Onde Sextus regressado mostra o certo futuro certificado por auditoria e autorizado pelo regulador, o divino Janus

Já aqui se tem reconhecida a grande dificuldade em distinguir entre algo de novo a mover-se debaixo do sol do tudo como dantes, por outras palavras, a discriminação entre a miragem e a cegueira sempre mereceu ser premiada e muitas vezes erradamente a recebeu ou lhe foi negada. Também é verdade que o clamor da nudez do rei já não alarma ninguém porque a surdez resultante do barulho cacânico misturado com o duplidiscurso é praticamente completa. Mas, enfim, nada é absoluto e se não somos filhos do espírito santo somos da linhagem de Janus, o divino da dupla cara.

Os eventos que nos vão sendo desvelados sobre o defunto BES transportam vários sinais e sintomas, como diria um médico.

A regulação voltou a falhar em identificar a incompetência perigosa e isto é o primordial. Sextus prefere julgar a equipa de administradores do BES como essencialmente incompetentes e só em segundo tempo como incumpridores da lei. Salgado já tinha afirmado que o capitalismo era amoral porque apenas se preocupava com os resultados mas isto constitui, mais do que um aviso, uma frase infeliz. Quando um jogador se encontra numa posição vantajosa pretende jogar da forma mais aceitadora das regras que no fundo lhe consolidam a sua vantagem que só pode ser como tal classificada quando a leitura obedece a um cãnone. Uma vez adoptada uma postura de recusa das regras, a posição de vantagem pode ser subvertida de forma inesperada numa desvantagem – uma armadura será uma boa ideia para jogar uma justa mas será uma péssima ideia para entrar numa guerra de submarinos. Quando a incompetência começa a acumular perdas e desvantagens cada vez mais inultrapassáveis recorre-se à ocultação, ao disfarce, ao engano e à batota. A arte de Salgado terá sido conseguir ganhar um quinhão final nas últimas semanas. O maior sucesso do império tem sido em falaciosamente coincidir o livre mercado com a regulação que é controlada por ele.

A falência do papel regulador era uma garantia, o curioso tem sido a capacidade de vender a sua nulidade em todo o mundo. Desde o início que as várias regulações falharam em toda a parte e mesmo o sector que as admitia com mais boa vontade, os primeiros neoliberais do século XX, desconfiaram dela, G. Siegliz (não confundir com J.Stiegliz), um dos filhos de Friedman, aceitou que os reguladores acabam presa daqueles que seriam regulados. Aliás, a forma como Costa tem vindo a escolher revela até algum descuido, já sabe que não há meninos da rua e as autoridades mandaram fechar as janelas, coisa feita prontamente pelos jornalistas, a escolha da PWC para fazer auditorias ao defunto BES, participar na administração do Novo Banco e terminar na auditoria da PT mostra que o xerife controlou o saloon, o jogo pode continuar com as cartas já muito marcadas, coitadas, com escritos e furadas, mal se distingue um quatro do cinco, um oito de um nove e muitas vezes tem que ser o xerife a decidir qual a verdadeira face.

Também ficamos a saber que o escritório do regulador tem telefones, faxes e provavelmente correios electrónicos. Só ainda não descobrimos se Salgado foi mais esperto que os rapazitos da Goldman em Portugal ou se houve uma aliança entre os ditos e Salgado. O que sabemos é que o informado banco de investimentos entrou no aumento de capital do BES e saíu uma semana antes do super Mário ter cortado o crédito. Cá estão as duas caras, dirão outros, depois da dádiva da pipa de massa vinda da CE lá veio a contrapartida da fuga de um barril da mesma reclamada pelo BCE, a ser entregue três dias depois da reclamação, em frente á sede do dito, na estação de comboios de Francoforte, onde Constâncio estaria para a receber, feliz, ele que tanto gosta de ver os comboios a passar. Vai brevemente ter a concorrência de Costa, é melhor cada um especializar-se em diferentes máquinas de caminho de ferro. A governação do dinheiro é das coisas menos reguladas que possa haver, Platão bem o percebeu e tentou avançar com sugestões algo pueris.

Como se disse acima, todo este desfile se desenrola já sem a presença da criança delatora da nudez soberana, não porque as crianças estejam a ser sujeitas a rapto sistemàtico, mas porque as mulheres passaram a procriar com muita mais parcimónia. As da lusa cacânia são das mais contidas, desta vez acompanhadas das teutónicas, talvez para dar razão a um amigo de Sextus que identificou nos teutões o gosto pela austeridade. Por aqui se vê a quase futilidade da governação, sabedoria já dominada pela trupe dos gestores que disfarça este potente segredo pela agitação browniana, constante por definição e certeira por configuração. Os povos resolvem realmente o problema do desemprego o verdadeiro centro do problema, a dívida é a falta de capital para empregar pessoas e estas, na sua maioria, votam com os pés e abstêm-se. Sobram alguns jovens, provavelmente aqueles que são ensinados nas escolas de verão partidárias que votam e que logo e por força, não se abstêm.

Talvez seja facílimo prever o futuro da luso cacânea, a versão mais pobretana e mais deprimente da terra-mãe querida de Musil. Vamos servir peixe grelhado com algas e mostrar habilidades com cortiça, os nossos primos tolamente avançam com salsichas e choucroute mas dão música e pôe os cavalinhos á andar á roda e aos saltinhos, nós vamos encerrar o convívio com natinhas e eles desforram-se com a sachertorte e a apfelstrudell.

Para quê governantes, contratem mestres pasteleiros e ponham os reguladores a pesar a massa; os que sobrarem ponham-nos na ópera ou no coreto.

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