Sextus contra os que acham que falta abordagem política e sobra técnica, o que falta é técnica, sobram crenças e falácias

Mais um relatório do FMI, mais alguns a reclamar o conforto do mesmo e outros a suspirar por mais política e menos tecnocracia. Um pirrónico consegue perceber que ambos, apesar de surgirem como contrários, estão muito deslocados da realidade, uns recontam uma história falsa, outros iludem-se a suspirar por outra construção. Nem é possível recriar a publicitada austeridade expansionista que talvez nunca tenha existido – Sextus recomenda o bem fundamentado livro “Austeridade, uma ideia perigosa” – nem mais do mesmo é exequível, nisso o engenheiro acertou, o mundo mudou.

Apesar do que acima se diz, Sextus está crente que pode afirmar algo mais consensual. Uma será identificar a crónica falta de capital como um dos maiores limitantes do desenvolvimento lusitano. Já não é intuitivo conceber a racionalidade desta escassez, Portugal atravessou períodos longos de forte amoedação, principalmente a criada na América do Sul, tendo até usufruído da prata peruana durante parte dos sessenta anos de regência filipina. É verdade que há uma história consistente de liberalidade nos gastos das camadas mais afluentes portuguesas, mais do que terá ocorrido na Europa central, mas provavelmente similar á ocorrida na França e Inglaterra.

Uma das inconsistências é o emparelhamento da amoedação com a ausência de um sistema financeiro, mesmo que embrionário. Neste caso a França e a Alemanha também tarde criaram um sistema financeiro, Napoleão III arruinou-se junto de banqueiros judeus não franceses, principalmente. As razões subjacentes para este atraso, particularmente em comparação com o que se desenrolava na Inglaterra, não são de fácil apreensão, de novo. Alguns, entre os quais Bagehot, crêem que a segurança defensiva inglesa jogou papel crucial, os ricos do continente foram testemunhas de várias guerras e das suas pilhagens e saques, algo a que a Inglaterra sempre escapou desde o passado remoto dos vikings . A separação do dinheiro era sentida como muito mais segura nas ilhas do que no continente europeu. As possibilidades de rendas de capital são muito maiores num povo virado para o comércio arriscado, o marítimo, do que naquele que o pratica por terra, a distâncias mais curtas com menores exigências de investimento e menor risco – saudosos tempos em que o capital estava casado com o risco.

Outro limitante do desenvolvimento luso foi o atraso no conhecimento, bem espelhado pela escolha dos primeiros reis portugueses de conselheiros e administradores entre aqueles que se formavam em Bolonha, Salamanca e Paris em prejuízo dos que a universidade portuguesa produzia. Também nas cartas do príncipe das sete partidas a seu irmão, D. Duarte, isto está identificado e objecto de preocupação e lamento. Lembre-se que o atraso matemático – e contabilístico, em consequência – pode ter constituído uma das diferenças entre as melhores sucedidas companhias de comércio holandesas e inglesas e as nossas, embora todas acabassem por sofrer inúmeros problemas de viabilidade.

A escassez de capital já no século XX, tomou aspectos irónicos. Fomos empurrados para a aposta nos baixos salários que sempre conviveram com pouco valor acrescentado, por definição, quase e, mesmo agora, já após os colapsos financeiros dos anos oitenta e da presente crise, o recorrente recurso aos baixos salários emergiu. Trata-se dum círculo vicioso que se auto-alimenta, o principal problema é o diminuto capital investido em cada posto de trabalho, cerca de um quinto do que se regista nos EUA. A ironia está que durante o período em que Portugal voltou a amoedar, entre as duas grandes guerras e depois da segunda até á primeira crise do petróleo, não tinha capital humano adequado, agora que, na sequência dos capitais vindos de Bruxelas, quase que recuperamos o atraso na formação dos recursos humanos não temos nem capital interno nem externo – por muito que custe a Pires de Lima, o último trimestre registou uma saída líquida de 1000M de euros de capitais externos – pelo contrário, somos forçados a testemunhar a saída aos milhares de quadros intermédios no início da carreira (dizer que isso também é positivo como Sextus já ouviu á trupe de gestores imparáveis está na mesma gaveta de dizer que um tufão também o é porque impede a acumulação da poluição).

O problema do relatório do FMI é não ser técnico e constituir mais um documento do credo predominante que nos é lido por ser o menos mau para quem manda, o mundo financeiro. Continua o mantra do crescimento, imparável, mesmo com o primeiro mês de deflação em Portugal e em Espanha, logo alindada pela proclamação que, como os produtos são mais baratos, vamos comprar muito mais, quando aqui o importante é a desvalorização real da dívida, principalmente o oposto do que está a ocorrer. Também para o FMI, a deflação, ou até uma baixíssima inflação, será o que vai acordar a fada da confiança que não consegue ler as letrinhas do contrato de juros dos empréstimos bancário – será por ser cega que é confiante, talvez seja, esse foi o credo dos magníficos gestores que nos têm governado, conseguindo transformar milhões de pessoas em milhões de tolos, algo que merece forrados benefícios, sem dúvida.

O problema do FMI é não poder atingir o nível da realidade técnica, porque então não serviria quem deve servir. A situação lusitana, produto de séculos e mais definida por escolhas nas últimas quatro décadas, influenciadas por uma elite política leve, bastante ignorante e razoavelmente corrupta que tem servido fielmente a verdadeira elite financeira que perdeu os valores essenciais da prudência, da confiabilidade e da responsabilidade, agora que capturou completamente os estados e os seus impostos, garantes últimos que não há risco, a situação não se modifica sem uma ruptura, ao cirrótico já não basta parar de beber. A reestruração da dívida é inevitável, quanto mais tarde mais profundo será o fundo até onde desceremos, seja por exaurir de moeda – Sextus distingue facilmente entre uma privatização interessante para o país de uma venda de anéis ao exterior – seja pelo autêntico deitar fora o bébé com a água do banho que nada mais é do que esta desgraçada vaga de emigração.

Até o mundo financeiro reconhecer o desastre ainda muito vai piorar, a questão é qual a probabilidade de um burro esfomeado dar um coiçe? Também Tocqueville se interrogou, como aqui transcrevemos recentemente.

A saída que nos apontam, a anulação da classe média e a emergência da sociedade “low-cost” é mesmo baixo valor em tudo, na melhor da hipóteses, na pior é a realização orwelliana.

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