Da Cacânia do presente ajardinada pelos gestores até ao passo de caranguejo de Eco

Já aqui se tem sustentado que os momentos finais pré-desastre se desenrolam a velocidade muito lenta, em trajectos circulares convergentes para a singularidade, o disfarce comum do sincretismo borbulhante. Não se trata de partilhar na totalidade a concepção da história de Spengler, entidade autónoma que devora os seus agentes, mas uma versão atenuada, a analogia do cargueiro gigante que obedece com tamanho atraso que parece gozar de liberdade, travestindo os momentos finais antes da colisão como consequência de fuga ao controlo quando, tão somente, apenas cumpre com fidelidade e bastante demora as opções e ordens recebidas bastante antes. Esta inércia torna tão inviável um historicismo absoluto como uma autonomia libertária, de certo modo, o tempo, parâmetro primordial da história, é essencialmente governado pela assincronia. Cronos manda porque não consegue ter os seus relógios acertados.

A governação é mais uma ideia do que qualquer outra coisa e a perpétua desilusão que evoca é fundamentalmente uma ilusão. Claro que em nome das ideias se fazem grandes coisas, pelo menos de igual grandeza ás estimuladas pela escassez. Aquilo que tem tornado mais difícil este momento histórico deriva do fim do iluminismo que se vem arrastando desde há cerca de duzentos anos. Esta longuíssima agonia tem sido aliviada e mascarada pelo que restou dele, o progresso material e a quantidade de saber disponível – Sextus não renegou o seu pirronismo, quando diz saber é sob essa concepção, são raríssimas as perguntas reais, realmente oscilamos entre aquilo que na matemática se chama primitivas e derivadas e o progresso decorre essencialmente do seu desemparelhamento casual ou erro á luz dos conhecimentos coetâneos.

Os dois progressos, material e cognitivo, transformaram o estado nos dois últimos séculos. Esta entidade semi-divina, filha de deus e do homem gerou outro filho e um espírito, uma revisitação da trindade cristã. O pai é o estado, o filho é a burocracia, o espírito é a infantilidade. Como qualquer religião, arranjou os seus celebrantes mais destacados, os gestores (eles próprios já filhos dos políticos), que são financiados nos seus estudos pelos dadores mais abonados, os financeiros, mas que exigem de qualquer maneira a dízima dos menos enroupados, os impostos. Com o tempo, o grosso decisivo dos recursos tem origem na dízima, ou impostos.

Tal como em qualquer religião, há um livro que vai sofrendo sucessivos melhoramentos interpretativos. Quando o credo é jovem rapidamente gera várias leituras e as suas seitas. Depois, com o passar dos tempos sofre a usual esclerose e proclama apenas uma leitura autorizada, não há outra alternativa. Mesmo nesta fase, a inventividade humana dos celebrantes cria vocábulos, sinais e símbolos mais ou menos novos que, para se adaptarem sempre à leitura autorizada, abusam do novilinguísmo, pai e filho incestuoso do duplipensar.

Se só há uma leitura, se não há outra alternativa, a derivada é a globalização do poder. Como sempre, nestas fases globalizantes/unitárias – aqui na Lusitãnea podemos bem recordar a unicidade, melhor que a unidade – a novilíngua, que se queria defensiva, acaba por abrir as brechas no edifício. Os gestores, na defesa e sempre em procura da aumentar o poder privilegiando a anulação do oponente sobre a assertividade do seu suposto racional discursivo e prático, acabam para evoluir primordialmente para o cinismo, a fase terminal.

O cinismo é incompatível com a infantilidade desde que regressam os tempos da escassez. Esta é também uma derivada das expectativas e a que sofre frontalmente é a que está ligada á empregabilidade, mais ainda do que a associada á progressão e crescimento infindáveis.

Nestas fases surgem movimentos que podem parecer exemplos dos passos de caranguejo, para trás, como Eco bem lembra. A Ucrânia é neste momento o melhor exemplo.

Sextus, vaidoso, também sugere libros como Marcelo e confessa que esta crónica foi influenciada pelos dois últimos livros que acabou de ler: “Europa, continente selvagem” e “The fall of the faculty”.

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