Provavelmente, De Grauwe tem razão estando errado, Bessa está errado tendo razão ou a importância entre distinguir o erro próprio do engano pelo outro

No caderno da economia do último número do Expresso podemos ler dois artigos sobre o capital, algo contraditórios.

O economista belga trata resumidamente da emergência das bolhas financeiras que vêm mudando de características desde as últimas décadas, embora sempre respeitando o nuclear da sua génese, uma chegada extemporânea e excessiva de capital na aplicação de um produto.

Nos últimos tempos, com a completa desregulação do mercado de capitais e com o lento, mas consistente, progresso de sociedades imensas que antes estavam quase que arredadas desse mercado, a deslocação do capital sofre ainda mais da influência do conhecido “animal spirits”. Por muito que nos custe a aceitar, nem a maciça presença de gestores e economistas tem prevenido os erros, por vezes demasiado grosseiros, na decisão de alocação de capital. Isto pode derivar quer da ineficácia do processo de decisão, algo que Kahneman brilhantemente expõe no muito recomendável livro “Pensar depressa, pensar devagar”, quer na habitual sobrevalorização das qualidades que cada um faz de si próprio que leva a confundir o acaso com o mérito – a união entre a leitura das entranhas do animal e as virtudes que um grande homem herdou, equipando-o para os grandes feitos tem milénios e talvez, só um levantino como NN Taleb pudesse estar congenitamente dotado para escrever “Fooled by randomness”, que Sextus também recomenda.

(O levante é talvez a região em que a história mais decisivamente mudou de curso sob a influência de pressões tão diversas que a sua resultante parece depender, mais do que da vontade dos homens, da vontade do tempo, no sentido de “atrás de tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir” ).

De Grauwe realça o óbvio que nos recusamos a ver e que muitos outros querem esconder. O resultado natural dos “animal spirits” á solta é a criação imparável de bolhas, tanto mais imparável e veloz quanto há sempre uma equipa para limpeza dos destroços, a colecta feita com grande sucesso junto da classe média. Esta rapacidade tola e autista vai, como no conto, matar a galinha dos ovos de ouro e sem galinhas, as raposas entram num buraco de todo o tamanho. Até agora a peça tem sido aguentada pelo actor anunciado como estrela mas que realmente nunca irá aparecer, a boa fada da confiança.

Ligamos aqui ao erro de Bessa, que de forma lateral apela à surda fada (na realidade, morreu de velhinha, coitada). Bessa, que certamente leu Smith mas creio que o já esqueceu quando ele define capital. Bessa afirma, com aparente razão, que o factor trabalho não é o factor limitante na produção nos tempos presentes, mas sim o capital. O erro é o esquecimento da definição de Smith. Capital, para o escocês, é o factor que permite empregar o trabalho, mas Smith não se esqueceu, muito pelo contrário, que esta definição resvalasse para o modo restritivo. Ele incluía nisso a resultante do trabalho, ou seja essa capacidade dependia da venda do produto, é necessário a seguir o mercado. Bessa esqueceu isso. Nada adianta produzir se não for exequível e lucrativa a colocação do produto. A constante deslocalização dos produtos para o abastecimento dos mercados levou ao nascimento do pensamento mágico do mercado como entidade em permanente expansão.

Para Portugal, pouco adianta a captação de algum capital adicional seja através de que via, pela redução directa dos impostos, pela atribuição de incentivos e “tutti quanti” que a classe média têm suportado. É fundamental a exequibilidade de colocação do produto. Aliás, isto que Sextus diz tem uma outra tradução, ainda mais evidente e de aparecimento mais precoce nas recessões, a diminuição da utilização da capacidade produtiva. Se é verdade que tem havido pouco investimento industrial, mesmo assim a capacidade produtiva está claramente subutilizada, há vários anos.

Chegamos à tese que Sextus vem apresentando desde há algum tempo. Por bizarro que pareça, os factores limitantes na actual crise são o desemprego e os custos inerentes e não a aparente falta de capital. Só é verdade que há uma falta relativa de capital por comparação com as décadas anteriores, tempos em que as sociedades asiáticas e até sul-americanas estavam semi-desligadas dos progressos do ocidente e que competem com ele para a colocação do dinheiro.

O problema não é haver falta de capital para montar uma fábrica de automóveis, o problema é que não temos possibilidade de usar o capital na definição de Smith, o problema é que não há mercado para continuadamente aumentar a produção. Aliás, o que há neste momento, é uma quantidade como nunca houve na história, de capital parado em paraísos fiscais.

Certamente que esta análise pode ficar muito mais complexa se a seguir formos avaliar grande parte dos activos e passivos mundiais, incluindo o referido dinheiro parqueado em “off-shores”. Mas isto não muda também o núcleo da tese de Sextus sobre a inserção europeia de Portugal, o maior erro da história recente do nosso país. Quem achar isto muito excessivo, por favor, dê uma olhadela para os países europeus que não entraram na CE, Noruega e Suiça, estavam bem antes e continuam razoavelmente bem depois.

A grande dúvida consistirá em desvendar a causa do erro e só assim se poderia tentar corrigi-lo. Foi erro de decisão, igual ao que o pato comete ao ver o primeiro objecto animado identificando-o com a progenitora, ou foi a captura do país pelos capatazes do globalismo financeiro e os seus contratados, a inamovível elite política. Se foi erro, é difícil mas possível fazer alguma coisa, se não, que nos valham todos os deuses e todos os santos pelas décadas terríveis que temos à frente.

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