A trabalhosa transição para o admirável mundo novo ou a verdade é grande mas do ponto de vista prático o silêncio é maior e antes da perfeição instale-se a cacofonia

Este fim de semana trouxe de volta e em toda a força a nossa querida Lusitãnia-cacânia, vá lá, podemos não ter os bourbons que dizem nunca esquecer, aqui ninguém se lembra. Para lembrar é preciso integrar e para ser ainda mais sólido, gostar ou repudiar, a emoção é fundamental em todos os processos cognitivos, mas emoções são mais caras e menos disponíveis do que por vezes se crê.

O caso do BES é mais um dos muitos afectados por amnésia contumaz. Quando é necessário alguém reconstituir bocados importantes do passado a incapacidade para tal está quase sempre garantida. Fica-se a perceber que a gestão de topo roça quase sempre o limiar da demência, seja senil ou de alzheimer. No entanto, as alternativas do quadro clínico nada perturbam a cotação das acções, ou seja, a expectativa de lucros no futuro continua grande, o que se compreende já que a dimensão do banco e do grupo garante solidamente a socialização dos prejuízos, caso inesperadamente seja esta a evolução.

A atitude do regulador, neste caso o BP, também não poderia deixar de ser objecto dos encómios habituais, sempre foi mais fácil encontrar aduladores do que cassandras. O grande economista Constâncio rumou a Francoforte mas os bons hábitos nunca mudam. O sol põe-se ás 21 horas, o presidente do BP vem afoitamente avisar-nos de tal por volta das 23 horas. Assim se constroem grandes reputações e não menores amizades.

Depois tivemos uma notável entrevista do ministro das energias e sei lá que mais. Primeiro que tudo, ficámos confortados com a abolição das rendas em excesso, ainda bem. Depois, ficámos mais tranquilos com a magia do trajecto do défice tarifário. Vale bem a pena ler esse bocado de boa informação. Em resumo, algo que já vai em valores superiores a quatro mil milhões de euros vai começar a diminuir de forma drástica a partir de 2016, sem que tal forçe aumentar os preços da electricidade para além de pequenos ajustamentos à volta de 2%. Este tipo de contas é que deve ser aplicado sem demoras ao défice público e já agora ao privado de modo que lá para 2020, temos os livros novamente limpos e no azul. Tudo tão fácil e tão bem explicado pelo jornalista de um semanário de referência, que mais adulto nos impele para o diferimento da gratificação, caso contrário, era para já, como no maravilhoso tempo do admirável mundo novo que aí vem – os mais avançados já lá chegaram.

Finalmente tivemos um sobresalto, nem tudo pode correr bem, convenhamos. Ninguém estaria á espera que uma das instituições de saúde mais bem governadas – não digo a melhor por algum pudor, de que careço – passasse para as páginas dos jornais com notícias alarmistas. É verdade que este sector é dado a algumas surpresas, a saúde é imprevisível mas também objecto de milagres. Só para nos lembrar a maravilhosa cadeia de surpresas, revelações e milagres – Sextus está afectado desta mania, diria doença bourbónica, há muito tempo – temos um médico eleito o melhor gestor por um colégio de gestores ( não é só Ilich que desconfia da escola). Temos um ministro que redige reformas quase todos os dias para salvar o SNS moribundo, que três meses depois está declarado em coma muito avançado, ceratmente pelo mesmo governante não ter diligentemente acelerado as reformas para um ritmo horário. Temos uma instituição de saúde exemplar e de repente, mais de sessenta dos seus mais magníficos directores intermédios descobrem-na à beira da ruptura de recursos humanos, dotada de aparelhos em desfalecimento e não fiáveis, tonta entre a apreciação de recursos a mais quando em conversa com Carreira, ou de recursos a menos quando em charla com colaboradores de carreira – tem dias, tal como a memoria a apagar-se. Todo este drama está contado como deve ser pelos melhores jornais e seus melhores jornalistas, alguns com carreira já longa na área sanitária. Todo este evento tragicómico devidamente encimado pelos louvores a quem se expõe para defender os doentes.

Oh doce país avançado, exemplo para todos na perseguição da terminal Cacânia, já não se trata de homens sem qualidades, trata-se mais de mulheres da viúva Atenas, já não têm gosto ou vontades, têm medo apenas. O medo poderia gerar memória, mas a repulsa da perda antecipada impede tal feitura.

A verdade é grande mas maior, muito maior do ponto de vista prático é o silêncio, como dizia Huxley. Antes do silêncio, estadio de perfeição, há a repetição ad nauseum. Imediatamente antes, há a cacofonia. O desiderato final, pós-silêncio, a cacanização. No percorrer deste duro e tortuoso caminho resta seguir os mais orientados recorrendo á dica do costume, mas enfim, ajournée: “follow the money, follow the woman, whatever”. Boa sorte.

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