Vindo de férias, sem tempo, Sextus pede-o emprestado a Tocqueville para responder a Fukuyama

O regresso de férias vem geralmente ao par com o retorno ao conhecido, ao confortável mas também ao cansaço do que não conseguimos melhorar, parece que a época de refrescamento de súbito se interrompeu incumprida. Nesta altura é determinante refazer a afinação das expectativas, tentar o dificílimo reequilíbrio entre um entre muitos e um para muitos, entre Lao Tao e Platão mas fugindo à armadilha do solipsismo e niilismo. Sustentar as gémeas falsidades do eterno retorno e da progressão da história não é aparente de imediato.

A política, desde sempre, tem que lidar com a modulação do que pode fingir querer fazer, o fim da “silly season” configura uma boa altura para tal. Até para corrigir alguns tiros, saúde-se o regresso de Fukuyama á profissão de historiador vertido pelo seu aviso que um dos próximos trabalhos da história ressuscitada será a conciliação da expectativa da classe média com a realidade, Sextus diria, com a sensação de morte iminente.

Há pois trabalho a fazer, mas não sabemos se há plano e metodologia para lidar com ele e se há agentes para tal, sempre pondo na primeira linha que os objectivos vêm depois da demarcação dos meios para os obter, algo que a muitas vezes perniciosa disciplina de gestão gosta frequentemente de obnubilar.

A resposta a Fukuyama não é nada fácil e para a tornar mesmo na pergunta um milhão, Sextus pede emprestada a reflexão de Tocqueville, que muitos citam mas talvez nem todos tenham percebido, dada a a manipulação que se tem feito da sua “Democracia na América”.

Deixo-vos com este sensato fragmento: “…Entre estes séculos de desordens e de misérias, encontram-se outros durante os quais as sociedades repousam e durante os quais a raça humana parece recobrar fôlego. Não se trata ainda, para dizer a verdade, senão de uma aparência; o tempo não suspende a sua marcha para os povos do mesmo modo que o não faz para os homens; uns e outros cada dia a caminho de um porvir que ignoram; e quando os cremos estacionários, é que os seus movimentos nos escapam. Assim, uma gente em marcha parecerá imóvel a outra gente que corre.

Seja como for, acontecerá haver épocas em que as mudanças que se operam na constituição política e no estado social dos povos são tão lentas e tão insensíveis, que os homens pensam ter chegado a um estado final; o espírito humano crê-se então firmemente assente em certas bases e não transporta os seus olhares para além de um certo horizonte.

É o tempo das intrigas e dos pequenos partidos.

Aqueles a que chamo os grandes partidos políticos são os que se apegam aos princípios mais do que às suas consequências; às generalidades e não aos casos particulares; às ideias e não aos homens. Estes partidos têm, em geral, traços mais nobres, paixões mais generosas, convicções mais reais, uma atitude mais franca e mais ousada do que os outros. O interesse particular, que desempenha sempre o maior papel nas paixões políticas, esconde-se aqui mais habilmente sob o véu do interesse público; logra até mesmo algumas vezes esquivar-se aos olhares daqueles mesmos que anima e faz agir.

Os pequenos partidos, pelo contrário, são em geral sem fé política. Como não se sentem elevados e sustentados em grandes projectos, o seu carácter tem o selo de um egoísmo que se produz ostensivamente a cada um dos seus actos. Inflamam-se mas permanecem frios; a sua linguagem é violenta, mas o seu passo tímido e incerto. Os meios que empregam são miseráveis como o próprio fim que se propõem. Daí vem que quando um tempo de calma sucede a uma revolução violenta, os grandes homens pareçam desaparecer de súbdito e as almas fechar-se a si mesmas.

Os grandes partidos alteram a sociedade, os pequenos agitam-na, uns dilaceram-na e os outros depravam-na; os primeiros salvam-na algumas vezes abalando-a, os segundos continuam a turvá-la sem proveito.
A América teve grandes partidos; hoje já não existem: com o que ganhou muito em felicidade, mas não em moralidade.”

Aquilo que Tocqueville não tratou de pensar foi na inesperada transformação do estado numa empresa, mesmo na América. Lido com atenção, percebe-se que Tocqueville intuiu com grande genialidade que o vencedor do seu futuro ficaria com tudo e que a tríada do sucesso americano que ele múltiplas vezes explicita inclui realmente um quarto elemento também por ele abordado, só que de forma aparentemente menos sistemática: à associação costumes, leis e terreno torna-se imprescindível adicionar a idade jovem dessa sociedade, como aliás se diz por outras palavras no excerto acima citado.

Enfim, regressamos a Spengler: o declínio é bem visível e a sua realidade apenas se torna mais opressiva pela sensação de eterno retorno que nos atravessa, do fim de história vislumbrado há duas décadas, da ausência de alternativa.

Realmente, sentimo-nos quentes, estamos vermelhos e temos febre, mas nem sequer conseguimos identificar o tumor enquanto que se vem insinuando a dor, diria Sextus na sua vertente médica.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s