Quando se está de pernas para o ar é que melhor se pode pensar

O discurso na actualidade habita regiões pós-críticas e curiosamente ou talvez não é verbalizado pelos que se diziam mais avessos ao pós-modernismo – a vida está difícil para um conservador, particularmente um pirrónico.

O primeiro paradoxo, se ainda tal existe, é que o discurso quer saír fora do tempo. Ainda a ruminar o fim da história, os representantes do mundo financeiro que governa com pouco cuidado, como é costume em tempos de poder em demasia e tolera como convivas inconvenientes os oligarcas mais terroristas, apenas promovendo de vez em quando a sua troca, a repetição do mantra não há alternativa cimenta-se e permite disfarçar ou aceitar qualquer falhanço mais espectacular. O rei vai nu, mas dizem-nos, não vai, depois de muita altercação desmiolada lançam como argumento final, não interessa se vai ou não nu, não há outro fato para lhe oferecer.

Ao saír fora do tempo, já que a história acabou, ficamos presos no cinema do dia da marmota, americano. Os amanhãs são o crescimento, que na manhã do dia seguinte se verifica ter como desiderato anular os decrescimentos operados durante a noite. O sucesso está na repetição. Já não é a teia da mulher abandonada, é o pesadelo do morto-vivo.

Outra característica de um discurso fora do tempo é que pode abandonar e dispensar qualquer critério de validação para além da audição do receptor. Não há propriamente contrários, há sucessão de esquizofrenias, já para além do duplipensar que ainda aspira a enganar, no presente, o discurso apoia-se numa multiplicação de abordagens laterais que falham sempre, mas por vezes por pouco, o alvo. A menina Ângela afirmar que a Lusitânea-Cacânea está melhor ainda do que se esperava pode ser correctamente lido, vão pagar-nos melhor do que pensávamos, vamos ter mais lucro com aqueles desmiolados que já não esperávamos. Mas também pode significar, lá conseguiram aqueles sulistas, elitistas e liberais subir para o esburacado navio fantasma do europeu voador que eu, fingidamente, tomei o leme- Sextus sabe que a menina ângela sabe que tal navio não tem ninguém ao leme, o facto de ela não lá estar apenas cumpre, não desmente a história.

Outra curiosidade é o discurso de alguns que se afirmam como mais ou menos conservadores e proferem discursos de profundo europeísmo, já clamando pela constituição europeia para substituir as nacionais que já não se adaptam à fogosa chegada do futuro. O infantilismo de todos juntos é dos mais robustos mas claramente mais nos povos colectivistas, ou seja, todos os asiáticos, latino-americanos e grande parte do sul, centro e leste europeu. Só aqueles que levem mais a sério as interpretações mais esquizóides do cristianismo é que disso se afastaram. No fundo, radica aqui alguma da fundamentação de Spengler e Barzun na sua predição do viver socialista.

Surge então o novo paradoxo, são estes povos anglo-saxónicos, mais individualistas que lançam o último parasita do infantilismo de todos juntos ao proclamar a alta voz as virtudes, as maravilhas e a inevitabilidade da globalização, a antecâmara do socialismo do grande capital onde, de certo modo não haverá propriedade privada, a base da liberdade civilizada, mas sim a autoridade do capital que lhes faculta o direito de ter outros a trabalhar para si. A inevitável, segundo os papagaios da actualidade, globalização cumpriria o seu desiderato, um centro invisível, uma periferia miserável, estupificada, menos valiosa que um robot.

De repente, perante tal quadro e quando Sextus ia fazer o pino viu a Nova Zelândia, tão pequena mas capaz de se governar a si própria, que se saiba, sem sofrer pesadelos por se localizar nos confins do pacífico e bastante contente por se diferenciar dos australianos.

Nada é inevitável, independentemente das variáveis que são imprevisíveis mas que se apresentarão no futuro, o paradoxo de um colectivista a duvidar da globalização se encontrar com um individualista que diz aspirar por estar todo junto pode talvez tornar-lhes aparente que tenhamos chegado às tais curvas da história, quando admitimos que nos enganamos nalgumas coisas e que para seguir, não em frente mas seguir, temos que mudar alguma coisa para ficar o essencial, a liberdade e a independência, os maiores e insubstituíveis bens.

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