Divagações de fim de época na periferia

Sempre foi dificil avaliar o grau de importãncia da causalidade entre vários factos que nos podem aparecer como potencialmente associados. O que está por trás ou por baixo da nossa dificuldade em aceitar a contradição também não é muito evidente. Sabemos da dificuldade do pensamento pirrónico, do céptico com variantes, em conviver com as alternativas de raciocínio que excluem a auto-contradição, mas muitos de nós, quando o leram, acreditaram que apreenderam os pensamentos de Montaigne explanados nos “Ensaios”. De qualquer modo, para o bem e para o mal, as escolas saídas de Platão e de Aristóteles dominaram o pensamento ocidental.

Não deixa de ser curioso que sendo o homem uma espécie bastante homogénea e habitando um meio portador de uma heterogeneidade longe da exuberância tenha manifestado uma evolução cognitiva e reflexiva muito diferente quando migramos para o Oriente. Aí, a religião, sempre o espelho mais demonstrativo, a amostra mais profunda do todo, exibe claramente um mundo dualista em permanente confronto mas de modo muito diferente do que é apresentado no Ocidente. Aqui, o Mal é sempre apresentado como uma queda, no Oriente o mal é um constituinte obrigatório do Ser, não é uma penalização. De certo modo também podemos avançar que o porvir do Ser no Ocidente é a reunião com a plenitude, no Oriente muito deste porvir abraça, mais do que a união, a diluição. Chesterton nas suas frases relâmpago, por vezes muito forçadas, é certo, afirmava o seu desgosto pelo Oriente, a terra das religiões da Morte, destino, dissemelhante da Morte ocidental, passagem.

O apogeu do pensamento ocidental foi provavelmente atingido com o iluminismo, a evolução posterior tem surgido mais como um bater contra o muro desvelado pelo pensamento visto como racional, dedutivo, científico. A queda no impasse do iluminismo, fruto da sua limitação conceptual, mas também resultado de uma expectativa consequentemente impossível resvalou para o cinismo da razão, para a novilínguia do discurso.

Há muitas definições de política, uma das menos usadas é a que a define como aquilo que enforma o método do projecto de um grupo que decide viver em conjunto, assumindo como comum um passado, como um trabalho e fruição comuns o presente e ainda vislumbrando uma continuidade num futuro.

O discurso novilinguístico, evolução quase que inevitável, assume várias linhas definidoras, curiosamente muito fecundas porque contraditórias. O discurso novilinguístico numa crise vivida no centro assume a guerra permanente como libertadora e capaz de abilitar esse grupo à manutenção ou conservação da posição dominante. O discurso novilinguístico durante a crise vivida á periferia assume o medo e a anulação como traços dominantes.

Já aqui se tem dito mais do que uma vez que o gesso dominante sobre o corpo da Lusitânea tem sido diligentemente aplicado por uma elite derrotada há séculos, que já não vislumbra oportunidade de mandar mas de apenas ocupar o primeiro lugar de todos os que obedecem ao domínio exterior. A nossa elite já não o é porque já nem acalenta a distinção e na maioria dos casos nem se apercebe dessa falha.

A “elite” lusitana nestas décadas finais da sociedade ocidental, que só sobrevive projectando crescimento e domínio, já não se acha capaz de externalizar, já não tem vontade nem se vê dotada da possibilidade de penetrar o exterior. Nem sequer se poderia comportar como as elites jovens das nações nascentes, com sorte quando escapam ao gangsterismo desenfreado, que aspiram à fecundação pelo exterior para poderem crescer e tornarem-se adultas, por sua vez.

A nossa “elite” já só é descendente dos amanuenses, tal como os indianos da administração inglesa em Nova Deli e Bombaim, noutros casos ainda piores, são os descendentes da “gaiola dourada”. A elite financeira portuguesa nunca existiu verdadeiramente, nunca teve músculo para a luta em campo aberto, apenas nas sanzalas recônditas ou nos pequenos gabinetes da agónica Lisboa se consegue movimentar e sobreviver.

Tal como Tocqueville receava, algumas gerações de submissão, tal como Blair profetizava, algumas gerações de nova educação e novo discurso, esmagados pelo núcleo, os periféricos europeus mais avançados na degradação, os lusitanos, esperam abulicamente a dissolução do país, aguardando que a transmissão automática para o centro do que resta da vontade e do querer se conclua.

Portugal já não é viável, o seu projecto talvez tenha chegado ao fim, os que chegam e deviam responder à chamada já não querem partilhar o trabalho e a fruição em comum, emigram.

Claro que os espíritos mais tontos neoliberais ainda acreditam que a emigração é boa, a sua decadência já os levou a esse ponto, a fatalidade é defendida como virtude. No discurso novilinguístico, a diluição do país no mundo globalizado é a chegada feliz ao fim da história.

Sextus não pode deixar de confessar o seu espanto, impróprio de um céptico, perante tamanha imaginação, resultado do triunfante espírito pretensamente neolibertário, escravo do vazio de projecto, da impossibilidade conceptual, do horror como devir, uma terra global, única, já com náusea de si própria, apenas aspirando a fugir para o amarelo estelar.

Deixe-se outro apontamento: tal como os cépticos mais puros diziam, talvez não valha a pena saltar da lama, mas apesar do caminho ser íngreme, irregular e estreito, também não é preciso uma bengala para o percorrer.

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