Os vazios da contestação e do discurso constituem a aparente paragem, obrigatória, sem alternativa, de Clio sempre peripatética

Uma das múltiplas consequências da crise foi o enterro da tese do fim da história, redescobrimos que ela tinha ainda muito caminho para fazer andando. Isto foi acompanhado por um inesperado troca de passo do tempo que não tinha chegado ao fim mas que sofreu de uma gravíssima doença mental onde o passado e o futuro vivem reivincando o mesmo poder sobre o presente. Esta atitude desorientada gera reacções e discursos de confusão confrangedora. Tivemos disso dois exemplos, a recepção a Barroso em Lampedusa, o discurso de Cavaco em Cracóvia e a dolorosa resposta de um báltico.

A discussão sobre a crise europeia começou por apontar o dedo ao sobrinho americano que enganou o seu tio vendendo-lhe pacotes de lixo e de ar devidamente notados triplo A pelas funcionárias de serviço. Ao fim de algum tempo, percebemos que isso era só uma pequena parte da história.

A crise europeia tem várias causas mas a classe dos capatazes recusa compreensivelmente admitir o seu erro de administração – do ponto de vista do bem público, boa gestão se se pensa no resultado agregado dos empregadores dos capatazes – e tem conseguido habilmente reportar para o futuro – a falência dos apoios sociais tal como chegaram aos nossos dias em encontrar sustentabilidade financeira – as causas das dificuldades dos dias de hoje.

O segundo erro, neste caso mais importante para os países periféricos, foi a transferência de soberania monetária para o BCE -em parte porque o próprio BCE não pode assumir uma posição dominante no primeiro degrau da hierarquia, muito disputado mas tradicionalmente ocupado pela City e Wall Street.

Que a causa da crise identificada ao chamado estado social é uma discronia torna-se evidente ao ver a progressão das dívidas públicas em apenas três anos, entre 2007 e 2010 (em % do PIB): na CE a 27, passou de 59 para 80, na Irlanda passou de 25 para 93, no Reino Unido de 44 para 80, na Espanha de 36 para 61, em Portugal de 68 para 93. Fazer crer que esta progressão deriva dos aumentos, muito lentos, dos encargos do estado social constitui mais uma das múltiplas manifestações do pensamento mágico que nos é apresentado. Mais do que uma incorrecção conceptual, é um swap no raciocínio dedudivo. Esta progressão radica sim no aparecimento das inúmeras imparidades de investimentos delirantes que aproveitam a um pequeno número, desde que a maioria silenciosa e abúlica apareça para limpar os prejuízos.

Outro pensamento mágico deriva da crença na equipa que avançou com plano do resgate, uma tríada onde apenas um tinha experiência de lidar com situações parecidas. Voluntariosa e convenientemente, decidiu-se esquecer a sua actuação na Argentina. Este país surreal e lindíssimo, berço de Borges e Martin Hierro, pode ensinar algumas coisas. Aí o estado social nunca foi chamado a capítulo, a imaginação não dava para tanto.
A Argentina apanhou com as consequências dos seus erros e da crise da tequilla. Desde 1992, passou a estar sob a intervenção do FMI que realizou cerca de 50 missões entre 1991 e 2002. A dívida externa em 1991, era igual a 61 mil M de dólares e em 1999, tinha subido para 145 mil M de dólares para depois esboçar uma pequena descida para 140 mil M de dólares, data do encerramento da intervenção do FMI por determinação argentina. Ou seja, mesmo em default, a Argentina conseguiu financiar-se desgraçadamente junto dos mercados e aumentar a sua dívida a valores superiores a 10 mil M de dólares por ano. Dito de outra forma, nem os países nem os mercados têm juízo enquanto que a incansável maioria silenciosa comparecer nas repartições de finanças. Veja-se o relatório do FMI desta semana que consegue conciliar a proposta da descida dos salários com a da subida dos impostos, que segundo a instituição ainda apresenta alguma margem para o aumento – há quem acredite que FMI e similares defendem as sociedades liberais, há quem acredite em bruxas, há quem acredita em tanta coisa.

Outro pensamento mágico é a crença nas enormes virtudes do euro e nos hipotéticos e gigantescos malefícios do seu abandono. Certamente que isto será verdade para alguns e mentira para outros, mas a concepção TINA (there is no alternative) é por definição exclusiva. Para a Alemanha foi inquestionavelmente uma benção. Para os desmemoriados de hoje – a cocaína é terrível para a memória – já não restam vestígios dos défices correntes anuais consecutivos da Alemanha durante toda a década de 1990, altura em que o impacto da reabsorpção da Alemanha de Leste mais se fez notar. Mas foi só após o ano de 2000, com défice zero que apareceu o primeiro balanço positivo de 2001, sempre repetido posteriormente, coincidindo notavelmente com a introdução da nova moeda. O inverso se passou com Portugal, sempre deficitário mas em graus com significado variável. Em 2000, as despesas públicas (em % do PIB) na Lusitãnea atingiam 41.6 e as receitas 38.3, mas em 2005, já havia uma diferença negativa de 6.5 e em 2010 tinha subido para 9.9. Também aqui a presença do euro e a aparente estultície dos mercados é muito visível

A má gestão, sempre em crescendo não é nova na história, o que é novo é o gigantismo da base onde se apoia. Um défice de 3 a 4% entre despesas e receitas quandas estas andam á volta de 2% do PIB é uma coisa completamente diferente quanto este défice se insere numa receita de 50% do PIB.
Estes períodos de aguda má gestão foram identificados por vários economistas, mas Sextus já se contenta em chamar por Schumpeter, tão do agrado da nosse trupe e Minsky, este mais heterodoxo, mas mais apaixonante por não querer disfarçar por sistemas a nossa ignorância. O que eles dizem resume-se á atitude natural do capital, sempre em busca do maior lucro, que quando se depara com baixas taxas de rendimento em aplicações ditas monótonas, passa a orientar-se para sectores mais imaginativos, especulativos – os recentes algoritmos constituem o melhor exemplo – até aos fraudulentos puros, tipo Ponzi. O muito vilependiado Keynes, perto da sua morte, avisou sobre a necessidade em evitar que “the capital development of a country becomes a by-product of the activities of a casino”.

Nesta desorientação muito alargada – veremos o grau que atingirá a China – surgem os movimentos sem fito e sem sustentação. Insultar Barroso e apelar ao crescimento na Europa são tão diferentes como iguais.

Uma Europa sem discurso, inadaptada às suas formas, debatendo-se com uma banda gástrica mal construída que deixa ainda engordar mas causa náuseas é uma companhia inconveniente.

Uma sociedade dessacralizada, sem emprego, sem nação, a quem pregam mudanças arengadas por acólitos demasiado corruptos para usar da palavra que glorifica a contenção acompanhada pela torrente apelativa do consumo, paliativo de um grupo de homens mais estupidificados, mais manipulados, atraídos para espreitar o outro porque nada encontrarm em si próprios, alargando o mais possível a juventude de um corpo comandado por uma cabeça ou senil ou infantil aguenta durante algum tempo o vazio do apelo do crescimento contemporâneo da nota de despedimento ou o vazio da reprimenda de quem não tem nem nunca terá o poder para algo fazer.

Depois, quando de forma contumaz o feiticeiro falhar o milagre da chuva, despede-se o feiticeiro, abandona-se a cidade e os deuses, vagueia-se até se encontrar alguma coisa ou a fadiga vencer. O primeiro chefe que encontrar tal grupo, dele toma conta.

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