Sinais inequívocos de declínio são sempre inúteis ou da inércia da cegueira à dúvida da inércia

Este ano que acaba adicionou mais ao amontoado da decadência que o ocidente vem acumulando há algum tempo mas, tal como a crise económica-financeira parece ser diferente conforme o anúncio de RR (que curiosamente admitem no seu último artigo que o corte da dívida é a melhor opção), também esta crise do ocidente pode vir a ser diferente do que ocorreu com outras, embora, quase por definição, cada crise é diferente.

Parece conveniente lembrar um dos significados mais duros da palavra crise, trata-se da dissociação entre o que se construiu e o que se percepciona como realidade imposta, aquilo que se vê não adere á imagem pré-formada.

Um dos conflitos mais acerados deriva da contraposição entre a publicidade ocidental, anglo-saxónica predominante, sobre o triunfo da liberdade, da globalização gloriosa, do crescimento, do historicismo do fim da história e a descoberta do controlo global, do amorfismo global, do emperrar económico (que não o financeiro) e do beco sem saída de não haver alternativa, a marca mais dura do fim.

Não é possível saber se a cultura anglo-saxónica de per si desempemha papel iniciador no “big brother” que muitos suspeitavam e que agora todos sabemos, ou se, pelo contrário, o controlo extremo é o corolário de qualquer poder imperial. A mensagem de natal de Snowden é útil por nos revelar até onde o poder de vigiar pode ir, primeiro passo antes do poder total na fase seguinte, quando todos falarmos a novilíngua, ou seja, quando já nada conseguirmos dizer – Sextus abre aqui a excepção para os gestores do futuro que ainda dirão alguma coisa, dialogando com os reguladores e advogados, todos muito menos loquazes que os inseguros verborreicos do presente, todos conscientes que a sua mais valia, extremamente frágil reside no tecido dos canais de acumulaçao de informação cuja senha para lá permanecer será o recorrente elogio inter-pares.

Trat-se um pouco como no velho império soviético, os mais duros no interior gozavam de mais liberdade de articulação com o mundo não soviético, pelo contrário, os menos homogéneos sofriam a imposição de uma barreira mais espessa com o exterior. Neste século, a limitação e controlo da vida entre as duas formas políticas, a do ocidente anglosaxónico e o centralismo oriental vão ser orientadas de forma muito diversa, mas provavelmente seguindo a regra descrita acima, o que levaria a um maior controlo no ocidente do que no oriente onde o núcleo é mais homogéneo – a actual ditadura chinesa é mal percebida por muitos neste lado do mundo, o governo é duro e pouco flexível ou não fosse filho do exército mas a extensão do controlo na periferia é mais suave, ou ainda se quisermos outra manifestação ilustrativa, o conflito da heterogeneidade europeia a nível central é acompanhado de forma quase necessária pela vigilância apertada dos sistemas de fronteiras, de impostos, de regulação das instalações até á colher de pau que resiste. De qualquer modo, é sempre algo irónico observar a nudez do rei, a auto-proclamada paixão pela liberdade teve a duração limitada quando a liberdade passou a ser outorgada a muitos, os anglo-saxónicos foram sempre pragmáticos, quando erram corrigem o tiro, as suas convicções valem mesmo menos do que nos espíritos levantinos. Outros já teorizaram sobre isto há mais de cem anos, a democracia inglesa só foi superior à continental porque aquilo que separava os competidores pelo poder era menos do que se observava no continente, ou já agora, toda a liberdade na escolha da cor desde que seja preta.

A outra dissociação que lentamente vai emergindo, embora até agora tenha sido ocultada com algum sucesso, é a criada entre a dívida e a incapacidade de utilização do potencial produtivo reflectido pelo crescente desemprego. Tudo isto é misturado com artefícios como a baixa de impostos na produção quando aquilo que é necessário é a redução dos impostos individuais – a falácia da prioridade sobre a oferta ainda vai ter alguns anos de duração porque a procura tem baixado de forma muito mais ténue no núcleo do que na periferia, seja qual o corpo que for estudado, incluindo a separação crescente da vivência lisboeta em contraponto com a do restante território.

Uma outra fractura surge no contraponto entre eficiência/eficácia e sustentabilidade. Sextus já tem repetidas vezes alertado para aquilo que sempre se verificou ao longo da história, a eficácia e a eficiência estão muito longe de ser seja sustentáveis seja dominante; a falácia da eficiência dos mercados sempre foi reconhecida, tem sido é maquilhada e mascarada pelos arautos da economia pagos pelo mundo financeiro – não é o touro que está junto de Wall Street, o que simboliza o touro, a eficiência, a eficácia, ou não será a vontade animal que por vezes apenas produz pó e tosse para quem a inalar?

A última quebra que realçamos é a contraposição da segurança da pertença ao grupo com a fatalidade da periferia, onde o sol chega sempre mais fraco. Hoje foi apresentado um estudo de um “think tank” inglês a projectar, pela primeira vez, a ultrapassagem da Alemanha pela Reino Unido daqui a cerca de vinte anos, ultrapassagem que poderia ser antecipada na eventualidade do RU abandonar a CE.

Apesar de Sextus pôr as reticências em qualquer projecção, o que quer realçar é que a CE é um continente em trajectória descendente pela crise demográfica e pela falta de força para se apoderar da riqueza mundial com a intensidade com que o fazia no passado. Portugal opta pelo suicídio lento ao manter as amarras a um grupo em declínio quando deveria crescer para iniciar a amortização da dívida e evitar a manutenção do desemprego neos valores correntes, vectores que esvaziarão ainda mais o país.

A crise, como é costume, é a fractura entre a realidade desejada e aquela que começa a ser forçosamente antecipada. Muito provavelmente, vamos ter que sofrer um retrocesso maior até aceitarmos os desenvolvimentos que alguns poucos projectaram: o empobrecimento, o atrofiamento, o corte da dívida, a inutilidade de persistir num projecto derrotado por demasiado insustentável para as sociedades periféricas. Nessa altura, a candidadata a elite governativa vai ser levada a escolher entre centralismo e descentralização, entre eficácia e sustentabilidade, entre Atlântico e Índico e continente.

Essa elite, se chegar a ver a luz, não será internacionalista, quererá assumir os destinos em liberdade do país, recusará a dívida por não se ajustar a um ocidente que apenas poderá lutar pelo suave declínio e não por crescimento, negará a primazia da capital nacional ou europeia e perceberá que impostos sustentáveis terão que ser mínimos para poderem acomodar despesas extras votadas casuisticamente e no local por aqueles que vão pagar esse adcional. Tal como a separação funcional de Bruxelas, outra será de igual importância, a de Lisboa.

Há sempre alternativas, a pior certamente incluirá a continuação para a globalização, sociedade “low-cost” e até livre de custos em que a liberdade será transfigurada pela homogeneização hipercondicionada e controlada por uma centralidade difusa, sem rosto, apenas se ouvindo o controlado discurso novilinguístico dos capatazes, estupidificados guardiões de subhumanos infantilizados.

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