Sol na eira e chuva no nabal e chuva na eira e sol no nabal ou mais uma versão do duplipensar

O duplipensar tem vários pais e várias mães e um bom pirrónico tem que o reconhecer, pelo menos, como bastardo. O duplipensar pode também ser visto como o improvável fruto da incubação do terceiro não excluído com o cinismo pós-iluminismo.
Nos tempos presentes, com inúmeros palcos e megafones, o duplipensar evoluiu para a afirmação dos contrários com grande despudor apoiando-se no colapso da memória e na fadiga racional.

Nas duas últimas semanas, tivemos uma interessante sequência de euforia e pessimismo, como vem acontecendo desde há vários anos, no fundo desde o anunciar que estávamos atolados no pântano. A alternância novidade / repetição radica também na falta de capacidade para resolver o que quer que seja.
Já aqui lembrámos o duplipensar nuclear sobre a missão dos governos, sempre se tratou de capturar e redistribuir, por definição só se governa aquilo que se capturou.

A captura europeia pelo mundo financeiro ocorreu há mais de dois séculos, Adam Smith anunciou-a e lamentou a difícil compatibilização entre os interesses dos que ele denominava negociantes e os interesses mais gerais do reino (os negociantes estão para os financeiros como a lança está para a metralhadora), a revolução francesa foi uma espectacular demonstração da sua exuberância, Luís XVI morrendo às mãos do tesouro falido, continuando até Napoleão III, derrotado de várias maneiras, uma delas via banca europeia. O mundo financeiro apenas perdeu o controlo quando a ralé tomou o poder através dos movimentos fascistas e comunistas – foi Hitler que instituiu o primeiro de maio como feriado na Alemanha.

Os problemas europeus, da mesma natureza mas de grandeza diferente dos que padece a Lusitãnea-cacânea, continuam a ser resolvidos de uma forma que poderá fazer grande história, recorrendo a uma tal panóplia de falácias e duplipensar que convenceria Orwell que tínhamos enfim chegado a 1984.

Por muitas voltas que se dê, a maneira engenhosa como o ocidente enfrentou o fim do imperialismo clássico, modo de exportação de populações excedentárias e de captura de tesouros de guerra foi o abuso da alavanca da dívida, inventada pelos italianos e pelos judeus na idade média.

A discussão sobre a dívida, compreensível mas estranha por tardia – se é que na história humana alguma vez houve o atempado – tem obnubilado o obstáculo-vala nuclear, o desemprego. Nunca será demais repetir o bom do escocês, citado quase sempre a despropósito por economistas e gestores, para Smith, capital é aquilo que nos capacita para angariar um homem para trabalhar para nós – é verdade que mais uns anos e Smith teria visionado naquilo que o capital se tornaria, desmaterializando-se de forma intermitente, assumindo quase sempre a forma de capitalismo estatal, mesmo nos auto-proclamados bastiões liberais. (Não deixa de ser interessante que quando perguntaram a Chomsky, um radical de esquerda, se o capital estava perto do seu fim, este tenha respondido que aquilo que nunca começou não pode acabar; estes pontos de contacto entre os libertários conservadores e os radicais de esquerda têm sido muito bem aproveitados pelos capatazes dos governos).

No caso de Portugal (louve-se alguma sensatez no que se sabe do relatório de avaliação da troika pelo PE), com as três dívidas altíssimas, caso único nos países europeus e que levou a que Krugman desiludisse os ex-capatazes socialistas quando concordou com o essencial da abordagem de cortes que se estavam a realizar, o desemprego tem uma origem muitíssimo afastada de qualquer problema de competividade por salários altos. Salários altos na cacânea á beira-mar plantada é uma piada sem graça, mas a elite empresarial local não pode reconhecer as reais causas da pouca produtividade, derivada de inadequada quantidade de capital próprio quando se iniciam os investimentos, com apenas um quinto de capital fixo imputado a cada posto de trabalho quando comparado com o que se observa nos USA, por exemplo, complementada por medíocre capacidade de administração, cultura de lucros rápidos e encerramentos de igual velocidade, coroados pela má qualidade do operário, com deficiente formação e ainda por cima mal enquadrado por quadros intermédios pouco melhores. Trata-se de um circulo que se auto-alimenta, pagam-se amendoins, trabalha-se como o macaco que se satisfaz coçando a barriga e comendo os ditos.

A discussão sobre o nível de salários na Europa tem sido desviada para o conceito de mercado, os salários seriam determinados pelo mercado, mas realmente trata-se de outra falácia, não são nem nunca o foram. Os salários são determinados essencialmente pelo nível associado á sustentabilidade de quem o recebe e isto nada tem a ver com mercado, mas sim com recursos e expectativas. O nível de sustentabilidade tem variado ao longo do tempo mas o nível no ocidente tem repousado em patamares muito acima do que se passa no oriente. Esse salário foi puxado mais para cima quando muito do que se estava a fabricar de novo tinha que ser vendido também localmente, caso contrário o rendimento baixaria. No passado, no início da revolução industrial, o salário era determinado por um cabaz alimentar, as outras necessidades dos operários eram em parte satisfeitas pelo trabalho feminino domiciliário – Sextus volta a remeter para Smith e a “Riqueza das nações”. Este puxar para cima permitiu a poupança das classes mais baixas, logo a seguir, de forma inevitável, possibilitou a contracção de dívida. Esta tem permitido manter a percepção de sustentabilidade nos últimos trinta anos, período de geração de bens cuja necessidade é muito discricionária, apesar dos salários não terem crescido em termos reais (claro que isto se verifica nalguns países, noutros não, mas a média do ocidente tem seguido esta linha).

A dívida teve outro efeito para além da manutenção e mesmo elevar desta percepção de sustentabilidade, foi a diminuição do desemprego. A dívida usada para a imobiliária gerou cerca de 750 mil casas vazias em Portugal, mais de dois milhões na França, Reino unido, Itália e Alemanha e mais de três milhões na Espanha – os patuscos irlandeses têm meio milhão para vender. Mas no passado, quantas igrejas foram levantadas, quantas pirâmides foram construídas, quantos templos em Bangkok Angkor vat, etc. Os países mais pobres, com pouquíssimo capital construiram menos, o exército de desempregados vagueou roto pelo pó da Índia onde os templos são muito mais raros e que não tinha dinheiro para entretimentos guerreiros.

O problema do ocidente é compatibilizar a desmaterialização do capital que se move sem freio, que se tornou quase inimigo da propriedade privada, imóvel, alvo fácil da tributação imparável dos capatazes dos governos, com a sua voracidade insaciável e sua destruição do emprego, da redundância e do abaixar do nível da sustentabilidade até voltar ao tempo em que nos bastaremos com o pouco que consigamos produzir – as fotocopiadores de três dimensões podem ser o que foi a electricidade, muito mais do que aquilo que foram os computadores, a mais lucrativa falácia do século XX. Se Burke realmente acreditava que a casa do inglês é o seu castelo, então perceberia que o flat arrendado já não o é.

Uma Europa, cujos capatazes parecem acreditar que a venda do medo de um futuro que ninguém já vislumbra pode ser exequível num mercado frequentado por uma classe média estupificada e enganada e por uma ralé que como de costume nada tem a perder, vai precisar de bastante arame farpado, ora aí está uma oportunidade de emprego.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s