O que os buracos negros nos ensinam: só se passa por eles numa fracção mínima de tempo, no resto somos incorporados e dissolvidos

A organização dos governos dos estados tem similitudes com o processo do pensamento humano, o que não será de estranhar. Pensamos e trabalhamos imagens e tal é mais ou menos frutuoso conforme a ideia encaixa com a realidade exterior e a imagem que de nós concebemos e vivemos. Parece que nos encaminhamos para um período semelhante aos estádios avançados da esquizofrenia em que a distância entre a imagem por nós produzida e os seus interlocutores, outras imagens construídas por outros, torna impossível qualquer diálogo e ficamos presos no vazio.

A crise do mundo ocidental, mais profunda na Europa em vias de adoptar formas menos generosas, encaminha-se para esses lugares de irrealidade, de mudez e surdez perante a curva que temos que cumprir.

É verdade que a desaqueação do mundo dos partidos como intermediários do cerimonial da organização governamental estava anunciada desde há muito e a frase muito conhecida de Churchill, plena de senso histórico, também tinha falhas; se é predominantemente verdade que a democracia tipo ocidental é o pior governo com a excepção de todos os outros isso não garante a sua sustentabilidade. Em tempos de vacas gordas, o facto de não haver alternativa não incomoda ninguém, em tempos de vacas magras a afirmação repetida de que não há alternativa é incompatível com o sistema político vigente.

Sextus nunca percebeu se esta afirmação TINA repetida exaustivamente é resultado de muita incompetência política ou se é produzida por alguém que segue uma agenda alternativa.
Curiosamente, 60% dos americanos deseja o aparecimento de um terceiro partido, uma emergência disfarçada da recusa da TINA mas que também traduz uma exteriorização de um bloqueio já percepcionado ou, levando mais adiante a análise, é uma emergência de um nóvel pirronismo social que aceita a contradição e recusa a exclusão do terceiro.

Outros fenómenos de afastamento insuportável entre as imagens pode chegar-nos do mercado da energia. Esta semana, antigos quadros de companhias petrolíferas afirmaram que a Shell, BP, Statoil, entre outras, promoveram a cartelização do mercado, algo que se suspeitava com fortes indícios observáveis por todos. Basta pensar na total anomalia do mercado petrolífero que não tem em conta de modo nenhum os discrepantes preços de produção do petróleo saudita do brasileiro de águas profundas ou até o do mar do Norte ou ainda o do Golfo do México, vizinho do amigo Texas. Esta aberração, estranhamente, nunca provocou nenhuma reacção.
Ainda neste sector fomos surpreendidos pela decisão do governo em criar uma autoridade de concorrência só para o petróleo, o que diz bem até onde se baixou a apresentação da governância, para a faixa etária entre os seis e os dez anos.
O muito citado Schumpeter, amargamente reconheceu pouco antes de morrer, que o seu conceito de destruição criativa já não era a realidade dos seus dias, tinha sido algo mais vivido no passado, percebeu que a indústria estava capturada pelas finanças e pelos gestores, dois mundos que nada partilhavam com a destruição criativa. Schumpeter percebeu que o tamanho lidava mal coma destruição criativa.

Terminámos com a declaração de Draghi: afirmou, no enquadramento da decisão da baixa de juros para 0.25%, que a Europa lidaria com um período alargado de baixo crescimento, com a estabilização das actuais taxas de desemprego, com a ausência do perigo de inflação mas acreditando que estava para já afastado o perigo da deflação. Draghi recomendou a fuga a quem se encontra em dificuldades, de forma implícita. De outro modo, como é que as sociedades submergidas por dívidas equivalentes a três e quatro anos de PIB podem viver com juros de pagamento de empréstimo à volta de 4 a 5% quando crescem menos de 2%, provavelmente ainda agravados por diminuições de PIB quando confrontadas com emigração persistente.

A fase do pensamento mágico do mundo da antiguidade parece ter regressado. À Lusitânea resta-lhe escolher entre a alternativa da dissolução no buraco negro europeu ou fugir, encolher e esperar que possa dar a volta através da estratégia bem conhecida de substituição da importação por industrialização, que Pombal foi o primeiro a implementar com sucesso – também não é verdade que Portugal seja sempre deficitário, o saldo comercial português foi positivo na fase final do século dezoito o que permitiu, em conjunto com a amoedação oriunda do Brasil acumular aquela que, na altura, seria a maior reserva de ouro mundial.

Pode ser que a próxima geração da elite lusa seja muito melhor que as precedentes.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s