A ópera da China está cá, ou seja as máscaras sobem ao palco, ainda nos falta ver o teatro das sombras

Era muito útil parar um pouco para pensar, era estimulante tentar aproveitar o tempo para consultar alguns dados, era sinal de grande maturidade interrompermo-nos para criticar o tratamento de dados.

Seria bom que não nos tivéssemos iludido, que a auto-sobrevalorização fosse temperada pela verificação de quanto subavaliados somos pelos outros.

Lidar com a morte dos deuses que nos guiaram durante séculos, observar o embuste que criámos e alimentámos, aprender a lidar com os que se apresentam como novos valores que não o são no fundo, é difícil e o passado não nos ajuda, quando tal ocorreu nem os nossos pais estavam vivos.

Um céptico reconhecer que o cansaço é desta vez muito profundo é muito raro, porque tal também o é.

O cansaço não ocorre nas crianças, quando estão exaustas querem dormir, não querem pensar. O cansaço não ocorre nos cínicos, a sua condição inclui o cansaço por definição e não se atinge verdadeiramente aquilo aonde se já está. O cansaço é auto-referenciação do cínico, é o teorema impossível de provar de Godell.

O Ocidente atravessa estes tempos crepusculares ainda tranquilamente, por vezes com os sobresaltos de algumas falhas reconhecidas de forma intermitente, na aplicabilidade da novilíngua.

O discurso actual quer encobrir várias opções do passado que apresentam agora pesada factura. As dificuldades que condicionam o Ocidente têm sido mascaradas por convicções que nos agradavam mas que estavam muito longe de nos espelhar. Deixemos algumas representações, dediquemos alguma atenção ao que fizemos e de que há bastantes traços.

A opulência do Ocidente deriva de dois troncos principais: a superioridade produtiva num tempo da história e a superioridade militar. Não foram só as matérias primas que foram extraídas de África, América e Ásia, foi a capacidade de impôr a sua vontade e conformar os mercados, foi também e de modo muito mais relevante do que é comentado habitualmente, a capacidade de ocupar um vasto grupo da sociedade na arte da guerra, quer na acção propriamente dita quer na produção a montante da mesma. A negligência do papel das armas pode fundar-se na associação com as crises financeiras dos estados quando os gastos militares estavam no seu auge, mas isto é esquecer que antes do lucro de qualquer colheita há que contraír dívida na aquisição de terras e sementes.

A superioridade produtiva do Ocidente num tempo da história é algo difícil de explicar, não pela superioridade em si, mais pela menoridade dos outros. Não é o sucesso que espanta, o incompreensível foi o falhanço do Oriente que marchava á frente.
O discurso actual continua a evitar o conhecimento desta época passada da história e refugiou-se na atemporalidade.

As máscaras e sombras voltam a reinar quando se quer fazer uma crítica das dificuldades financeiras do Ocidente. Há mesmo muita confusão, quer porque a abundãncia de dados torna complexa a sua análise, quer porque os dados estão transfigurados e ocultados em grande parte.

Por exemplo, a avaliação da dívida das sociedades tem sido feita de forma muito simplística, desemparelhando-a muitas vezes da forma como foi criada, do estágio de desenvolvimento dessa sociedade, das potencialidades percebidas de pagamento e da comparação histórica.

No caso português a análise seria muito fácil mas tem sido algo ocultada pelo discurso de imputação ao futuro para as dificuldades do presente. Se é óbvio que não temos riqueza económica para suportar o estado que temos, não foi isso que constituiu a origem do quase colapso que nos atingiu.

Estes números de aplicação de recursos financeiros fotografam bem o passado da Lusitãnea. Se restringirmos a análise ao període pré-crise e crise, entre 2006 e 2012, menos de 1% dos recursos foram emprestados para a agricultura, menos de 1% foi aplicado na pesca, apesar de tantas conferências sobre o “cluster” marítimo, menos de 7% foi aplicado na indústria, todo o resto, ou seja mais de 90% foi usado pelos sectores da habitação e da especulação financeira.

Uma outra sombra paira sobre a distribuição do dinheiro. Para além da argumentação ética que os os neoliberais tanto usam como descartam, a distribuição da riqueza é fundamental para a criação de riqueza. A classe média administra de forma mais produtiva a riqueza com um mix de circulação de dinheiro e ganho na venda-compra de produto com margem de lucro apreciável. As classes mais baixas associam-se a uma grande circulação de dinheiro mas associada de modo geral a produtos com menor lucro. A classe mais favorecida associa-se a produtos com enormes margens de lucro mas com grande desperdício de massa financeira na especulação e com grande quantidade de dinheiro preguiçoso, sem aplicação.Um dos problemas actuais não radica na raridade de capital mas sim na sua rentabilidade.
Os USA espelham bem este paradigma. Se comparamos o rendimento familiar de 1970 com a actualidade observamos que está estagnado um pouco acima de 50 mil dólares anuais enquanto que o PIB americano aumentou mais de 50% neste intervalo de tempo, as despesas de educação mais do duplicaram e que os estudantes que contraíram empréstimo para financiar o curso subiram de 45% para mais de 65% no presente.

Esta má distribuição de dinheiro não deriva apenas da má progressão dos salários, também se origina num sistema assimétrico de deduções fiscais que tem beneficiado desproporcionadamente o sector mais rico da sociedade.

Perante estas dificuldades o discurso novilinguístico encena as cenas de sombras, mascara o trivial como importante, transforma a pirueta da personagem no núcleo da acção.

A decisão de aumentar o tempo de trabalho dos funcionários públicos para as 40 horas é o melhor exemplo da encenação da quantidade de trabalho que se quer parecer como necessário ao bom funcionamento do estado. Na verdade, o difícil, melhor o impossível, é fundamentar uma grande percentagem de trabalho e custos inerentes da administração pública central e local, da justiça redundante e infindável, da saúde com profissionais que lutam por tarefas.

O tempo da ópera chinesa com as suas máscaras adequa-se muito bem ao que é o nosso, mas a crise desta forma de representação é profundíssima, a começar pela nação que lhe deu origem. O teatro de sombras mantém melhor a popularidade, está mais próximo da natureza humana. As sociedades ocidentais não irão dispensar muito tempo ás máscaras – a Sereníssima também entrou em crise.

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