As representações são para assistir, as falácias para pensar

Esta semana ainda vai a meio mas já se destacam várias notícias.
A primeira não será o debate parlamentar sobre a moção de confiança. Não podia ter sido muito diferente, persistimos em alimentar uma miragem de um oásis que nunca existiu. Os governos e os parlamentos são assim, lugares de representação de um cerimonial com funções de entretenimento e de alimentação do conhecido “as if”. É verdade quem em tempos de magreza é preciso ser mais cuidadoso na representação e o carácter vincadamente assertivo e positivo dos membros do governo pode ser excessivo e virar-se contra o feiticeiro. A Sextus parece que PPC aposta conscientemente nessa postura hiperbólica repetida e talvez venha a ganhar a aposta – a racionalidade tem pouco a ver com a actividade política, nunca teve e não é provável que o venha a ter.

Mas as notícias interessantes podem ser lidas numa magnífica análise sobre a crise financeira europeia publicada no Público, numa notícia sobre o hospital de Toledo, sobre o relatório do Tribunal de Contas a propósito das PPP nalguns hospitais portugueses e finalmente na interessante entrevista de Rio.

Comecemos pelo artigo sobre os bancos europeus que aponta claramente para um dos factores causais da recessão europeia, a má gestão das aplicações financeiras dos bancos, a começar pelos alemães, má gestão que persiste porque é premiada. Lembra que os bancos alemães detinham cerca de 700 mil M de euros de dívida grega, ou seja, não havia só loucos a tentar vender, havia outros, menos loucos, a comprar alegremente. Aqui, os mercados ficam irremediavelmente para segundo lugar, o risco moral foi abolido, algo que remonta ao início do século XX, numa crise financeira americana dos anos 1907-8. A derrota de T Rosevelt marca a vitória decisiva, a captura dos governos pelos bancos, captura que se arrastou às universidades e à imprensa, ambas quase proibidas de elevar a morte do risco moral ao sítio decisivo que é o seu. A morte do risco moral é a causa primeiro de tudo o que vem acontecendo, claro que acompanhada por outras, mas vida destas depende de forma unívoca da primeira. No artigo, o economista italiano de Chicago faz notar que a actual situação é extremamente vantajosa para a Alemanha que consequentemente a prolonga até onde pode e fortemente debilitadora para os periféricos, dando mais um sustentáculo ao que aqui se vem expressando, a saída para o buraco onde nos afundámos será sempre muito mais difícil enquanto persistirmos numa ligação atrofiante, claro que temos depois de ouvir todo o conjunto magnífico de doutores em economia que nada previram, que nada avisaram no passado mas que adquiriram agora certezas invejadas por todos e que desta vez negam que o futuro de uma gaiola é uma gaiola mais pequena.

A notícia sobre o novo e ainda não acabado (provavelmente nunca o será) hospital de Toledo pode ser acoplada á produzida pelo relatório do Tribunal de Contas sobre algumas PPP em hospitais. O hospital de Toledo, construído a 40% do projecto, já gastou os 300M de euros e está parado. Ou seja, por este ritmo iria custar á volta de 750M de euros. Quem conhecer Toledo percebe a enormidade disto tudo – aparentemente para funcionar iria necessitar de 1000 auxiliares de limpeza. No que interessa o relatório do TC, vários contratos estão analisados, incluindo os hospitais de Cascais, de Vila Franca de Xira, de Loures e é claro como a água, mas os partidos do bloco central ajudaram-se em introduzir confusão naquilo que o não é. A saúde foi transformada por um negócio do estado que lucra com as sub-concessões _ Sextus recomenda aos médicos a leitura de um importante editorial da revista da Mayo do corrente mês de Julho.

Sextus já fez notar a evolução dos estados para empresas, cada vez mais necessitadas de investimento – impostos, geralmente sobre o trabalho, é natural que uma empresa se lembre de aumentar os impostos sobre o trabalho e menos sobre as empresas – uma empresa sem concorrência – o estado quase por definição é monopolista -, inclusive coma a benesse de controlar as tristemente ineficazes autoridades de regulação.

Também se nota que este bloco central dos partidos do arco governamental funciona mais ou menos bem, com a excepção do que se assiste no deprimente espectáculo dos “swaps”. Toda esta cultura dos seguros assenta numa monumental falácia sobre a sua utilidade, falácia apoiada pelo estado que os torna obrigatórios para várias situações – na fundamentalista monarquia waabita os seguros são proibidos porque são considerados uma ofensa a Alá, alguém ouviu falar sobre as incoveniências disso? Já agora, os nossos sacerdotes do mercado facilmente perceberiam se não quisessem não ver, que por definição num mercado que funcionasse bem, as seguradoras teriam sempre lucros ou perdas marginais, algo que não se verifica – nesta altura um seguro na área vida é uma bomba de relógio ambulante, apenas se justificam de forma racional os seguros ligados a activiades claramente de risco elevado – foi assim que nasceram os seguros, para as viagens marítimas do século XVII, mas como é costume, o uso corrompe, desvia e transfigura até á caricatura irreconhecível. As inúmeras páginas das condições de seguro, tal como o que ocorre com a constituição do que deveria ser um simples depósito a prazo, são a contrapartida de uma actividade que de segura tem o menos possível- Sextus já inquiriu alguns gerentes bancários sobre o que pensariam se no dia anterior a uma cirurgia o médico os confrontasse com a assinatura de testamentos dessa dimensão.

A entrevista de Rio teve alguns momentos de clareza incontestável mas Sextus apreciou principalmente a sua referência aos pilares fundamentais para a recuperação lusa, a exportação e a substituição de importação pr industrialização. Isto é o núcleo mas necessita da energia fundamental, o investimento, a variável económica que mais se afundou na última década. Rio teve a honestidade de reconhecer que estava a falar de investimento externo.

Bom, tocamos no problema. Aquilo que não se quer discutir no mundo ocidental é a dissociação que tem havido entre o investimento e a capacidade de gerar emprego e lucro. Se não fosse o monumental resgate financeiro através da maior transferência de riqueza da história entre a classe média e o capital financeiro, as falências teriam sido múltiplas. O capital habituou-se a taxas de retorno impossíveis de manter, com alavancagens inimagináveis, recorde-se o que aqui se escreveu sobre o Barclays e o HSBC. Mais desestruturante, para já as taxas de retorno do capital serão sempre superiores no lado do mundo mais populoso e que mais tem de progredir, mais do que a China, a Índia e os seus vizinhos próximos. A agravar o problema, a bomba demográfica e a concentração de rendimento no 1% do topo, mais profundamente ainda no 0.1% de cima, o que atrofia o crescimento, o retorno para a economia de um país é muito maior com a venda de 50 Clios do que com um Aston Martin.

O que não temos a clarividência de reconhecer, tal como tem sido hábito na história, é que chegou um tempo de retrocesso, a vantagem competitiva do ocidente esboroou-se em grande parte, a caça é mais rara, os predadores cresceram, as raposa destroem mais do que aquilo que podem comer – na realidade, os números de comida atirada para o lixo no ocidente são surpreendentes, mais ainda se os traduzirmos em quantidade de terra necessária, água utilizada, energia dispendida. as soluções que buscámos são tão inevitáveis como parcelares e incompletas. O sucesso consistirá na aceitação e identificação deste erro e reintroduzi-lo num programa diferente, o crescimento contínuo é uma falácia, mesmo os mercados sabem isso mas não o querem aceitar.

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