O falso debate da falsa ciência como o ponto de chegada e de partida de um falso país ou quando se quer brincar todo o tempo

Nos últimos dias fomos avisados do lançamento de mais um documento salvífico para o país elaborado por um pequeno grupo de economistas de esquerda. Trata-se de mais um dos paradoxos numa sociedade de tal forma desajustada que só se vivencia no mundo das impossibilidades, de volta ao pensamento mágico. Tem sido quase uma constante, as melhores análises demonstrativas das causalidades da crise ocidental encontram-se junto dos pensadores de esquerda ou dos nacionalistas, as melhores propostas terapêuticas são avançadas pelas correntes liberais, mas estas ficam prejudicadas de modo fatal por ou um enquadramento falso ou uma contextualização mágica ao pretender que o tratamento de per si resolve a situação quando só pode aspirar a encontrar um ponto de reequilíbrio que autorize desenvolvimentos primordiais.
Como lateralidade reveladora e acusatória deste raciocínio liberal e globalisante, note-se nas recentes suspeitas de espionagem na pequena Alemanha feita por interesse norte-americano e o cavalgar chinês, na altura da visita de Merckel (a sétima nos últimos oito anos) afirmando que mais do que agente, também eles são vítimas do principal esquema de espionagem mundial montado pelo consórcio anglo-americano com a ajuda dos primos da Oceania, que perceberam bem que a globalisação que propõe é realmente uma nova sectorização do mundo, apenas desta vez em blocos mais alargados mas não menos diferentes – dito de outro modo, estes países ditos crentes na auto-regulação dos mercados acabam por revelar que a informação total não está contida nele como pretende a escola de Chicago, mas que o mercado, pelo contrário, repousa quase sempre na assimetria de informação.

Voltemos ao núcleo e ao manifesto anunciado. O pressuposto parte de dois princípios, um provavelmente verdadeiro, outro falso como facilmente se demonstra. O verdadeiro repousa na verificação do não pagamento da dívida nos termos em que está negociada, ou seja com os juros a determinar pelo mercado das dívidas soberanas e o pagamento em euros ou em dólares, conforme a última venda. Um amigo de Sextus chamou a atenção para o novilinguísmo de “venda de dívida”. Não se vende nada, negoceia-se sim a permissão de contraír mais dívida, o liberalismo do presente viciou-se na dívida – Sextus foi ontem a um banco e verificou maravilhado que a actividade bancária está novamente a regressar aos bons dias pré-2007, ao ler uma interessante proposta de financiamento para o IRS em doze parcelas de modo a que o nóvel devedor pudesse gozar de merecidas férias. Os juros actuais da dívida pública ascendem a cerca de 7.5% do OE e Sextus bem gostaria de saber a quanto montam os juros das dívidas privadas nos orçamentos respectivos. Querer fazer acreditar que isto é sustentável num país a envelhecer de forma muito significativa e que já não cresce a taxas superiores a 4% (condição necessária para acomodar de modo tranquilo tal carga de juros) há mais de vinte anos anos é próprio de mentes infantis propensas aos raciocínios mágicos. Uma ciência que tal propõe não pode citar Hayek ou Friedman mas antes e espera-se com algum proveito, Rabelais. É verdade que há boas razões para suspeitar que Friedman não percebeu o mundo em que viveu, quando citava Hong-Kong como o paradigma da bondade do mercado livre devia andar a ler alternadamente o sapatinho vermelho e Alice. Dito isto, as formas de resolução para esta dívida agrilhoante não são fáceis de encontrar mas nunca podem fugir à história milenar, vão ser prejudicados os credores e os devedores.

O falso pressuposto também é de fácil verificação. A renegociação da dívida iria permitir libertar capital para outros investimentos, talvez permitisse um redireccionamento de cerca de 3% do PIB para o investimento – Sextus dá de barato que os distintos economistas não vão sugerir a atribuição desse capital para pagamento de pensões e ordenados. Também o uso do termo capital em vez de recursos financeiros é propositado, recorrendo ao significado que Smith lhe atribuía, capital como algo que permitia ter alguém a trabalhar. Nos tempos actuais, mais do que trabalho seria certamente o investimento por posto de trabalho – o rácio entre capital investido por posto de trabalho que já era perigosamente baixo em Portugal comparativamente com os países mais afluentes ainda mais se afundou e algumas estatísticas já falam em um décimo do que ocorre nalguns estados alemães. Infelizmente, nem essa correcção garantiria o sucesso, a menos que a qualidade de administração melhorasse consideravelmente, algo de que se desconfia, veja-se o exemplo que apresentamos sobre o banco visitado por Sextus há dois dias. Mais ainda, mesmo com essa desejada melhoria de gestão o sucesso seria dificilmente atingível porque as vantagens comparativas da maior parte dos nossos competidores tal tornariam. Chega-se aqui à falácia mais decisiva e que acorrenta os mais pequenos, os mercados ditos livres só são bons quando quem os propõe adquiriu a vantagem decisiva ou tem os meios para a garantir – eu espio-te e se não bastar tenho aqui uns dronezitos que estão na ociosidade, desejosos de espalhar a liberdade comercial e todas as outras amplas liberdades bem redigidas no grande acordo comercial trans-atlântico para maior felicidade dos nossos povos, que submetidos á dieta do grande libertador McDonald e das pipocas deverão ser servidos em abundância de capitosas mulheres pneumáticas de Huxley.

Ao contrário daquilo que o “mainstream” economês vem contando, a liberdade dos mercados nunca existiu, o alargamento dos mercados exigiu sim sempre um forte controlo do poder do estado, os mercados mais desregulados levaram à dependência, à irrelevância e à infantilidade de quem foi forçado a seguir tal terapêutica. Claro que o proteccionismo não constitui uma bala de prata mas estas só se encontram nos livros infantis. Dito de outro modo, a libertação de 3 a 4% de capital para investimento em Portugal seria certamente irrelvante e o preço a pagar por tal provavelmente tornaria a operação com resultado negativo.

Neste momento temos na mesa das ideias da elite ainda dominante em Portugal o confronto entre o impossível mágico daquilo que nunca existiu, o liberalismo e a discronia e distopia da esquerda pós terceira via.
O que está em cima da mesa como trabalho de casa é a competição não só pelo capital mas também pelo emprego num mundo que apenas tem lidado com a vertente da oferta numa curva da história em que apareceu muito mudada a vertente da procura. A monótona terapêutica vendida pelos dominantes anglo-saxões é preocupante e decepcionante – Sextus termina a recomendar vivamente um OP-ed do NYT de hoje sobre o problema francês assim como os comentários.
Pode ser que o futuro radioso que nos prometem nunca ocorra, pode ser que o individualismo uma vez chegado à idade adulta reaprenda o essencial do local e do tempo, pode ser que perceba o que sustenta o “terroir”. O problema será qual é a solução preparada pela elite dominante anglo-saxónica para a relativa raridade do “terroir”, os centro comerciais não servem mas lá encontram-se muitas mulheres pneumáticas, é verdade. Patética evolução desde o ginásio onde se exercitava o rei de Platão.

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