A eterna dissociação entre a oferta e a procura ou a ineficiência como motor duradouro dos mercados ou a esquizofrenia discursiva dos gestores, manto para o medo de quem sabe que só sabe fugir para a frente, sabem lá eles o que isso é

Já aqui se tem explicitada uma grande distância para o mundo da gestão, provavelmente o maior feito no mundo do trabalho, a criação de uma profissão dominante apesar de não repousar em base sólida, seja pela história, seja pela sua necessidade. Tem certamente como maior sucesso o desenvolvimento de uma novilíngua particular, menos excitante do que a que Orwell propunha que se baseava em explorar paradoxos, enquanto que esta forma recente assenta na confusão. O risco que lhe veio associado foi a indução da perda excessiva de referências de tal modo que o par mais querido pelo gestor é o farmacêutico, seja de drogas recreativas ou das outras. O outro perigo é a perda no labirito confuso que tece com o abuso de significantes com significados obscuros.

Seja como for, quando se pedia um discurso desde Pírron até Montaigne que pudesse lidar com a não contradição estrutural do terceiro, ou do Ou-Ou de Kierkegaard, saiu-nos esta algaraviada, talvez para lembrar que não é necessariamente falso que quando alguma coisa pode correr mal é isso que suportamos. Precisamos da luz da não exclusão, quase nos ensurdece o ruído da confusão.

No mundo da gestão financeira continua o debate sobre a proeminência da oferta ou da procura, debate interessante mas que para Sextus está a não incluir outra variável, o dilema entre local e global que, por sua vez, apresenta vários derivados. Sextus tem como verdadeira a dominância da escassez da procura nesta altura, quer a nível do ocidente em crise quer a nível global – por exemplo, no Cambodja tem havido manifestações nos últimos dias, uma das exigências é o aumento do salário mínimo que está em 80 dólares mensais – a globalisação mais do que igualar as condições do mercado alargou-o até incluir caudas de tal forma alargadas que impossibilitam, no fundo, o cálculo de uma mediana com significado. As consequências do pensamento único da eficiência dos mercados tem atrasado a assunção pela teoria económica dominante do papel motor central da ineficiência para a sobrevivência dos mercados, que são mais desiquilibrados mas mais móveis quando esta ineficiência não se agiganta até tornar impossível o encontro entre o comprador e o vendedor.

Um derivado mais esquecido da globalização é o crescimento dos movimentos de transferência. A transferência começou com a distância que a mensagem tinha de percorrer, quer física quer cultural e o par da transferência, por definição, é a representação. Na CE fomos realizando cada vez mais processos de transferência, desta vez sob a roupagem nova da subsidariedade, essencialmente um sedativo e analgésico que quando tomado em excesso provoca alienação, alucinação e por fim uma perda substancial de qualidades cognitivas que regridem até á mais profunda infantilização. Este movimento tem assentado no tempo, primeiro, pela necessidade de representar populações em crescendo dotadas de cidadania, requisito relativamente recente com pouco mais de cem anos – as populações nas idades médias e modernas conviviam com a restrição a um número reduzido dos seus elementos da outorga do direito personalidade cívica – e mais tarde, baseou-se na complexidade das questões a dirimir, o terreno abundantemente irrigado pelos advogados, primeiro, depois pelos seus primos, os gestores, abandonados pela mãe da economia e filhos de pai incógnito, consequência de coito sucessivo com advogados, financeiros, políticos e tutti quanti – veio daí, certamente, a necessidade da verificação da raça e qualidade do gestor público certificada por uma competente comissão, que entretanto, já afastou do poder os potenciais culpados da difícil situação em que poderíamos voltar a caír preferindo, sensatamente, a certificação daqueles que nos trouxeram até aqui – as vantagens de manter o carteiro.

Esta incessante transferência de poder e de responsabilidade parece mimetizar a involução ao longo da vida quando no estadio terminal voltamos a ficar dependentes, sendo que aqui os auxiliares são os nossos amigos gestores, sempre balizados pelos advogados, que conseguem repetir o truque conhecido de roubar o testamento, desaparecem os proprietários, voam pelos ares os valores mas ficam ao menos os controlos biométricos, reputado certificado da excelência de gestão de recursos humanos, pelo menos na Lusa Cacânea.

Um derivado mais importante da transferência crescente é a dissociação entre risco e valor e a confusão consequente sobre a origem do valor, eliminado que parece o risco e ocultada a raridade, pelo menos para a maioria dos itens. No seu segundo livro sobre o assunto, Lanier em “Who owns the future” chama a atenção para a criação de valor neste mundo global e ligado. O valor é transferido do alimentador-utente para o servidor central, que ele classifica de servidor-sereia em homenagem á Odisseia e Ulisses. Esta transferência, voluntária, de valor acompanha-se ainda do brinde da remoção do risco, obtido via toda a panóplia de condições de deresponsabilização do servidor, não só do ponto de vista legal mas essencialmente através da não necessidade do risco do investimento nesse produto. O excesso desta globalização com a transformação e emergência do cérebro da colmeia, a pedra filosofal dalguns extremistas da tecnologia, acaba por ser uma versão modificada e cibernética do Grande Irmão, ou como Lanier classifica, o totalitarismo da net ou os cientistas maoístas – para quem não conheça, Lanier é um dos pais da realidade virtual e sempre trabalhou neste sector, que não renega, apenas gostaria de mudar – a reconversão de alguns maoístas à globalisação tem outros exemplos. Lanier chama a atenção para uma versão requintada desenvolvida primordialmente na China, o blog dos blogs, a nova criação do servidor.

Uma das evoluções do desenho da governância pelo servidor sereia é a transferência da criação de valor do conteúdo para a publicidade centralizada e devolvida pelo servidor, sinal para Lanier de que a sociedade está cristalizada pela manipulação.

Voltando ao dilema da oferta versus procura, o problema base radica na crise da oferta de trabalho e é aqui que a competição pelo capital vai ser decisiva. O problema crucial que a lusa Cacânea não irá enfrentar – os problemas não se enfrentam nunca, arrastam a sociedade para outros locais e paradigmas – deriva da competição pelo capital entre os diferentes países, que será particular na armadilha europeia que conjugou diferentes riquezas á partida, com diferentes capacidades, diferentes esquemas tributários, diferentes acessos a versões de paraísos ou purgatórios fiscais com a abolição de fronteiras funcionais para o capital e unificação da moeda. O resultado é a aspiração do centro que se vem deslocando ligeiramente para leste.

A nossa frágil elite, ainda mais infantilizada por décadas de transferência do poder, substituída por um trupe de gestores-capatazes desprovidos de qualquer brio nacional, sinal indirecto de impotência e de gosto pela sociedade de onde provêm -é sabido a tragédia de ser governado por quem renega as suas origens- disfarçados debaixo das vestes da TINA, abrilhantados pela esquizofrenia discursiva e certificados pela comissão de capatazes- não pode desta vez ser parte da solução.

Alguns irão emergir com capacidade e vontade de se governarem, outros já não saberão o que isso é, outros, infantis eternos, escutarão as ordens dos capatazes.
Sextus irá manter-se na planície, recusando o refúgio na montanha dos estóicos e dos ascetas, sabendo que Occam foi excomungado, Orwell morreu tísico mas nem sempre tudo aquilo que pode correr mal assim será, veja-se a falta de certificação que lhe veda a estalagem e a cerveja mas não o afasta da prova de vinhos.

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