A duração do corpo com vida é menor do que a do corpo sem vida ou quando o amorfismo perde para a putrefacção

Desde os gregos que sabemos que a organização política das sociedades varia ao longo do tempo quase que igualando a procissão do sol pelas constelações do zodíaco. Platão acreditava que as democracias acabavam por dar lugar ás tiranias que eram sucedidas por modos de governo onde mais grupos ascendiam à partilha do poder, pensamento alimentado pelas diferentes formas políticas em que se organizaram as cidades helénicas.

A transição da democracia para uma tirania tem sido frequentemente apresentada nas projecções para um futuro incerto e agreste que estará ao virar da esquina. Ao contrário do que se via na Grécia antiga, dona de um tempo demorado mas apesar disso, testemunha de mudanças políticas quase repentinas, a evolução política no mundo ocidental tem sido muito viscosa, muito mais lenta do que no passado, algo que poderá ser tido como incongruente, mas só por um prisma. Se tomarmos outro ponto de observação, esta lentidão torna-se compreensível, fruto da organização matricial com interligações muito complexas, paralisando a vítima na sua teia de fios frágeis. Esta matriz tem aguentado até agora a exuberante desorganização em que caíu a sociedade ocidental após a entrada em crise do iluminismo. Esta teia foi francamente reforçada pela progressiva infantilização criada pelas sociedades do palácio de cristal, descrição que Sextus prefere á abusada terminologia do estado social.

O cimento de uma nação não será tão forte como fomos crendo desde há apenas duzentos anos e a visão da globalização mais o enfraqueceu. Os globalistas não proclamam o fim das nações mas enfraquecem a sua estrutura, transferindo o poder dos estados para um exterior, o império não confessado.

Uma das incongruências do império é que não se quer afirmar, prefere viver no segundo nível do significado o que tem como consequência que os dominados percepcionam como a ausência de devir do império, que aparenta não saber bem o que quer nem saber o modo como tal conseguir. A conjugação da ausência de fins com a consequente anulação dos meios criou o actual vazio no ocidente. Afirmar a globalização como desiderato é demasiado inconsistente e desprovido de força centrípeta para poder constituír um núcleo de formação. Sem núcleo não há cristalização, tudo se resume a amorfa precipitação – vivemos no mundo das areias onde desconfiamos se escondem monstros perigosos que de forma incompreendida se alimentam de nós. Esta contradição torna-se mais opressora porque o império não quer assumir um poder totalitário a qualquer nível – se é verdade que os poderes totalitários sempre recorreram à novilínguia, esse discurso é substituído por outro junto das suas elites secundárias, agora estas elites receiam as derivações das suas premissas e também elas se enredaram no discurso novo: o palácio de cristal tornou possível que a loucura fosse geral. O virar á direita e à esquerda sucessivamente sem racionalidade perceptível é próprio dos totalitarismos, o onovo é o totalitarismo sem desígnio a não ser fatalidade de sermos empurrados para a unidade – a grande surpresa é o transformar em colectivistas sociedades antes tidas como individualistas, de baixo contexto, agora o risco deve ser abolido, o prejuízo pago pela massa, os lucros desparecidos rapidamente.

O caso da NSA evoluiu de forma muito interessante. Sextus dá como boa a informação do responsável americano, o acesso á informação foi providenciado pelos vigilantes locais dos espiados, ou seja, o império confessa a destruição dos estados com que emparelha, evolução lógica e frequente. As elites europeias capitularam e foram compradas há décadas pelos americanos, tudo isto sob a pose da parceria íntima entre amigos. Um império com amigos é talvez outra coisa nova, os romanos não o pensaram.

Um império sobre uma sociedade desorganizada, atomizada só pode apostar na globalização humana, ousar pensar tornar um vietnamita igual a um californiano branco, um saudita igual a um escandinavo, um livro o mesmo que um post no facebook, um discurso equivalente a um tweet, enfim algo que os lusitanos bem conhecem, as equivalências. O império sempre é pós-moderno.

O discurso novo centralizou-se na discussão do estado social, algo necessário e inteligente mas, fiel ao seu esquema de o primeiro nega o segundo que nega o terceiro que quer confirmar o primeiro, o novo discurso oculta que grande parte da solução para o estado social é secundária á resolução do problema do emprego. O discurso novo afirma os sucessivos trabalhos que teremos ao longo da vida quando já não se consegue sequer obter o primeiro – a sequência de nada: um em cada sete americanos entre os 16 e os 24 anos está desligado da sociedade, não estuda, não trabalha, imagine-se o que se passará noutras paragens que sofrem taxas de desemprego duas a três vezes a observada nos EUA. Como é que se paga uma dívida pública e um estado social reduzido com desemprego crescente quando grande parte do estado social serviu para camuflar uma parte importante do desemprego estrutural é algo que os neoliberais preferem discutir depois do jantar e da passa.

Como é que se emparelha o impossível são respostas prontas dadas em sociedades totalitárias, a parceria neoliberalismo com entidades reguladoras, sociedade da inovação e crescimento com alto desemprego e baixo rendimento, fortalecimento da sociedade civil e regulação de felinos e canídeos a admitir nos apartamentos, amizade e confiança com espionagem o mais totalizante possível, todos estes matrimónios só se afiguram difíceis para um céptico, facílimos para um neoliberal.

A duração deste estado de coisas pode ser maior do que se julga, o discurso novo está a introduzir um apoio importante, o governo e a nação são mais ou menos inúteis, o historicismo foi abraçado mas desta vez, contradição nuclear, nada nos espera a não ser a dissolução na massa “low-Cost”, “low value”, realmente descartável e desta vez, diferentemente do que se passou no século XIX, já não exportável.

Ao fim e ao cabo, o que os inovadores ambicionam é a dissolução no nada; os hindus têm outro nome para isto e a roupagem é vistosa e até exuberante enquanto que a massa “low-cost” do futuro aguardará nua a sua putrefacção, mais demorada do que o período em que se arrastava a fazer pégadas. Nem os cães teremos para marcar o sítio do desaparecimento se os desejos da nossa ministra forem satisfeitos.

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Uma resposta a A duração do corpo com vida é menor do que a do corpo sem vida ou quando o amorfismo perde para a putrefacção

  1. Sempre excepcional na sua capacidade de análise e integração histórica
    Continue P F e um dia destes temos de Põr estas crónicas em Livro~
    Vieira da Cunha

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