Breve voo sobre agendas incompletas, demasiado insatisfatórias em tempos de cinismo e não aceitáveis como representantes da Paz celestial

É notável que desde há vários séculos, a discussão e o resultante discurso das elites ocidentais repousam em equívocos, lateralidades e muitas vezes, manipulação. Se alguns, como Hobbes, teorizavam o governo como transferência total de poder, pensamento revolucionário e estranho na pátria do pragmatismo, poucos preocuparam-se em apontar a principal vitalidade do governo, o cerimonial do adiamento, a falácia discursiva, o teatro de sombras.

A sobrevivência dos governos foi clarividentemente definida pelos orientais, repousa na sua inacção desde que garanta o óbvio, a recolha dos impostos em favor do grupo dominante que consegue manter a ordem. O oriente ainda foi mais longe no encerramento definidor, o poder seria absoluto, logo o único que pode recorrer primordialmente á meritocracia mas, mais do que representar os Céus na terra, deveria cumprir a sua vontade, isto não satisfeito daria azo, como deu, á remoção absoluta de uma casta do poder e a sua substituição total por outra – ainda hoje o PC chinês tenta reproduzir o essencial desta visão e é mais bem tolerado que os seus congéneres o foram nos vizinhos porque interiorizou razoavelmente a sua função e largou os devaneios paranoides de construir a história pela ira, a praxis da clique maoísta. É subtil a construção da teoria, a vontade dos Céus é ratificada pela paz na terra, a desordem terrena constitui sinal indirecto que o governo já não é capaz de cumprir o seu destino, a justificação não vem do sangue eleito pelos Céus, a ratificação da ligação baseia-se no feito e mérito de conseguir a paz na terra, vontade última dos Céus.

Já aqui dissemos que a principal função deste governo era manter os aeroportos a funcionar, depois do colapso do transporte ferroviário de longa distância, de preferência frequentados pelos passadores do presente, as companhias aéreas “low-cost”. Isto foi feito e permitiu a saída nos últimos quatro anos, o fenómeno da emigração renasceu em 2010, de cerca de 250 mil lusos. A outra função do governo consistia na redução de uma parte do défice público, algo que está a ser feito com médio sucesso a acreditar nas projecções de 5.3% para 2013, mais ou menos metade do que se verificou em 2009.

Daqui emerge o actual discurso de sucesso dos grupos que suportam PPC, o que se compreende mas que é algo prematuro. Vamos ter de esperar pelos efeitos da perda desses grupos de emigrantes e aguardar se caímos no inferno da deflação, fatal para uma comunidade endividada.

Como aqui tem sido hábito, a solução de um problema facilmente se pode transformar noutro problema tão ou mais díficil de tratar. A focalização na dívida tem sido um erro na Europa porque obviamente só serve a Alemanha e cria problemas a todos os outros, mesmo na vizinha Holanda, como se começa a perceber.
Por outro lado, o conflito na Ucrânia se for resolvido a favor dos pró-europeus constituirá uma grande oportunidade para a Alemanha e uma ameaça para toda a restante Europa ocidental.

Não deixa de surpreender a aparente candura de Rajoy ao desejar que a Alemanha saiba o que está a fazer e é claro que sabe, só que não o diz, como é habitual. A Alemanha já percebeu quais são as suas principais vantagens e ameaças e tem consciência que, mesmo com o seu sucesso, a crise está à espreita. Os alemães que há vinte anos, eram o homem doente da europa, sabem que, não obstante a sua excelente posição como exportador, o segundo ou terceiro maior do mundo, vão estar em dificuldades no futuro jogo histórico, confinados que estão a um espaço inferior a um milhão de Km2 (isto incluindo a grande Alemanha, desde o leste francês até ao leste polaco) que poderá aumentar para cerca de 1.5 milhão de km2 com a anexação funcional da Ucrânia, falando uma língua compreendida por menos de 150 milhões e um passado histórico desprovido quase de projecção com a excepção das bizarrias leste-africanas e namibianas. A Alemanha percebeu que deve crescer e que só o pode fazer virando-se para o leste e para o norte. A Alemanha é neste momento, apesar do discurso completamente contrário, o homem do fraque no enterro europeu e PPC ou ainda não percebeu isto ou preferiu refugiar-se no curto e médio prazos.

Há outro vírus fatal a infestar a política de PPC. A diminuição da população vai provavelmente continuar, bom por um lado mas realmente insustentável ao atirar o fardo da dívida feita por dez milhões para os ombros de nove, agravando o quadro a maior velhice e maior percentagem de pré- e retirados – o compreensível adiamento da idade de reforma traz consigo perigos maiores numa sociedade de alto contexto como a portuguesa do que nas de baixo contexto, principalmente quando esse alto contexto é modificado pela moldura dos “boys” que não fazem nem deixam fazer mas que se apresentam pressurosos á mesa, todos os dias, em todos os lugares, sempre apoiados pela ratificação outorgada pelos pré-retirados que encontram a sua nova e final tarefa.

Outro vírus infectante já aqui foi identificado, os capatazes têm historicamente dificuldades em perceber os seus limites de poder, a transferência que o dono lhes fêz, excedem-se no empenho ao projecto inexistente, apenas representado para manter o status. Com o tempo, a degeneração da qualidade dos capatazes é imparável, e é disso que se trata quando R Rio clama pelo desbloqueamento e renovação políticas. O problema é que isto sendo real e previsto há muito tempo – Sextus remete para um post em que se limitou a parasitar um bocado notável de Tocqueville – não passa de uma consequência de factos mais a montante, já aqui ventilados via Sloterdijk e o seu “palácio de cristal”. A reforma dos capatazes é mais ou menos inútil desde que os seus patrões consigam manter o seu projecto.

A modificação do edifício socio-político que entregou ao poder financeiro o controlo total na expectativa de que este arranjasse os fundos para o pagamento do lúmpen e da ralé, em constante crescimento alimentado por um desemprego de curva virada para o céu contém dentro de si perigos e contradições que nos podem fazer confirmar a lei de Murphy.

R Rio ainda está na fase de tentar garantir sol na eira e chuva no nabal, para escapar de ter razão antes do tempo. O tempo de vida útil que lhe resta é demasiado longo, espera-se, para sonhar com tal projecto agrícola. Se não se deve mostrar as páginas ainda não acabadas de escrever é conveniente que a introdução não torne o primeiro capítulo demasiado surpreendente, o cinismo instalado talvez não o permita. As turbulências geradas não seriam aprovadas pelos Céus, as massas lá encontrariam mais ou menos penosamente o eleito para a melhor reprodução realizável da Paz Celestial, a agenda cumpria-se.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s