A tarefa de Hércules dos merceeiros: comerciar com moeda má e Sextus prefere render-se às criadas de quarto

A análise dos discursos das sociedades é ainda mais enriquecedora do que muitos possam pensar, chega mesmo a cumprir a sua função primordial de sinalizar embora já tenhamos aqui realçado que no curso já longo da história, o discurso serve também para velar a nudez, para atrair a atenção para as vestes vistosas desviando-a do nada que está sobre a pedra.

Nos tempos correntes de saturação das pequenas histórias ainda se consegue descortinar as incoerências mais interessantes – desde já se afirma que para um céptico as incoerências de per si não sinalizam fragilidade, quando as incoerências são irmãs da complexidade constituem manifestações de robustez, quando são filhas da simplificação tornam-se falácias de duração mais breve.

A incoerência que Sextus quer destacar está visível no choque não produtivo entre a ânsia de normalizar e categorizar e o movimento de progressiva atomização, inevitável consequência de uma globalização que não se quer limitada.

Os discursos sobre a evolução económica têm sido empobrecidos pelo choque que acima referimos. Continua-se a falar primordialmente nas dívidas e nos mercados, sempre do lado da oferta, que praticamente não tem limites – e isto apesar da produtividade real estar vários furos abaixo da potencial – quando qualquer análise identifica que o problema está na procura, releva-se o perigo da inflação quando aquilo que está à esquina é a deflação, entoa-se o mantra do crescimento emparelhado com demografias negativas que persistem há uma geração, ouvimos eloquências sobre liberalização laboral e aumento da produtividade com taxas de desemprego na população até aos vinte e cinco anos de 29% no milagre irlandês, 38% na paralisada Itália, 40% na atónita Lusitãnea e 55% na furiosa Espanha – os 8% na resistente alemã constituem mais uma imagem do valor do centro em comparação com a periferia (o documentário “marcha dos pinguins” apresenta a estratégia de sobrevivência no inverno australiano).

A elite financeira continua a ocultar que empurrou a economia para uma procura de tal modo inadequada que o pleno emprego apenas surge durante as bolhas – é curioso lembrar que o ritmo de construção de habitações nos anos 70 nos EUA era maior do que durante a bolha imobiliária.

O projecto da elite financeira assenta numa globalização contraditória, em parte limitada ao capital e às camadas muito superiores – o conhecido 0.1% de que Sextus vem falando – que perderam o contacto com as outras camadas, de forma mais fracturante do que ocorria nos regimes feudais e aristocráticos tardios em que ao topo social era imputado o papel de direcção e de alguma protecção dos estratos inferiores. Nesta fase, isso já não se verifica nem poderia sê-lo em resultado do ambiente pós pensamento mágico e pós iluminismo, onde os frequentadores do palácio de cristal exibem de forma igualmente vigorosa a sua anomia e o seu cinismo. O devir planeado para as camadas mais baixas, a ralé de Arendt, passa pela atomização alienada do seu passado e com impossível ligação a um futuro transfigurado em farol do comboio que avança no túnel.

O individualismo anglo-saxónico já não tem o vigor para comunicar um mundo de oportunidades, apenas almeja enevoar o tédio de uma grande massa “low-cost” que já nem pode cumprir o seu destino, afogada por um desemprego estrutural e desumanizante.

Os anúncios das virtudes da austeridade no ocidente ou do progressismo de uma democratização desacreditada em desenvolvimento só poderão provocar o escárnio e o mal-dizer às massas abandonadas pela elite temerosa, escondida atrás dos capatazes. As antigas elites que quase sempre ansiavam por uma exteriorização autoritária foram substituídas pelas actuais que constroem condomínios fechados.

Esta evolução prometida ás massas do núcleo e á quase totalidade das sociedades periféricas desertificadas da sua elite, apenas vigiadas por capatazes mais ou menos ambiciosos, é insustentável a menos que a realidade ultrapasse mais uma vez a ficção e largos grupos de sub-humanos cresçam e anulem os que restarem, cumprindo de forma original uma das melhores frases de Cavaco, uma citação, é verdade mas não lhe diminui o valor: “a moeda má expulsa a boa moeda”.

A suprema ironia, o individualismo anglo-saxónico cumpria o seu devir final na criação de um imenso amontoado amorfo e mais abúlico que uma manada de bois, já que nem pulsões tais seres terão. A decadência de um ocidente, endividado, enganador, viciado no casino e enjoado da reprodução, recusa que por si só marca a visão da morte quando se atreve a virar ao espelho lateralmente dependurado, testemunha do tempo que passa.

Portugal, pequeno e periférico não está dotado da capacidade de encontrar o seu caminho para o desastre, seguirá os ruinosos indicadores do núcleo, sempre esperançado que os penedos que prolongam a praia a protegem, tarefa facilitada pela moribunda elite lusa que, voluntariamente, já afirma a transferência de poderes.

Como no início Sextus receou, caso as coisas corressem como de costume e a oportunidade para erigir uma reforma de valor fosse falhada, a principal tarefa do governo seria manter os aeroportos em funcionamento e já agora os correios também, apesar das tecnologias novas.

Parêntesis final para um lamento: na velhíssima e fatigada Inglaterra, a privatização do Royal Mail avançou com avaliações entre três e oito mil M de libras, está em inquérito nos Comuns e os bancos contratados para a avaliação e montagem do processo foram a Goldman, o JP Morgan, o First City e o Deutsche – pobre país, que trapalhada, que falta de brio nacional, a nobreza britânica está em saldo, qualquer má moeda dos merceeiros das finanças parece que é aceite como boa.

Sextus aproveita Stendhal e afirma uma opção: mil vezes preferível ficar nas mãos das criadas de quarto.

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