DSK continua um grande cómico assim como a CE ou quando descemos com a mala não nos deixam sair

No post anterior lembrámos que a ficção necessita sempre da credibilidade que a realidade dispensa mas mesmos as boas frases do antigamente não resistem aos efeitos do dilúvio da manipulação.

Durante muitos séculos, a manipulação era dependente de um afunilamento e lentificação da informação. Era a capacidade de controlar o desvelar dos vários tempos que determinava o resultado, em paralelo com a administração da quantidade de dados disponíveis. Nas formas mais primitivas era o segredo.

A divisão do trabalho levou consigo a divisão da aquisição de competências. Há trezentos anos, os mais optimistas, particularmente o nosso conhecido Adam Smith, viram nisso quer uma fase natural da evolução humana – tinham razão – quer uma bondade dessa mesma evolução que permitiria a emergência das célebres vantagens competitivas.

Com o tempo, os paradoxos tomaram conta da situação, mas muito boa gente ainda olha para a história ou como assunto encerrado ou como uma marcha mais ou menos contínua, em frente.

Um dos paradoxos mais notáveis foi a evolução da manipulação para as técnicas da confusão, saturação e finalmente desorientação dos alvos. Custa muito a perceber que a antecipada caminhada para a informação em tempo real (estes termos dos gestores fazem sempre as delícias de Sextus) foi desviada a tempo por que tem o poder para a confusão em tempo real.

Estamos num a época em que quase tudo é admissível, sinais contrários são deglutidos e digeridos com maior facilidade que qualquer refeição por Pantagruel, em que indivíduos que sempre erram são apresentados como sábios – paradoxo que Rabelais e o seu conterrâneo Molière bem conheciam, com os médicos de então como os maiores representantes da ousadia e do moribundo conhecimento de latim.
Custa admitir que a diferença entre um telejornal de Pyongyang e outro de Londres que se pensava garantida possa ser muito mais difícil de encontrar – já nasceu o bisneto de Isabel II?

A crise portuguesa tem vivido debaixo desta confusão em tempo real, tanto propositada, como agente da história que parece adquirir formas animais nas curvas das épocas.

DSK deu uma entrevista engraçada á CNN na semana passada. Entre outras coisas, realçou a ausência de liderança europeia, usando a imagem de leões europeus governados por ovelhas que não sabem encontrar o caminho. Este foi o momento cómico da entrevista.

Imaginar encontrar leões dentro de um velho e arruinado palácio de cristal é de poeta. Confundir ovelhas com raposas é sinal de cegueira preocupante, que diabo, uma ovelha come erva, uma raposa destrói e come galinhas até alguém as pôr na ordem. Deixando de lado este momento cómico, sempre foi útil ouvir DSK proclmar o óbvio, sem indústria não há riqueza, com a excepção dos locais onde vivem as ditas raposas financeiras- aliás hoje a raposa GS anunciou lucros bem acima do previsto na linha das suas amigas do Citigroup e do JPMorgan. Também esta semana, ficámos a saber que a banca espanhola não empresta ás empresas, padecendo do mesmo que a prima portuguesa e ambas têm razão, para quê correr riscos na economia se o conforto do mundo financeiro está sempre alcochoado por governantes-representantes que tão bem cumprem o seu trabalho de funcionários, sempre actualizados pela cómoda leitura do FT em ambientes onde se respira madeira e couro, os preferidos de Sextus.

Até porque a situação ainda não equilibrou, veja-se a percentagem de capital próprio nos empréstimos do Barclays, inferior a 3% e do sólido HSBC, inferior a 5%, ambos certamente com desempenho notável nos testes de stress, ainda melhor que o já saudoso Banif.

Está certo que lá fomos confortados com mais uma notícia europeia, notando que estávamos no bom caminho mas desde que nos desviámos há duas semanas, a hipótese de um segundo resgate emergiu. É pena, até porque o Banco de Portugal relatou uma queda do investimento empresarial de 35% entre 2009 e 2013 e uma destruição de 700 mil postos de trabalho desde 2011.

Agora que os desempregados tinham tempo para ir para a bicha pagar as dívidas é que a CE nos entristeçe com o segundo regaste, que aliás corre o risco de não nascer, alguns dos companheiros das agências de notação baixaram a classificação do mecanismo de estabilização financeira europeia de AAA – ou seja gargalhada saudável e controlada – para AA+ – ou seja gargalhada curta mas suplicante e sufocante.

O paradoxo da globalização é a menor liberdade, quer do cidadão quer do consumidor, em comparação com a que era possível no tempo das fronteiras. O drama da globalização é que o seu sonho passa por irmos almoçar todos aos MD, KFC, gorgolejar uma de duas colas, terminar com milho numa cadeira de um cinema e crescer a barriga num estádio desportivo antes de adormecer a ver assassínios em directo.

O drama dos globalizadores é não perceber que aquilo que estão a criar é tão repulsivo e insustentável que não vão ter sítio para onde fugir.

O nosso drama é que para fugir a este projecto europeu insano – para os leões, entenda-se, para as raposas foi essencialmente um engano na dose, é sempre assim, o médico entusiasma-se e exagera no remédio – é preciso que o hotel se desmorone: “you can check in any time you want but you can never leave”.

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