Gaspar enganou-se, não fique triste, o Ocidente também

Já poucos se lembram da soleníssima promessa de Gaspar sobre o retorno aos mercados financeiros em meados de setembro de 2013. A lentidão da voz tornava-a ainda mais credível, nenhuma sílaba ficava na dúvida. Agora, também já não há volta, Gaspar enganou-se, não voltamos ás compras, os juros voltaram a subir de forma persistente acima dos sete por cento (mais um número mágico da novilíngua dos gestores financeiros), até a já esquecida S&P reapareceu com a sua previsão negativa.

Já aqui se disse, o que é mais curioso é que este falhanço volteia alegremente com as sucessivas avaliações positivas ou muito positivas dos trabalhos de casa apresentados pelo governo, refiro-me áquilo que o Expresso publica mensalmente sobre este assunto, avaliação feita por uma empresa do grupo Espírito Santo (é verdade que ficámos a saber ontem, que as práticas de investimento desse grupo são algo afastadas daquelas que o estúpido bom senso aconselharia, mas quando estamos defronte do brilhantismo de gestores financeiros,apenas nos resta suplicar que não entre uma gaivota, desorientada á procura de alimento). Recorrendo a metodologia antiquíssima e muito desacreditada, o silogismo, esta discrepância facilmente se explica se aquilo que se pede e avalia não é decisivo e aquilo que ficou esquecido é.

Quando alguém vai a Lisboa e visita algum organismo público começa a ficar desconfiado sobre a tal reforma de estado, que se nota mais pela redução da água engarrafada á disposição, pelo corte das natas, mas com o café ainda assegurado. A reforma do estado está algures, completamente perdida nos encantos da luminosa e doce capital.

Se olharmos para a relação corte no orçamento público e desvio do PIB notamos uma correlação quase perfeita, o célebre factor de multiplicação não foi 0.6, mas felizmente também não chegou à outra extremidade do intervalo, perto de 2.0.
Reduzimos cerca de 6% ao défice público e a economia contraíu cerca de 7.5% nestes últimos três anos. Dito de outro modo, nem a fada da confiança apareceu – esta senhora exige melhores condições para o fazer – nem sequer houve melhor rentabilidade da aplicação dos recursos. Aqui é que residia a reforma do estado.

Os nossos queridos neoliberais confundem tudo, no seu próprio interesse, convenhamos. Ninguém esperava que PPC fizesse uma revolução no estado, Sextus se o suspeitasse não lhe teria dado o seu voto, o que se pedia era uma modesta reforma de estado que combinasse duas coisas, uma dependente do exterior que nos financia e que determinaria de forma mais ou menos absoluta o grau de contracção do orçamento do estado, outra,apenas na dependência estrita da nossa opção, a melhoria da eficácia e rentabilidade dos recursos financeiros atribuídos ao orçamento.

É esta modesta reforma,que não nasceu sequer,que explica o falhanço de Gaspar.

A dúvida que se volta a levantar, tristemente de forma repetida, é se haverá capacidade da sociedade portuguesa para dar vida e autoridade a um grupo que queira reformar o estado. Preocupantemente, a outra dúvida de Sextus, ainda maior, é se há alguém que faça parte da troika que queira também a reforma do estado.

Não nos devemos esquecer que a carga total de impostos nos países europeus anda à volta de 39% a comparar com os 31% em Portugal. Por muito que nos admiremos, é esta a verdade, esquecemo-nos que o terço inferior da sociedade lusa não paga impostos para além do IVA e que a maioria das empresas também não e mesmo as restantes que o fazem beneficiam deduções várias. Na Europa não há pressão para baixar os impostos, apesar de algum discurso novilinguístico sugerir o contrário.

O mundo financeiro que nos governa está viciado em impostos, é muito mais seguro buscar dinheiro de forma certa, ainda que indirecta pelos impostos que depois vão financiar todo e qualquer projecto estapafúrdio em parceria com a banca, do que esperar pela decisão discricionária dos indivíduos em depositar o seu dinheiro, em aplicá-lo de forma autónoma sem a participação da banca ou em desperdiçá-lo a seu gosto.

A Europa, o Ocidente para dizer a verdade, transformou-se numa gigantesca PPP. Enquanto que o Ocidente dominava, o desperdício de capital não levantava ventos ou tempestades. Agora, o Ocidente perdeu as vantagens competitivas na maioria das situações com a excepção das armas e da tecnologia paramilitar. O adiamento da visita de Dilma aos USA é um dos símbolos, está a dizer que o comércio com a China já é maior do que com os USA o que permite ganhar votos e correr menos riscos em bater o pezinho ao tio Sam.
Vamos assistir a muitos outros pezinhos a bater.

A grande interrogação é quanto é que podemos aguentar estas desvairadas PPP para tudo e mais alguma, quantos é que estão interessados em viver sem PPP.
Voltando a Tocqueville, é a infantilização induzida reversível ou temos que percorrer uma das duas vias sacras: o percurso até á “Animal farm” ou o regresso inesperado dos césares?

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