O pós crepúsculo do dever é o fim do como se

Se aceitássemos tudo aquilo que nos vêm contando parecer-nos-ia que iríamos entrar numa fase que assentaria primordialmente nos sucessos das opções feitas durante os últimos meses, algo estranho e surpreendente quando o modo de comunicação tem sido outro, lá voltaremos no fim.

Decorrente da infantilização contínua já não conseguimos ligar as coisas, voltamos ao mundo mágico das vontades e destinos dos gregos, quando não havia tempo, apenas carácter e alma (ou espírito do tempo de Maquivel). O novo é que neste tempo já não há alma nem carácter o que dificulta este conto político moderno.

Sextus recomenda vivamente um livrinho com vinte anos de Lipovetsky, ” O crepúsculo do dever” e presenteia quem o lê com este belo naco, entre muitos que se podem descobrir.

“Sociedade pós-moralista significa sociedade que renunciou a inscrever em letras de ouro os deveres supremos do homem e do cidadão, a declamar a grandeza da renúncia de cada um a si próprio…A esfera tradicional da caridade não é a única a beneficiar de um aumento de vitalidade, agora, são as esferas do ambiente, das ciências biomédicas, dos media, das empresas a ser dominadas pelo discurso e pela exigência éticos; por toda a parte, o discurso dos valores ascende à primeira linha, correlativamente ao enfraquecimento dos grandes projectos políticos e à recrudescência das angústias suscitadas pelo ímpeto das técnicas, das imagens e dos interesses. Em última análise, mais nenhuma questão é tratada fora do referencial ético: a extrema direita marca pontos, reactivemos os princípios dos direitos dos homens; o terceiro mundo morre de fome, organizemos charity-shows e programas de auxílio urgente; o planeta está em perigo, deifiquemos a natureza; a humanidade do homem está ameaçada pela tecno-ciência, dotemo-nos de instâncias guardiãs da ética; os media pervertem a democracia, revitalizemos a deontologia do jornalismo; o capitalismo desenvolve a corrupção, moralizemos a liderança e a prática dos negócios… as injunções solenes ao dever estão ultrapassadas, chegou a hora dos hinos à responsabilidade sem fronteira ecológica, bio-ética, humanitária, económica, mediática.”

Esta época de abolição dos deveres não derivou para uma sociedade associal pela conjugação dos resultados dos múltiplos direitos, uma outra forma de revisitarmos o palácio de cristal da Europa de formas generosas – a América tem sido providencialmente poupada ao envelhecimento e destelhar do palácio e vai continuar a sê-lo depois de nova dádiva da natureza em energia com o estímulo adicional de que é difícil recolhê-la evitando o triste paradoxo da pobreza concomitante com o acesso á prata da época dos descobrimentos e o caldo cultural americano, sendo indigesto, ainda tem muitos bons anos pela frente como qualquer sopa de pedra que se preze, os consomés são mais delicados. Mas a chegada da restrição sucessiva desses direitos tinha que levar á criação de nova língua.

Ainda não caímos nos extremos novilinguísticos apenas porque nos esforçamos para idealizar “como se” ainda não tivéssemos lá chegado e temos sustentada esta crença na recordação dos passados. Aristófanes, Cícero, Agostinho, Tomás de Aquino, Dante, Maquiavel, Lutero estão aí para nos recordarem que esses tempos antigos não são uma idade de ouro e daí para a frente os documentos estão disponíveis e abundantes para percebermos que até melhoramos muito dos procedimentos que regulam as sociedades, ficamos aliviados por um instante. O problema é a velha frase de Marx, a tragédia quando se repete assume a forma da farsa.

Os desafios são outros, todos envelhecemos mas quase ninguém se alegra muito com isso. A eterna juventude, o contínuo progresso, sustentáculo de um endividamento persistente, os direitos em crescendo esbarraram no fosso da vantagem desaparecida do ocidente e na enorme força centrípeta do poder que rodopia numa valsa a mil tempos, com atritos insuportável para uma periferia que se perde nesse voltear.

O discurso “como se” não se aguenta. Como é que a CE, e no nosso caso, PPC, vão substituir o conto da austeridade reformadora com a realidade da ausência de reformas? Só lhes vai restar a novilíngua apimentada pela sua essência, o zigue-zague. Que política será possível numa restrição contínua em zigue-zague?
O virar e contra-virar de um volante em boa estrada, larga e asfaltada num magnífico carro é suportável ao preço de tonturas, o mesmo movimento em carro desconjuntado em caminho de terra batida vai terminar em despiste seguido do vómito da ralé, que quando se levantar procurará, furibunda,os engenheiros e os gestores para abater. Nada que a história não tenha registado antes.

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