O tempo tudo corrompe ou quando um estado tudo adia porque não quer fazer também acaba por sofrer da lei do tempo

Próprio dos povos meridionais e de alto contexto é a procrastinação. Quando estas sociedades entram em decadência mais acentuada o adiamento é o par obrigatório da anulação do seu devir e esta descrença em qualquer futuro só pode ser suportável com a suspensão do tempo.

Ou como Gil brilhantemente explanou, com a abolição da inscrição.

Tudo isto pode ter vários graus e racionalidades aparentes diferentes. A não inscrição pode ser enroupada com suficiente cor e aparato e reclamar ascendência distante com o pirronismo, algo que Sextus reconhece.

Os povos meridionais do ocidente são também mais propensos a adoptar uma visão pessimista da humanidade condenada a sofrer as misérias com que nasceu. O castigo da vida terrena é suportado com maior passividade do que aquele aguentado pelos povos setentrionais, mais optimistas consigo próprios, contraditoriamente com a faceta mais visível do calvinismo. A esperança que nasce do trabalho no norte iguala, pelo menos, o destino de ferro cingindo a roupagem violeta e preta do sul ajoelhado. É verdade que estas cores da paixão meridional são aligeiradas pela infantilidade do espírito, lavado na confissão iterativa, inesgotável renovação para errar mais uma vez. O do norte emerge a negociar individualmente a reapreciação pelo seu trabalho, negando realmente o destino que anuncia já estar escrito, o meridional afoga-se no mar da pena colectiva, náufrago irremediável.

Decorridos quase trinta meses desta governação, já nos podemos permitir um primeiro balanço com alguma consistência. Aqueles que desejaram acreditar naquilo que nunca existiu já reconheceram que a sonhada oportunidade para reformar alguns sectores da actividade do estado e dos seus clientes principais foi esbanjada de forma irrevogável.

O trajecto desde a campanha eleitoral foi percorrido com rapidez. Desde o propósito, por um lado modesto, por outro muito ambicioso, de eliminar as gorduras do estado, logo afastado após o adeus desse verão enganador, até ao refundacional projecto da reforma desse estado entregue aos cuidados de um dos bobos da corte, alegre emparelhamento da inconsequência com a incansável repetição da incompletude, o Tempo, que como acima se diz, foi torcido até ao seu esvaziamento, colapsou. Quando o Tempo colapsa, nada existe (ou Tudo já vive, mas é fácil o julgamento, aqui neste dilema).

Nesta fase triste da encenação do estado, onde o confronto foi substituído pela serenidade, há que refazer a leitura do que vivemos. Podemos pensar que este falhanço será mais um episódio inerente à tradicional má gestão que os meridionais fazem dos seus destinos. Uma das falácias mais repetidas é confundir um tempo com o seu todo através dos tempos, a outra é a falácia narrativa, com os exemplos populares das vias para o sucesso a velar que essas mesmas trajectórias foram igualmente percorridas pelos mais numerosos que falharam.

Não excluindo de todo esta inabilidade de gestão, bastante aparente nalguns disparates que fomos ouvindo nos últimos anos e meses, será mais aproximado do que está a passar o reconhecimento da falência geral dos partidos. Claro que isto dura há muitas décadas mas o grande sobressalto da primeira metade do século XX europeu gerou uma mentirosa expectativa sobre a renovação que surge sempre após o grande desastre. No fundo, após a queda o que nos importa mais é se palpamos tudo o que nos habituamos a ter e ignoramos o aspecto sujo, feio e tumefacto que poderiamos descobrir caso procurássemos um espelho.

O sistema partidário só tem funcionado razoavelmente nas sociedades consensuais que apenas se dividem em partidos para melhor operacionalizar a tomada e o exercício do poder. Na realidade, não há escolha de opções entre democratas e republicanos, entre conservadores e trabalhistas, o que apontamos é o grupo que vai governar. Nestas sociedades os partidos estão dentro do estado. Tudo tem a face oculta desagradável: ao contrário da pretensão dos anglosaxónicos, a sua corrupção é altíssima mas beneficia de complacência porque já não conseguem externalizar o observador para olhar o que é feito. Aqueles que tiverem a sensação que Sextus caíu num exagero, estão esquecidos da leitura de Adam Smith que repete a afirmação da captura do estado pelos interesses dos negociantes em desfavor da nação o número de vezes suficientes para mesmo o mais distraído leitor não falhar a mensagem – diferente é o cego que não quer ler.

Nas sociedades onde há sistemas multipartidários, estes vêm o estado como a presa a capturar, já se sentem exteriores a ele. Esta externalização torna inerentemente impossível ou quase, qualquer vontade reformadora. Não nos dedicamos nem pretendemos a mudar aquilo que não nos pertence ou a que pertencemos. Os partidos não podem estar dotados dessa vontade regeneradora, estão possuídos pela pulsão da ocupação e captura do poder.

Na Europa das ainda grossa tetas ninguém está interessado em cortar gorduras, quem está no poder , pelo contrário, continua cada vez mais guloso e glutão. O mundo financeiro captura uma parte cada vez maior da riqueza, tem sempre cada vez maior boca e barriga, e estraga cada vez mais.

Há que aguardar mais o tecido do tempo, ainda há mais espaço para muita asneira, depois vê-se.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s