Quando a cultura foi deitada fora, restam os mercados da dependência ou quando Mendes não percebe que só está a falar de fumo

Desde há cerca de três mil anos, no que respeita á cultura ocidental, que o discurso incorporou a fatalidade do duplo sentido, verdadeiramente os pais da novilíngua datam desde aí. Ficou por aclarear o papel do oriente nesta evolução, sabemos que foi pioneiro, não o sabemos se de todos ou só da sua família. De qualquer modo, as raízes do ecclesiastes estão no oriente.

Desde há muito que oscilamos entre o nada há de novo debaixo do sol até ao nada pode ser como dantes mas se repararmos bem, quase todos os movimentos incorporam o voltar a passar pelo mesmo ponto ou ponto-equivalente de forma periódica, talvez mesmo o único que parece escapar a esta lei não o consiga, há a teoria de que após a grande expansão se seguirá a grande contracção.

A sociedade ocidental parece estar a atravessar um momento de fragilidade, sequela de um cansaço enorme com o abuso da cacofonia ímpar sobre tudo aquilo de que se possa falar. Perturba-nos não descortinar se os enganos são derivados da extrema complexidade em que nos movemos ou se são resultado de perseguir de forma obstinada e certeira de objectivos só perceptíveis para alguns. Erramos porque sabemos de menos, porque sabemos em excesso ou porque a lógica chegou ao seu limite. E quantos é que percepcionam o erro?

O próprio erro tem várias categorias, o religioso, o ético e o mais frequente, o desajuste emocional. O erro é em grande parte dos casos um desemparelhamento que por sua vez só é percebido sob a condicionante cultural. A recusa do contexto por Popper não é realmente sustentável, é um “wishful thinking”, que nalguns casos evolui até ao erro trágico resultante da fortíssima associação da recusa desse contexto com a negação da individualidade.

A cultura, produto da amálgama das emoções roladas e lapidadas pelo rio que desce da montanha, limitado pelas margens, que só muito parcialmente constrói. A cultura é o resultado do acordar da emoção do cérebro primitivo, o sol impossibilitante de continuar a dormir, a raridade vislumbrada a conformar a emoção. Ao contrário de muitos outros distraídos, a cultura manda porque mesmo a raridade só é validada por ela, deixando de lado os eventos extremos, raros e de menor influência do que se possa pensar.

O ocaso do ocidente vê-se melhor ao apreender que a cultura está a ser expulsa da vida. O discurso político, derivado e conformado pela cultura, esvaziou-se de uma cultura que já deixou de promover por razões que não são claramente entendíveis mas que repetem de certa forma o humor entre as duas guerras. A segunda apenas foi tempo comprado, para poder reconstruir o mundo de antes, mas como se disse acima, nada pode ser como dantes. A expulsão da cultura da política leva Mendes a atribuir lugar a Albuquerque, a funcionária que até agora, e conforme esse estatuto, nunca quis pronunciar nenhum discurso, apenas leu relatórios.

O drama mais local da lusitânea-cacânea consiste no precoce desaparecimento de agentes com vontade, substituídos pela plétora de funcionários e candidatos a funcionários. Este país está em vias de se afogar debaixo das ondas dos advogados e dos gestores, cheio, como disse Clementino Pedro Nunes, de capitalistas decretinos. Tão desorientados e deprimidos estamos que atribuimos a nossa apatia a todos os outros vizinhos europeus, talvez um mecanismo de defesa para atenuar as dores da nossa preguiça e cobardia, a anestesia para nos confrontarmos com a cirurgia da remoção da independência, as muletas já encostadas à parede para usarmos depois de termos assinados os termos da amputação.

Cumprido o plano da troika, o desiderato é correr para os mercados e pedir emprestado, para fazer o quê ninguém sabe nem quer saber. Os juros estão baixos enquanto que as hipóteses de pagamento parecerem sólidas, sustentadas por um ou dois milhões de aprisonados que pagarão sempre por medo da descida até á ralé, ao mesmo tempo o pilão e a carne para canhão do poder financeiro.

Enquanto durar este engano, enquanto os funcionários forem olhados como depositários de um saber que não partilham mas que estaria apenas oculto mas resguardado por ser tão importante, enquanto não realizarmos que a complexidade real não pode ser percebida por ninguém e que a transferência de poder é o primeiro passo para a dependência cada vez mais abjecta e é perigosa porque quem a recebe é manifestamente incapaz de melhor ler as entranhas dos sacrificados, continuaremos a ser espremidos – paradoxo do mundo globalisado em que a mobilidade é cada vez menor, conforme os dados comparativos nos últimos cinquenta anos nos USA.

Há um tempo para a bondade de uma ficção e há um tempo para a recusa da mesma. A CE está a chegar ao fim porque nehuma cultura já a sustenta, apenas os mercados da dependência. A morte dos políticos ocorre sempre quando se esquecem de que nem só de pão vive o homem.

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