A dificuldade em olhar através do fumo

Continuamos submergidos pelo oceano do lixo da manipulação. São os números que não concordam, 130% é bem diferente de 118% – a polémica BP e ML Albuquerque, é o ministro alemão que tanto diz que a evolução é positiva e que aponta para o retomar da autonomia financeira portuguesa e no dia seguinte vira noventa graus, é o engraçado holandês que se esqueceu que não tinha acabado o mestrado mas que se lembra agora que, afinal, os portugueses não mostram capacidade para implementar reformas, são as consecutivas notas positivas e muito positivas da avaliação da execução do memorando por formidáveis gestores de um banco português, é a constituição que limita e não limita, Barroso a afirmar que Portugal precisa de conquistar novos investidores, as importações que sobem mais de 6% de um trimestre para outro, etc.

A algazarra não tem limites, a confusão está metodicamente implementada. É certo que as teorias da conspiração são próprias das classes mais ignorantes e desfavorecidas, mas esta boa regra como qualquer outra tem excepções.

O mais interessante é olhar para a resposta das multidões, a discutida sabedoria das massas, algo que tem um pouco de construído e logo voluntarista, mas também que tem de sofrido e submetido – a formação da consciência é algo de muito interessante, Sextus recomenda uma olhadela por Hoffstadter e o seu último livro “I am a strange loop” aonde se vislumbra os contributos de dois caminhos tão opostos, a auto-referenciação e a transmissão entre os membros da sociedade.

Essa “sabedoria”, quase impossível de adquirir, palidamente reflectida em sondagens feitas com honestidade metodológica ou no escrutínio de sinais indirectos mostra que as sociedades europeias perderam a confiança nos seus representantes, algo muito velho, mas agora para valores tão baixos que podem, porventura, ser algo de novo.

Em Portugal os melhores sinais indirectos serão a emigração, a imigração e a taxa de natalidade.

A emigração lusitana recuperou as taxas da década de sessenta do passado século, dos finais do século XIX, do primeiro terço do século dezoito. O país voltou a deixar escapar uma quantidade demasiado grande da sua população e desta vez, diferentemente das ondas migratórias precedentes, não será parcialmente ressarcido com vultuosas remessas de divisas, quer porque na cabeça destes novos viajantes o retorno não é seguro, quer, principalmente, porque as taxas de poupança que vão conseguir serão certamente muito inferiores ás dos seus antepassados, novamente por duas razões principais, primeiro porque agora estão mais inclinados a gastar maior percentagem do que conseguem ganhar para conseguir melhor assimilação na nova sociedade para onde foram, quer porque a margem de manobra financeira é também mais pequena. Apesar do inegável sucesso relativo da Alemanha, não se tem dado a devida atenção às mudanças em curso nesse país, também afectado por maior redistribuição do lucro para o capital e menor para o trabalho, consequência de vários factores, talvez o mais esclarecedor seja o progressivo aumento dos mini-empregos que têm permitido manter uma taxa de desemprego bem abaixo dos 10% com a contrapartida de um pagamento muito menor (estes mini-empregos já atingem um pouco mais de 15% dos assalariados).

A imigração para também tem estado a descer de forma muito clara desde os últimos cinco anos e actualmente, a diferença entre os dois movimentos migratórios é claramente negativa para Portugal.

Falta o terceiro elemento deste tripé fundamental, a taxa de natalidade que desce de forma muito consistente. No primeiro semestre deste ano o número de nascimentos foi inferior em cerca de 8% ao do semestre anterior, que já tinha atingido um mínimo histórico.

No meio do fumo de opiniões de duração igual aos louva-a-deus, de afirmações contraditórias que contam todas as oscilações do fumo, cujo resultado final será sempre a dissipação, estes dados demográficos são ainda mais sólidos do que o rochedo a que se agarrava Aron. O país contrai-se a uma velocidade incompatível com a sustentação do corpo insuflado de ar a que se deixou chegar.

O que está em causa está muito mais baixo do que os nossos representantes discutem, não se trata de regular a quantidade de água ou de adubo a administrar, a terra foge de debaixo dos nossos pés e para piorar, tal como é costume, quando isso acontece, os capatazes limitam-se a mudar de sítio e de emprego, os donos ficam com a terra deslavrada e alagada.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s