Cem anos antes de Spengler, Tocqueville, cem anos depois, Sloterdijk, ainda temos quase cem anos antes de enfrentar as dificuldades anunciadas, ou PPC já percebeu que vai conseguir o empate técnico no fim do mês, o bobo continua de pé, Seguro morreu novo

“No começo de uma grande revolução democrática e quando a guerra entre as diferentes classes está somente ainda a nascer, o povo esforça-se por centralizar a administração pública nas mãos do governo, a fim de arrancar a direcção dos assuntos locais à aristocracia. Ao aproximar-se o final desta mesma revolução, pelo contrário, é ordinariamente a aristocracia vencida que tenta entregar ao estado a direcção de todos os assuntos, porque receia miúda tirania do povo, que se tornou seu igual e muitas vezes seu senhor.

Assim, não é sempre a mesma classe de cidadãos que aplica a dilatar as prerrogativas do poder; mas, enquanto a revolução democrática dura, acha-se sempre na nação uma classe poderosa pelo número ou pela riqueza, que paixões especiais e interesses particulares impele a centralizar a administração pública, independentemente do ódio pelo governo do vizinho, que é um sentimento geral e permanente entre os povos democráticos. Pode observar-se que, no nosso tempo, são as classes inferiores de Inglaterra que trabalham com todas as suas forças em vista de destruírem a independência local e de transportarem para o centro a administração de todos os pontos da circunferência, ao passo que as classes superiores se esforçam por manter essa mesma administração dentro dos seus antigos limites. Ouso predizer que virá um dia em que se verá um espectáculo inteiramente contrário” – já chegou, caro Alexis.

“Por grosseiro que seja um povo democrático , o poder central que o dirige nunca é completamente privado de luzes, porque atrai sem custo a si o pouco delas se encontra no país, e porque em tal sendo necessário, as irá buscar lá fora. Numa nação que é ignorante e ao mesmo tempo democrática, não pode deixar pois de se manifestar em breve uma diferença prodigiosa entre a capacidade intelectual do soberano e a de cada um dos seus súbditos, o que acaba por concentrar com facilidade nas mãos do primeiro todos os poderes. O poder administrativo do estado alarga-se constantemente, porque só ele é hábil o bastante para administrar”.

“Já disse como o temor da desordem e o amor do bem-estar levavam insensivelmente os povos democráticos a aumentarem as atribuições do governo central, único poder que lhes parece por si mesmo bastante forte, bastante inteligente e bastante estável para os proteger contra a anarquia. Quase não necessito de acrescentar que todas as circunstâncias particulares que tendem a tornar o estado de uma sociedade democrática perturbado e precário, aumentam esse instinto geral e levam, cada vez mais, os particulares a sacrificarem à sua tranquilidade os seus direitos”.

“Quero imaginar sob que traços novos o despotismo se poderia produzir no mundo; vejo uma massa inumerável de homens semelhantes e iguais que giram sem repouso sobre si mesmos para se proporcionarem prazeres pequenos e vulgares, com os quais enchem a alma. Cada um deles, retirado e à parte, é como que estranho ao destino de todos os outros: os seus filhos e os seus amigos particulares formam para ele toda a espécie humana; quanto ao demais dos seus concidadãos, está ao lado deles, mas não os vê; toca-os e não os sente; não existe senão em si mesmo e para consigo mesmo, e, se lhe resta ainda uma família, pode pelo menos dizer-se que já não tem pátria”. – temos os globalistas da actualidade a cumprirem esta notável previsão.

“Acima destes eleva-se um poder imenso e tutelar, que se encarrega, só ele, de garantir o seu gozo e de velar sobre a sua sorte.É absoluto, minucioso, regular, previdente e brando. Assemelhar-se-ia ao poder paternal se, como ele, tivesse por propósito preparar os homens para a vida viril; mas não procura, pelo contrário, mais do que fixá-los irrevogavelmente na infância; agrada-lhe que os cidadãos se regozijem contanto que não pensem senão em regojizar-se. Trabalha de bom grado em vista da sua felicidade; mas quer ser o seu único agente e o seu único árbitro; provê à sua segurança, prevê e assegura as suas necessidades, facilita os seus prazeres, conduz as saus principais ocupações, dirige a sua indústria, regula as suas sucessões, divide as suas heranças; porque não poderá tirar-lhes inteiramente a incomodidade de pensar e a fadiga de viver?” – já o conseguiu, leia-se a Sloterdijk na “Crítica da Razão Cínica”, ou na versão democrática, o pensamento único, ou na versão cavaquista, dois homens honestos com o mesmo quantum de informação tomam a mesma decisão sobre um problema ou na versão do gestor, as regulações e as entidades reguladoras, que cometem o erro de misturar de forma abusiva o rigor com o cómico.

” Depois de ter assim tomado nas suas poderosas mãos cada indivíduo por sua vez, e de o ter amassado à sua vontade, o soberano estende os seus braços por cima da sociedade inteira; cobre a sua superfície de uma rede de pequenas regras complicadas, minuciosas e uniformes, através das quais os espíritos mais originais e as almas mais vigorosas não podem despontar saindo da massa; não quebra as vontades, mas amolece-as, verga-as e dirige-as; raramente força a agir, mas opõe-se sem cessar a que se aja; não destrói, impede de nascer, não tiraniza, tolhe, comprime, debilita, extingue, atordoa, e reduz enfim cada nação a não ser mais do que um rebanho de animais tímidos e industriosos, cujo pastor é o governo”.

Por outro lado, o gosto do bem-estar aumenta sem cessar, e o governo apodera-se cada vez mais de todas as fontes do bem-estar.
Os homens avançam pois por dois caminhos diversos em direcção à servidão. O gosto de bem-estar fá-los evitar intervirem no governo, e o amor do bem-estar coloca-os numa dependência cada vez mais estreita dos governos”.

“É com efeito, difícil de conceber como poderiam homens que renunciaram inteiramente ao hábito de se dirigirem a si mesmos ser bem-sucedidos quando se trata da boa escolha dos que devem conduzi-los; e não se nos fará crer que um governo liberal, enérgico e sábio, possa alguma vez saír dos sufrágios de um povo de servidores” – o impasse do palácio de cristal.

“Uma constituição que fosse republicana na cabeça e ultramonárquica em todas as putras partes, pareceu-nos sempre um monstro efémero. Os vícios dos governantes e a imbecilidade dos governados não tardariam a acarretar a sua ruína; e o povo, fatigado dos seus representantes e de si mesmo, criaria instituições mais livres, ou voltaria em breve a deitar-se aos pés de um único senhor.”

Estes parágrafos extraordinários devem ser adicionados de dois factores agravantes que Tocqueville também previu mas que não soube antecipar o seu relevo. Quanto muitas vezes se lê estado deve substituí-lo por algo mais danoso, o senhorio impessoal, invisível, inimputável, globalisante do poder financeiro, ele próprio já fugido do controlo inicial para as áreas cada vez mais cinzentas e perigosas dos capatazes que, já não sabemos, se serão os únicos donos do castelo e que rotineiramente descem para colectar e beber – entra aqui a predição de Spengler sobre já sermos socialistas de e um extremo ao outro do mundo e que matou a conhecida fada da confiança, substituída pela fada da selectividade e apropriação dos impostos.

O outro factor é a imprensa, Tocqueville acreditava que a liberdade de uma sociedade democrática amadurecida e centralizada só poderia evitar o desastre com a ajuda de uma imprensa livre. Não podia prever a captura da imprensa mundial por um pequeno grupo, nem previu qual seria a fonte de financiamento da imprensa, regressamos a a Spengler, “quando se fala da liberdade de imprensa pergunto sempre quem paga?”

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