O novo paradoxo: os economistas sabem de economia, a economia não sabe de nada, os economistas analisam o nada

Se há coisa que esta crise trouxe para a montra foi o potencial cómico e paradoxal da economia, uma das pro-ciências mais jovens que ambicionou atingir a maturidade e dar forma às ainda disformes e borbulhentas feições adolescentes, vestindo-se com mais de sete saias, desde a matemática clássica à mais avançada, sem deixar de lançar os dois olhos à estatística. O resultado, um cómico desastre, mas enfatuado, como costuma ser toda a vacuidade.

A economia que derivou do ramo mais antigo das ciências sociais, delas herdou o voluntarismo e o á vontade de tudo afirmar e contrariar num mesmo tempo, construindo teorias explicativas que cristalizavam a realidade percepcionada e, no caso infeliz do encaixe não se verificar, isso resultaria da preguiça e lentidão da realidade percepcionada em conformar-se ao modelo.

Tudo isto se arrasta há mais de um século, apoiando-se na tola crença dos novos adoradores do bezerro de ouro, sempre esperançados que conseguirão a primazia da verdade revelada através do financiamento desses pró-cientistas, que por sua vez, de tolos nada têm e descobrem sempre aquilo que o cliente quer ouvir. Além disso, estes pró-sábios desenham a chave da avaliação que se adapta sempre bem ao resultado ambicionado – nós já contabilizamos nove exames bem sucedidos de coisa nenhuma, para além da necessária diminuição dos salários, necessária porque tudo o resto que nada mudou estraga de tal forma o rendimento do capital atirado pelos viadutos, pontes, especulação e corrupção que a rentabilidade de alguns tem que ser distribuída por muitos outros que nada operam.

Um dos pilares adicionais desta infantil construção é a imensa publicidade paga mas também gratuitamente alimentada pelas crianças sempre à procura do seu herói, herói também á procura das suas crianças e enquanto o carrossel anda, os cavalinhos não caem. Na semana em que a fusão da PT com a OI foi avançada, empresa a ser chefiada pelo super-gestor indo-português, já entronizado pelos seus pares como o mais genial entre os préclaros, percebemos com enfado que esse grande vidente comprou por 3.7 mil M de euros cerca de um quarto da OI há cerca de cinco anos, agora a OI toda, vale um pouco menos de 2.5 mil M de euros – a evaporação de cerca de 12 mil M de euros em menos de 2000 dias de mercado é um grande feito, sem dúvida nenhuma dói para muitos, para outros foi puro ouro, puro ouro.

Esses mercados foram questionados pelo luso presidente, descendente de Viriato por parte do pai, inconformado com os juros da DP, algo que ele vê como um erro de apreciação dos ditos, talvez mesmo uma incorrecção factual. Sextus toma a defesa dos solitários mercados, senão veja-se que a redução do défice público apenas baixou 0.7% em comparação com 2012, estando agora a 7.1% em paralelo com a subida da DP para 120%, cerca de 10 mil M de euros acima do projectado, não se vendo capacidade em ir buscar os seis a oito mil M de euros de gasto do estado para atingir o equilíbrio.

Depois tivemos o debate sobre a análise das personalidades masoquistas, pouco se avançou, mas ao menos, Ricardo Arroja lá lembrou que vários textos da pró-ciência avançam com o qualificativo de insustentável e masoquista para a dívida quando os juros da mesma captam 20% dos impostos e quando o aumento da mesma é superior á taxa de inflação e aumento do PIB. Sextus conclui sobre o carácter excessivo do masoquismo e da razoabilidade da melancolia ao avistarmos a DP.

Apesar da desconfiança dos mercados, todos estão ansiosos por lá voltar, garante que são do progresso e felicidade dos adoradores do bezerro, ao fim e ao cabo, parece que o socratino engenheiro é que via longe. Para vermos ainda melhor, Sextus propõe uma rápida visita ao vizinho século passado. Entre 1950 e 1990, oito países cresceram 300% no total acumulado, cinco asiáticos – Japão, Coreia do sul, Taipé, Singapura e Tailândia – e dois países e um terço aqui na Europa, Malta, Grécia e Portugal. Depois desta data, uns anitos depois do euro, com os mercados abertíssimos e estremosos foi uma progressão de que nem o velho Pareto nos seus dias mais pessimistas poderia desenhar a curva. A tese amplamente difundida pela pró-ciência sobre a chave de ouro que são os mercados da dívida para a felicidade não era partilhada pelo pai Smith, mas esse, coitado, só é citado quando convém pela irrequieta trupe dos neoliberais quando acorda do sono reparador da snifada de cocaína.

Sextus termina pela maravilha e inevitabilidade do casamento com o euro. Novamente folheando os compêndios da pró-ciência, também se diz que para ser defensável a partilha de uma moeda comum por um espaço alargado de países besonha há que o comércio entre eles seja superior a 60% do volume de comércio de cada um.
Comparando valores de 2004, pouco depois da emergência da desgovernada moeda e 2011, três anos depois do início da crise, os países PIIGS tinham trocas comerciais com a zona euro com resultado negativo de 31 mil M de euros, valor que baixou para apenas oito mil M de euros enquanto que as trocas dos PIIGS com a China em 2004 registavam valores negativos para os primeiros de 13 mil M de euros, quantia que progrediu para 29 mil M de euros, ou seja mais de três vezes no que respeita a zona euro (PIIGS com a Alemanha registam 22 mil M de euros de balanço negativo em 2004 e 13 mil M de euros em 2011).

Enfim, como diz um meu amigo, para a implosão da Europa não é necessário soprar grande coisa, a casa foi construía por um descendente de Cícero, grandes ideias que como é da sua natureza dão grandes embaraços, quando não tragédias.

A nossa tragédia é que quem nos lidera já não nos olha como nós, trocaram a terra onde nasceram mais pobres e infelizes pela estultícia da felicidade de aguadeiros dos sacerdotes do bezerro de ouro. Para eles há bem maior que a independência e a liberdade, eles não têm defeito nem qualidade, só têm medo e voracidade. São fantasmas, olham ao espelho e não se vêem, são funcionários sem carne, só têm boca mas não dizem nada.

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