As crianças quase que não se cansam, dão cabeçadas até à hora do lanche ou não se perdeu uma oportunidade, ela nunca lá esteve

Lá passaram três anos, rapidamente, quase sem darmos conta e quase sem nada para contar. Os médicos à periferia da troika estão de partida mas deixam menos do que aqueles clínicos recém-licenciados que a fizeram há quase quarenta anos. E deixam menos, mesmo muito menos por várias razões, uma porque o legado era fraco, outra, ainda mais importante, porque quem recebeu este esquálido contributo está irremediavelmente infantilizado, sem poder de decisão. É sabido que quem aprende mas não pode usar / decidir pouco aproveita e esquece célere.

O legado era fraco, bastante fraco e já aqui se tinha dito isso na altura, não por qualquer clarividência do escriva, mas tão somente pelo emprego da análise mais monótona que se possa idealizar, a troika queria garantir o pagamento de juros por algum tempo – ao contrário de muitos, a troika não quis realmente assegurar o pagamento da dívida, tem a clareza necessária para perceber que tal não se decidirá agora, nem nos próximos anos, a troika era o representante escolhido pelo poder financeiro que vive de comissões, juros e que, tal como uma bicicleta, não pode parar. A única coisa interessante e nova, produto destes tempos, foi a enorme colecção de medidas do dito plano de ajustamento cuja importância é garantida pela justificação de doze visitas, doze relatórios e outros intermediários, enfim razão de emprego para uns funcionários tão úteis como o são toda essa montanha de gestores, analistas e tutti quanti e que consiste no tecer do véu de salomé que nada tapa mas tudo distrai, ou se se quiser, na manufactura da veste do desnudo rei apenas coberto pela cegueira da rua.

Sendo o legado tão carpacciano a criança governamental engoliu-o no meio do bico de pato, da gargalhada e do galo na testa – tal como noutras situações de igual índole, falta saber qual o estrago produzido pelos traquinas, alguns deles já suficientemente crescidos para se igualar em esperteza e perigosidade destrutiva às raposas. A criança governamental quer espaço, quer folga, mas também quer ordens, brinca com isto, brinca com aquilo, pára que estás afogueado e sobre-aquecido, é preciso esfriar.

Também não se podia esperar outra coisa, há bastante confusão sobre a missão dos governos desde as pinturas expressionistas de tons carregados dos governos dos estados a partir da segunda metade do século XIX. Mais ainda, na Lusitânia-cacânea, cronicamente incapaz de crescer e de sustentar a sua prole inteira que com regularidade se vê empurrada para a emigração. Talvez ainda houvesse quem de forma cândida levasse à letra grande parte daquilo que foi dito na campanha eleitoral, inocência própria dos dias seguintes aos desastres – a criança com o enorme galo que promete correr com tino e cautela, a Europa ocidental no pós-guerra nas telas pintadas e exibidas, que não a realidade profunda ou superficial (leia-se o didáctico “Europa , continente selvagem”). Os governos são máquinas poderosas de colectar taxas variadas, logo assaltadas de forma bastante viril pelos mais fortes e os mais ágeis, o que neste momento significa, por aqueles mais capazes de investir no financiamento dessa tropa de choque que são as frentes dos partidos, com a ajuda insubstituível dos gritadores das esquinas, os meios de comunicação. A adição de impostos, taxas extraordinárias e tudo o resto com mais ou menos imaginação, desde o sal até ao tabaco serve para manter o quinhão, até aumentá-lo, reclamado pelos grupos dominantes, que mais à vontade ficaram com a deriva da transferência de poder para o castelo berlinense-bruxelense que não quer, sensatamente, protagonizar um chefe, enfim uma variante refinada e adocicada do Grande Irmão.

O Grande Irmão pode sobreviver ou não, Sextus é suficientemente conhecedor para saber que não pode vislumbrar nada sobre esse futuro, mas percebe-se que há pontas demasiado afastadas no pano que o Grande Irmão quer segurar. Ou dito de outro modo, pode-se enganar muita gente durante bastante tempo mas não se pode enganar toda a gente durante todo o tempo, embora Sextus prefira iludir / distrair a enganar. Aquilo que está em causa e ao arrepio do discurso dominante não é a sustentabilidade do estado social, isso é o futuro, mas aquilo que nos trouxe até aqui não foi o futuro, foi o passado, quer o remoto, quer o próximo – a confusão deliberada sobre o sequencial do tempo permitiu baralhar completamente a causa. Noutro sector, também o que nos trouxe aqui não foi o subir descontrolado do patamar salarial, na realidade os salários perderam cerca de 10% da riqueza total nos últimos quarenta anos.

O que pesadamente está em cima da mesa é a digestão de um mal preparado cozido á portuguesa, onde está tudo mas não é fácil retirar o benefício de tal plenitude. Como é que se propagandeia a uma sociedade anestesiada pelo consumo tolo e desenfreado as virtudes da austeridade, como é que se mistura a necessidade de crecimento com a população a envelhecer e a encolher, como se combina a necessidade da solidariedade de pelo menos três gerações para tornar exequível o evitar de atirar o velho pelo morro baixo com a tendência às famílias unigeracionais, uniparentais e outras, como se compagina um modo de governar proclamado como democrático com a transferência em cascata do poder, como viver com a avaria do elevador social e o alargar da desigualdade, como misturar um discurso quase permanente com a sua irrelevância, como acreditar na obediência de quem já pouco vai receber.

No último livro que publicou, o “Antifrágil”, Taleb que se percebe mais amargo, apresenta algumas ideias com que Sextus simpatiza e já aqui discutiu, particularmente a redundância, sustentáculo de robustez (que Taleb diferencia da anti-fragilidade) e a abolição do risco moral que em conjunto com a transferência do poder minaram de forma talvez decisiva a vida das sociedades.

Nada de importante se passou nestes três anos, não se poderá dizer que se perdeu uma oportunidade, ela nunca lá esteve, a resolução da crise essencialmente ocidental aguarda por mais uma descida na cratera do vulcão debilmente fumegante.
As crianças ainda não cresceram, logo continuarão nas correrias sem destino para além da formação dos galos, mas não nos esqueçamos que esses diabretes podem ser de uma crueldade selvagem – temos nova amostra, aqui bem perto, na Ucrãnia, com a luta interna vigiada pelos protectores tão confiáveis como os beligerantes. Continuamos a “Comprar tempo”, falaremos deste livro em seguida.

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