Algo que muda devagarinho, debaixo do sol: os governos ou uma tentativa de passar para além da cacofonia gritada na neblina

Os últimos dias têm sido razoavelmente ricos de eventos, desde as emanações do ministro sempre em pé em Madrid, as declarações do David britânico no meio do alagado sul, a emissão de dívida, os comentários sobre os números do desemprego, o referendo helvético, etc.

Comece-se pelo fim que muitas vezes é tão importante como o princípio. O desemprego é o principal sinal de crise, quer assumindo o significado de mudança significativa quer de ameaça. Brooks no seu artigo de hoje no NYT dá números cheios de interesse. Os USA apresentam a maior taxa de sempre de empregos a meio tempo e a mobilidade geográfica está a diminuir fortemente, mesmo nas camadas mais jovens. O acéfalo discurso do mundo global de oportunidades é contradito pela realidade. Brooks, de forma inteligente, afirma de forma indirecta que a especialização regional e citadina está a esbater-se (veja-se o paradoxo chinês de industrialização do século passado, com cidades inteiras dedicadas a um só produto industrial, é verdade que com o contraponto da grande metrópole de Chengdu, o maior centro mundial de indústrias de quase todos os sectores, desde as de média até às de alta tecnologia). a isto associa-se o sentimento negativo de que aquilo que vem é menos do que aquilo que foi.
Nesta linha, o resultado do referendo suiço só peca pela pouca diferença entre aqueles que pensam por si próprios e os outros que estão reféns do discurso politicamente correcto dos capatazes da CE.

Passemos para a emissão de dívida a 5.1% de 3000 m e atente-se no desastre e no buraco que aprofundamos cava vez mais. Isto significa um diferencial de cerca de 1.5% comparativamente às taxas que garantimos no resgate, ou seja, mais 45M de euros por ano de agravamento de juros para este montante. Com um país acrescer cerca de 1% ao ano e uma inflação ao redor de 1.5%, troquemos Miró por Munk. Enxertar aqui as declarações do sempre em pé ministerial é tarefa mais difícil do que Nicolau Almeida ou um Symington possam enfrentar para melhorar as cepas vinhateiras.

Poderá então parecer que ou os estados não sabem o que fazem ou são possuidores de um saber mais profundo do que a melhor loja que aparentemente nos governa. Como alternativa à auto-flagelação, que também parece se pratica no meio dos melhores gestores façamos um ajustamento da visão, deitemos mão a um bom espelho retrovisor para perceber o que vem à frente.

O estado não é verdadeiramente a máquina que administra o território. O estado é uma máquina de apropriação de poder para redistribuir recursos. Esta toma de recursos tem como contrapartida a segurança e a manutenção do mínimo de concórdia nos governados. Nos últimos dois séculos temos assistido e promovido à mudança do conceito de segurança que o estado deve prover. O apelo das regiões inundadas do sul a Londres tipifica exemplarmente esta evolução como também ilustra o falhanço do estado em cumprir as funções que insensatamente se arroga. A maior dimensão da captura de recursos tem sido suportada pela necessidade de garantir segurança mais alargada, fazendo crescer o estado a ponto deste se ter tornado a maior empresa, em quase todas as regiões do mundo e em todo o hemisfério ocidental – nova falácia, os estados dizem não ter poder quando na verdade nunca os estados tiveram tanto poder. O estado-empresa substituiu o exército em todas as suas atribuições, incluindo a projecção externa, a função principal do estado imperial. Do primeiro império, Roma, até ao último, os USA, mudou muita coisa. O primeiro repousava nos ganhos da conquista, quer de terreno, quer de populações, escravizando-as primeiro, depois regulamentando-as. O segundo tem sido alicerçado sobre a conquista de mercado via projecção do exército e depois, também em consequência inicial da acção militar, na apropriação de energia barata. Claro que a conquista de mercado é também alimentada pela superioridade científica, ela mesmo derivada da superioridade militar, quer na fase mais guerreira com captação pura dos cientistas dos estados conquistados, quer pela imposição de um privilégio absolutamente excepcional, a sua moeda. Na fase presente, o mercado tem sido mantido pela regulamentação, uma das faces da globalização, outra falácia abusada, basta perceber quem controla as agências reguladoras decisivas, a começar pelas instituições de notação financeira.

Neste momento, o estado deixou de ser pertença da classe média, perda há muito anunciada mas longamente adiada por uma aliança de circunstância entre o grande capital financeiro e a classe média durante os dois últimos séculos. A globalização marcou o fim desta aliança. Muitos não perceberam o alcance da livre circulação de capitais com a consequente desligar entre a construção da infraestrutura física e humana, tarefas que sempre repousaram no esforço financeiro e não só das classes médias locais (em verdade, que conseguiam a mobilização mais ou menos convicta dos estratos inferiores ou que lhes pagavam, ou melhor ainda, que lhes arranjavam modo de ocupação e inserção social).
O estado passou a ser dirigido pelos capatazes do mundo financeiro, que está realmente desligado de tudo o resto, tornou-se em matéria negra, tudo aspira e mantém-se invisível. Assim deixamos o mundo do paradoxo, abandonamos a angústia irresolúvel do agrimensor mas não nos podemos abandonar no colo dos capatazes que nunca mostraram perceber realmente aquilo que fazem para além de manterem a sua sobrevivência e cumprir ordens. Não é que sejam verdadeiramente ignorantes, mas os capatazes estão desprovidos de história, é parte da sua essência. A sua nudez veste-se dos elogios mirabolantes que dispensam uns aos outros, o fato que confeccionaram não poderia ser mais bem feito, só eles o sabem tecer e não há outro modus faciendi.

Se o nipo-americano tem razão, acabou-se a história, esperamos o nascimento não do messias mas do orangotango mais ou menos semi-sapiens, nunca saberemos o que realmente se passa lá em cima, mas com tanto pó branco, talvez ninguém saiba. Estaremos entregues ao marinheiro holandês.

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