Onde Sextus recomenda a leitura de “tempo comprado” ou quando o pão escasseia, o circo é assobiado e o desemprego barra a entrada no coliseu

Foi há pouco tempo editado um pequeno livro que bem merecia melhor atenção, “Tempo comprado” de W. Shreeck onde, em poucas páginas, se faz uma apresentação mais real do que vem acontecendo no mundo ocidental. Uma das tese principais é a datação da origem desta crise para quarenta anos atrás, algo que outros autores partilham mas que é ignorado pelo pensamento dominante. Nessa altura, verificou-se o início da divergência das curvas de oferta de produtos e da quantidade de recursos disponíveis para os adquirir, golfo cava vez mais largo e que motivou estratégias evolutivas para a sua transposição.

Sendo alemão, é curioso que o autor não faça nenhuma observação sobre a rapidez da emergência da sociedade de consumo num país tão devastado como a Alemanha. Os sobreviventes e os filhos da guerra, mãe de todas fragilidades e luz da brevidade da vida e dos seus acastelados projectos, mergulharam na vertigem do consumo, na procura da novidade mais ou menos supérflua, na substuituição do mundo interior pelo exterior. Neste caso, o comportamento dos derrotados foi idêntico ao dos vencedores, facilitado pela sobreposição da vontade das elites em distribuir e ganhar dinheiro com a recompensa devida ao combate activo e ao aguentar das perdas sofridas.

A primeira estratégia repousou na inflação monetária e foi bastante turbulenta, entre o fim dos anos sessenta até ao inicío dos anos oitenta. Durante esses quinze anos foi comum a ocorrência de taxas de inflação entre os 5 e os 7%. Shreeck, inadvertidamente para Sextus, não valoriza os ganhos de eficiência paralelos á migração para as cidades e ao crescimento demográfico sustentado, embora moderado. Apesar da inflação e Shreeck esquece isso, a taxa de poupança dos agregados familiares ainda era razoável, acima de um quinto dos rendimentos, na maior parte dos casos.
Esta estratégia acabou por se provar esgotada e veio a segunda alternativa: o endividamento público (aqui Shreeck tem uma visão oposta do pensamento comum sobre a sequência temporal dos endividamentos). Neste período vão fortalecer-se dois factores nucleares, as chamas parcerias público-privadas – um termo algo enganador, na verdade e exceptuando momentos fugazes, perto dos começos, o capitalismo dito privado tem sempre um fortíssimo componente de parceria com o público – e a liberdade quase irrestrita do movimento de capitais que vai lutar e conseguir a mistura cada vez mais profunda das divisas, terminando em amarrações ou mesmo fusões dessas divisas – Shreeck fala disto mas de forma algo subtil. Esta fase, mais do que substituír na opinião de Sextus, foi seguida, amparada e desenvolvida pela do endividamento privado.

Este endividamento permitiu ainda o acesso á compra de produtos tornados necessários pela modernidade e marcadores de pertença a um grupo social. Não deixou de ser extraordinário a rapidez e passividade com que os vários estratos sociais toleraram a rápida queda no mundo dos devedores crónicos depois de gerações de predomínio dos aforradores. O tempo das oportunidades foi associado á necessidade de endividamento para crescer e foi funcionando sempre que a premissa do crescimento gerasse uma quantidade suficiente para pagar os juros da dívida.

Na fase final, Shreeck aponta para o desastre congénito do euro que apenas é mantido porque parece ser do interesse dos credores – embora isto não seja certo – e do interesse dos representantes dos mesmos para assim, parafraseando Shreeck, acederem á compara de BMW a preço baixo.

Falta a este pequeno livro – e será essa a principal causa, a sua pequenez, alguma análise geoestratégica. Por exemplo, é curioso perceber que a criação do euro foi feita contra a vontade do poder administrativo do império americano, nessa altura secundado pelos arautos economistas, eles próprios funcionários do poder financeiro anglo-americano. Numa das suas curiosas e algo inesperadas curvas a história representou outro texto, agora os poderes financeiro e administrativo do império querem defender o euro. Algumas almas caridosas, em conjunto com os funcionários – uma cena parecida com o, suponho, defunto conselho mundial da paz – encontrarão nesta coincidência mais uma evidência da sobreposição dos interesses ocidentais, por sua parte Sextus manifesta desde já uma visão muito diferente.

A defesa do fim do euro é muito mais fácil de fazer do que o contrário mas não é esta facilidade que poderia suportar a bondade dessa opção. A defesa do fim do euro é a defesa da liberdade, algo que não existe sem respnsabilidade, algo que se perde com a excessiva derivação representativa.

Uma família, dita tão variada, como a que constitui a dos defensores do euro, desde democratas americanos, liberais e sociais-democratas europeus, só o é porque na realidade é de uma homogeneidade assustadoramente pobre, são os funcionários daquilo em que se tornou o capitalismo, um modo de vida de negacionistas do risco moral, de financeiros da treta do negociar com alta frequênciade, de intimos dos clubes de portas rotativas de gestores e políticos onde se desenham de forma apressada e muitas vezes desconexa projectos de parceria público-privados. A missão destes funcionários é tornarem-se nos filósofos do duplipensar, de argumentadores teleológicos de relógios invertidos, de discursantes da novilíngua cuja principal qualidade está tipificada pela capacidade de afivelar o calmo sorriso no meio dos apupos, dos ovos e dos tomates. O seu principal desafio será a justificação para a sua existência – hoje Hollande desfilou ás escondidas nos Campos Elíseos.

Desde os tempos clássicos que se fala em pão e circo, o problema actual repousa na escassez do pão, do repúdio do circo. O discurso da austeridade uma sociedade consumista é um difícil exame para os candidatos a funcionários – apliquem-se, os resultados são fracotes. A irritação cresce num tempo alongado, quase parado pela exclusão do desemprego.

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