarta cidade mais importante dos EUA e uma das cinco mais ricas do mundo há apenas duas gerações, aproxima-se da falência com uma dívida superior a 18 mil M de dólares. Os sinais de desagregação da sociedade de Detroit acumulam-se com ruas quase sem iluminação, com uma demora média de 58 minutos na resposta da polícia a apelos, com uma resolução dos crimes em apenas 8.7% dos casos, com ruas de casas semi-destruídas, semi-abandonadas. Todos sabem qual foi a causa por trás desta involução.

Depois da crise do “subprime” e da falência de alguns bancos com o destaque do LB e outros igualmente importantes salvos com o dinheiro dos contribuintes, no meio das pias afirmações que tal não poderia voltar a acontecer porque os bancos centrais iriam estar atentos, vindo para o terreno e criando com muita publicidade os testes de stress bancário – Sextus lamenta o prematuro fim de tais exames, tão compreensivos, rigorosos e tranquilizadores, como é possível que tão boa prática tenha fenecido tão inopinadamente impedindo o justo brilho dos srs. Draghi e Constâncio – eis que temos agora a notícia da imparável imaginação do Bankia durante os anos de 2009 a 2011. Este buliçoso banco madrileno vendeu um produto financeiro com juros de 7%, ainda melhor que as dívidas soberanas. Como era muito bom, a aplicação financeira foi mais tarde compulsoriamente trocada por outro, terminando em conversão em acções bancárias, fazendo de anónimos espanhóis encartados banqueiros. No meio deste carrosel lá se foi 90% do valor investido.

Foi feita uma sondagem europeia envolvendo 114 mil espécimens deste continente. Um pouco menos de 10% afirmam que os líderes dos seus países estão a fazer um trabalho adequado, mas já mais de 50% entendem que os governos são dirigidos por grupos de interesses – a incultura histórica é portanto ainda vasta -, um pouco menos de 50% entendem que os partidos políticos constituem as instituições mais corruptas. É interessante perceber que 8% dos portugueses confiam que o seu governo está interessado em combater essa corrupção, 11% dos britânicos pensa o mesmo do seu e 13% dos germânicos acredita que a Sra. merkel também não está desatenta – lá se vai a teoria da ética protestante.

Não se trata aqui de reflectir na eventual sabedoria das multidões, pelo contrário, um inquérito deste tipo não deveria ter produzido resultados divergentes mesmo na época de Vitória, o que aconteceu foi uma conversão da melhor organização inglesa em manifestação de seriedade, publicitação inteligente mas não menos falsa. Os níveis de corrupção ingleses no século XIX poderiam ser menores do que no sul da Europa, Sextus duvida, mas enfim pode conceder tal, mas a dimensão da mesma era já enorme, quer nas relações exteriores (veja-se as confrontações entre os produtores de vinho portugueses e os intermediários ingleses em que valia quase tudo, a maneira como os ingleses enganaram quer indianos quer chineses levando o desplante até á infame guerra do ópio), quer interna e Sextus remete para as páginas deliciosas de Dickens nos “Cadernos de Pickwick”. O que é interessante é reflectir sobre a impotência que espelha este inquérito, também ela não muito diferente do que outras sociedades vivenciaram noutras épocas. O sentir da derrota do que parece razoável lê-se em múltiplas páginas, mas talvez as mais elucidativas são as que Cícero escreveu e que outros foram repetindo, repetindo.

Mais interessante é lidar com este velho sentir de impotência que se vai confrontar com os revolucionários do presente, os apóstolos da globalização. Durante duas décadas ouvimos os discursos da inevitabilidade, da bondade da globalização e da uniformização. Não percebemos que o projecto, que até pode ter sido benigno e inocente no início – vejam-se algumas páginas de Toynbee – inclui dentro de si o pefeito ovo de serpente.

Snowden é mais um marco nesse caminho. Já aqui se escreveu que aqueles que parecem ser os nossos companheiros numa abordagem prudente, céptica e conservadora da sociedade pelo seu superficial gosto do individualismo são no fundo falsos companheiros. Os arautos do aprofundamento da globalização são, talvez, os últimos agentes do socialismo financeiro que, mesmo sem o querer de forma muito consciente, percebe a sua lógica totalitária. A globalização é o novo totalitarismo das ideias, das soluções, da segurança, da ausência de sítios de fuga anulados pela segurança global imposta pelo suposto combate ao terrorismo também total, da ausência da propriedade progressivamente confiscada pelos governos sempre ao abrigo de pretensos projectos ditos neoliberais, da luta sempre desigual entre o banco e seu cliente, pela regulação até ao absurdo para afastar competidores, pela homogeneização absurda, sufocante e destrutiva. O consendo global da sociedade vegetal.

Toynbee, curiosamente, reconhecia que na passagem para o seu desejado governo global poderia ocorrer uma fase de ditadura mas depois não conseguia explicar como é que do silêncio dos mortos emergia o homem aperfeiçoado que desejava. Ortega Y Gasset também especulou na sua conhecida “rebelião das massas” sobre a necessidade vital desse ditador, unipessoal ou colectivo.

Os cépticos percebem apenas que o evoluir dos tempos está a excluír a tranquilidade das opções taoístas. Se quisermos continuar de pé vamos ter de enfrentar os adversários e os falsos “compagnons de route”.

Em homenagem ao grande Orwell, duas patas é bom, quatro patas é mau.

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