Sextus descortina o duplipensar quaresmal, a subtileza do engano substituída pelo vazio esmagador

A origem do discurso é algo que permanecerá oculto para todo o sempre, com toda a probabilidade assim como os efeitos do mesmo na elaboração cognitiva são muito difíceis de apreender.
Nestes tempos excitantes, por vezes, outras anestesiantes, convém lembrar que o mais recente aditamento ás funções discursivas foi idealizado na pátria de Shakespeare, a manipulação das massas, por alturas da primeira grande guerra, cem anos atrás. A educação das camadas mais baixas da população – qualquer técnico de marketing percebe que vender dois pentes a um calvo porque um deles pode partir só é possível em certos grupos sociais – foi evoluindo com um salto quântico com o surgir da televisão. A BBC nesses tempos primevos assumiu também funções educativas clássicas em obediência a um optimista pressuposto que uma personalidade mais trabalhada, com mais níveis de socialização mais se afastaria de pulsões violentas, mais se agruparia e menos individualista ficaria, condição quase necessária para a emergência de qualquer revolucionário social – há a versão liberal deste princípio, da escola escocesa, dois países que façam comércio entre eles dificilmente entrarão em guerra. Dito de outro modo, nesses anos cinquenta e sessenta do século passado, a BBC tinha um pacote de mensagens que estava esperançada em incrustar nos processos cognitivos da maioria da população britânica.

Um dos requisitos mais determinantes na estabilidade de uma população, desde que assegurada a segurança física, consiste no sinalizar de vários objectivos a atingir, processo que lhe vai ocupar a maior parte do tempo e que prevenirá a instalação de um mal-estar difuso e perigosamente disruptor do grupo. Nesta fase, temos os discursos galvanizantes, com doses maiores ou menores de populismo, com um uso imaginativo da mistura dos tempos da história dessa população de forma a apresentar uma linha contínua de progresso, ou pelo menos de sustentabilidade de uma vantagem já adquirida. O declinar desses tempos foi sinalizado por uma frase desastrada de Thatcher, toda ela imbuída da esquizofrenia orwelliana ao defender com sangue uma sociedade que ela negava sequer existir (“there is no such thing as society”), Thatcher que foi a preclara mãe do outro Blair, pai do capitalismo financeiro estatal e das famosas PPP – enquanto que o nosso pseudo-historiador nipónico se distraía com o fim da história, Blair acrescentava-lhe velocidade.

Esses tempos discursivos com manipulação formativa que poderemos classificar como clássica já passaram para trás no ocidente mas ainda são os do presente de várias nações mais atrasadas no rodar do fuso da história. Também ainda sobrevivem nos EUA, o império dominante, ainda com várias décadas pela frente desde que a manipulação consiga ultrapassar os inconvenientes da chegada aos tempos cínicos pós-iluministas de grande parte da sua sociedade – uma das muitas razões para o erro do historicismo é que não consegue integrar as assincronias, por vezes profundas, dentro dos agrupamentos nacionais.

A forma que o poder engendrou para lidar com o cinismo actual, contido dentro do nosso conhecido palácio de cristal, passa pelo discurso novilinguístico, com bastante sucesso como Orwell antecipou. O duplipensar, curiosamente extremado nos alucinantes declives do império soviético, rival do criador da manipulação-publicidade – quantas vezes a criatura afasta-se de tal forma do criador que já não se consegue entrever a sua filiação – tem uma contrapartida fascinante nos mercados financeiros: uma empresa contrai, despede e encerra, as acções sobem, já nem se trata dos concursos de beleza de Keynes – já leva várias décadas de uso e vem sendo lentamente substituído por outra forma mais avançada, até certo ponto. Sextus permite-se uma ironia, o duplipensar só é possível verdadeiramente nas fases pré-cínicas, nos períodos de cinismo estabelecido e consolidado, a manipulação passa pelo estabelecimento da confusão pelo atirar sem cessar de dados atomizados e não trabalhados de forma a parecerem contraditórios – os nossos amigos gestores e advogados descobriram as maravilhas dos relatórios de centenárias páginas, tão eficazes a ajustamentos à realidade como o voo dos pássaros.

A incontinência discursiva e argumentativa consegue provocar o pretendido bloqueio do raciocínio, precedente necessário na espécie humana no seu estadio actual. O duplipensar que recorria, apesar de tudo, ás subtilezas do engano está a ser substituído pelo ruído realmente ensurdecedor provocado pelos megafones instalados em todos os cantos. O discurso deixa pois de se ouvir, a manipulação, logo sempre formativa, foi substituída pela dor de cabeça, pelo cansaço, pelo afastamento do adro sobrepovoado de pregadores e de vendedores de todas as banhas.

Esta é a fase em que nos encontramos no país, na Europa. Ter de ouvir um PPC a proclamar que os cortes são definitivos é tão penoso até doer, aonde vai o discurso normalizado destas alturas em que os chefes pedem é mais trabalho, mais esforço para manter a posição, quando muito uma retirada estratégica para imediatamente regressar à posição? Já não há manipulação inteligente, já não há duplipensamento subtil, há o atrevimento da revolução para a sub-espécie ou a estupidez vazia em todo o seu esplendor.

Ouvir os líderes europeus sobre a crise do cáucaso, manifestando toda a sua inutilidade, desde a menina Angela preocupada com o mercado russo, os italianos que lá têm o maior parceiro depois dos vizinhos alemães e franceses, dos circunspectos ingleses que tal como o metro na City “mind the gap” que os oligarcas russos deixariam com a sua saída (seria de uma grande ingratidão depois desses valorosos eslavos terem muito ajudado a salvar a banca inglesa nos idos de 2008), passando pelo presidente do império americano a mandar o SE e tutti quanti á libertada Kiev – a ONU desapareceu, ora bolas, tem sido tão útil para lidar com os árabes – são os sinais do surgimento do vazio na sociedade cínica com dor no ouvido de tanta zaragata.

Quando os tempos do vazio chegam, os povos vão-se embora ou pegam em armas, o confronto entre a acção inicial do ex-KGB e o duplipensar ocidental quaresmal é brutal. Já agora, os chineses tomaram a sensata atitude de aumentar em vinte por cento o orçamento militar. O comércio, afinal, não impede a guerra.

Os americanos compreenderam mal Emerson, Putin leu-o depois das nop policiais.

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