O QE versão do BCE ajusta-se a quem manda, o centro em detrimento da periferia ou o presente nada mais do que um infinitamente pequeno ponto da chegada do passado em permanente revisita a preceder um futuro em inevitável fuga

Na semana passada foram publicadas algumas notícias com quantidades de dinheiro bastante incomuns.

Primeiro soubemos da tomada de posse do novo responsável do SNS inglês que vai gerir um orçamento anual de 95,6 mil M de libras. Se fizermos uma contas rápidas mas fiáveis chegamos à conclusão que o gasto per capita com o SNS inglês é superior a 200% àquele que é atribuído em Portugal.

Daqui decorre facilmente que pretender diminuir mais a despesa com a saúde já só será possível com a recusa de vários actos terapêuticos. É verdade que o SNS inglês inclui no seu orçamento despesas com a investigação básica e clínica de montantes que nem de perto são realizadas aqui. O Reino Unido está ciente da importância da sua indústria farmacêutica, pouco mais lhe resta para além da que brota do sector petro-químico alargado e da militar depois da delirante opção nos anos 70 do século passado, de se transformar num país de serviços, deixando morrer as indústrias do automóvel, dos electrodomésticos, da nascente dos computadores, da aeronáutica, dos pneus e de outras de média tecnologia.

Esta indústria farmacêutica há anos que parasita o orçamento do estado inglês, atribuindo cada vez menos verbas próprias para a investigação ao mesmo tempo que canaliza os seus lucros quer para a aquisição de outras companhias quer para a recompra de acções próprias – mais de 70% dos seus lucros.
No vivamente recomendável livro “the entrepreneurial state” M Manzucato chama a atenção para a decrescente contribuição da inovação desta indústria na síntese de novas moléculas terapêuticas, menos de 40% das últimas dezenas de inovações, pelo contrário, elas procuram refúgio na produção das “me-too drugs” enquanto que o risco da investigação é atirado para o sistema público. Manzucato sustentadamente sinaliza que as “Big Pharma” recusam o risco puro, já só toleram o cálculo das probabilidades.

A outra notícia foi produzida pelo anúncio do montante que o BCE irá disponibilizar a partir de Setembro próximo, cerca de 400 mil M de euros a juros quase zero para bancos desde que estes não apresentem garantias baseadas em dívida pública. Esta notícia é muito interessante e permite várias derivações.

A primeira pode ser a desmaterialização do dinheiro que se tornou total, logo completamente dependente de acordos e nada mais. Não é que ele exista, apenas se concordou que pode mesmo estar lá. Note-se que mesmo desmaterializado, o dinheiro também se abriga sob o conceito de propriedade e isto leva-nos a pensar no desvio desde a sua definição pelo direito romano. Já não se trata aqui de uma relação entre o homem e uma coisa, trata-se sim de um acordo entre os homens sobre uma coisa.

Este anúncio do acordo pelo BCE – aqui a outra pergunta fundamental é quem é que está à mesa da conferência que gerou esse acordo e qual é a sua agenda – teve este tempo e não outro, agora que a maior parte dos grandes bancos do centro europeu se desfez da dívida pública dos países da periferia mas ainda luta com os casos italiano e francês.

No que refere a Lusitãnea-cacãnea as informações não são completamente claras. Aparentemente o BPI vendeu parte da dívida portuguesa com considerável prejuízo. O que fizeram os outros bancos portugueses não sabemos. Se realmente for verdade que a maior parte da dívida portuguesa está em mãos nacionais, incluindo os fundos de pensões, a incoerência passou a ser demasiado gritante. Neste caso, o controlo do valor da moeda é de todo necessário e não pode ser entregue a uma entidade alienígena, como é o caso do BCE. Manter tal situação revela ou incapacidade voluntária ou induzida de ver o óbvio ou confundir uma vontade revolucionária de um pequeno grupo de burocratas / capatazes com a aspiração de um grupo nacional.

A semana termina com a publicação em fascículos de um novo manifesto conservador americano, para Sextus um bom avanço, recusando a armadilha dos valores morais, produtos de uma cultura que está sempre muita para lá de qualquer vontade política – veja-se a curiosa evolução chinesa com o retorno lento mas forte do budismo e do confucionismo. Num resumo pre-preliminar, estes conservadores percebem que a fronteira entre pensamento conservador e liberal vale a pena ser desenhada, no primeiro a descentralização em matrimónio com o movimento centrípeto da responsabilização é talvez a forma mais responsável e brilhante de evitar o caos da globalização dita liberal, que apenas poderá em consciência prometer a formação de legiões de órfãos do grande irmão, sem capacidade de se responsabilizar por coisa nenhuma, sem liberdade nenhuma a não ser a dos oligopólios, quando não monopólios que persistem na ocultação da total falência do estado como regulador, a única função que lhe querem aparentemente atribuir, à vista de todos – o caso recente do BESA é apenas caricatural, mas o articulado do IRS americano não o é menos, espalhado por 74 mil páginas.

Os conservadores têm a oferecer a responsabilidade, logo a escolha, os liberais deram-nos a TINA, como sempre, paradoxal. Os conservadores ainda acreditam na liberdade e responsabilidade de decidir como lançar impostos, os liberais querem crescimento, querem dívida, querem rendas, querem o controlo absoluto.
A linha divisória da liberdade humana não se vai jogar nos próximos anos entre orientais e ocidentais, entre islão e cristianismo, entre fanatismos e regimes seculares. A liberdade vai travar-se dentro do mundo da chamada ética protestante e como sempre, o mais difícil é destrinçar as falsas promessas anunciadas pelos burocratas / capatazes que já vislumbraram o futuro. Sextus mais modesto, reclama que miremos o passado para vivermos o presente.

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Uma resposta a O QE versão do BCE ajusta-se a quem manda, o centro em detrimento da periferia ou o presente nada mais do que um infinitamente pequeno ponto da chegada do passado em permanente revisita a preceder um futuro em inevitável fuga

  1. CA diz:

    Diria mais, a liberdade humana não será cartesiana, entre o conservadorismo e o liberalismo do ocidente ou entre a supremacia económica do oriente e a consciência social do velho mundo, haverá múltiplas dimensões por explorar.
    Liberdade pressupõe a hipótese de escolher um caminho e essa escolha implica informação acerca das alternativas possíveis. Ora, não está ao alcance da maioria das pessoas escolher.
    Em primeiro lugar e já aqui, algumas das decisões fundamentais da velha Europa são tomadas em passeios marítimos altamente restritos, que se substituem a eleitorados pouco esforçados. E em segundo, na verdade, a maioria das vezes não temos carta para saber em que mares queremos navegar ou se são rios mesmo!
    Acresce o papel dos bancos centrais, que numa tentativa de se substituirem á aparente inércia dos governos, ensaiam políticas monetárias, prometem depois políticas reguladoras, como se a arbitrariedade entre umas e outras pudesse ser indiferente.
    A política deixou de ser das pessoas comuns e essa carta o eleitorado soube mostrar.
    É precisa uma urgente mudança de paradigma.
    Há que reinventar, por meios próprios, o modelo social, educar, adaptar, inovar e acreditar, sempre em tons de verde…somos aqueles, que desbravaram mares nunca dantes navegados, os que melhor improvisam e provavelmente melhor se adaptam…temos uma costela do Magrebe, mas também descendemos de uns quantos cristãos novos.

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