Das abelhas zangadas à invisibilidade da culpa ou como Mandeville e Tocqueville tornam Adam Smith dispensável e iluminam o erro de Passos e Pacheco

Adam Smith é consensualmente descrito como um recatado, estudioso e recto homem, escocês celibatário e na opinião de Sextus, um optimista. Lamentava a lentidão do desenvolvimento da riqueza das nações a que atribuia múltiplas causas mas de que relevava a qualidade dos homens, particularmente a sua entrega ao trabalho e a capacidade de administrar e organizar. Smith tinha como certo e seguro que bastava o preenchimento de três condições para que uma sociedade que não fosse notoriamente desfavorecida pela natureza pudesse acelerar o desenvolvimento da sua riqueza e bem-estar, a tríade da paz, impostos baixos e uma administração da justiça razoável.

Smith desenvolveu teses anteriores de outros autores de uma forma muito demonstrativa, logo mais eficaz e duradouro. Uma das mais conhecidas é na realidade um empréstimo do conceito “vícios privados, públicas virtudes”, ilustrada pela conhecida frase de Smith que não devemos o nosso jantar à bondade do padeiro, do talhante e do cervejeiro mas à satisfação dos seus interesses individuais. Este conceito, emprestado e clarificado pelo escocês, é talvez o mais fracturante mas constitui um indicador indirecto do pouco rigor da “dismal science” inaugurada por Smith já que a autoria está manifestamente mal atribuída.

Mandeville e a sua extraordinária fábula das abelhas zangadas, escrita cinquenta anos antes, foi leitura de Smith. Esta narrativa também deve ter despertado em Smith a noçao que o braço indispensável para a sua mão invisível era a justiça. Aqui o optimismo do nosso homem fica bem realçado, as expectativas de Smith – diga-se as expectativas afirmadas, mas que Smith também assinalava como longe de estarem realizadas – elevavam-se estratosfericamente em comparação com o voo rasante e rasteiro da justiça de Swift, seu compatriota e quase contemporâneo, que a via desprovida das quantidades desejáveis de prudência, de razoabilidade, de proporcionalidade e equidade. Nos tempos presentes, Smith teria reflectido sobre a qualidade de outra variante da justiça, a regulação e Sextus receia, talvez injustamente, que Smith tivesse novamente dificuldade em acordar que a administração das várias formas de regulação evidenciam o seu carácter aleatório, abstracto, desligado da realidade operativa e do seu desenho inicial. Talvez então Smith reconhecesse que os nossos pios desejos não se podem confundir com a realidade que é vivida a branco -o resultado de todas as cores-, a vermelho quente e animal, a frio preto. faltou ao carácter religioso de Smith aceitar plenamente que a liberdade e a concorrência são o resultado de disputas vivas cujo resultado regulam a disposição das forças e as estabilizam por um intervalo de tempo mais ou menos longo, as abelhas zangadas são produtivas porque estão aquém ou além da regulação e a qualidade da arbitragem é definida e limitada pelo dominante.

Independentemente da apreciação de Smith sobre a administração da justiça inglesa ser uma ingenuidade, um voto de um homem pio, ou outra manifestação de algo que desconhecemos, logo nas primeiras linhas da sua “Riqueza das Nações” é avançado outro conceito que sendo original e que viria a ser muito usado, contém ainda assim outra falácia de natureza também ingénua, o PIB anual, algo até então não conceptualizado ou trabalhado. Smith leva a novidade até ao extremo da perdição porque acaba por associar ao PIB anual de forma subliminar o perigoso conceito do eterno recomeço. Esta artificialidade de restringir o balanço ao ano, conscientemente excluindo os activos e passivos de entrada, levaram Smith a cometr erros de confusão entre o modelo abstracto que propunha e a realidade, confusões que o levou a tomar posturas contraditórias no seu diálogo com Hume compreensíveis porque Smith não se deixou obnubilar completamente pelo artfício que criou. O que Sextus quer dizer é que o PIB anual não reflecte de modo nenhum a riqueza da nação, é o conjunto dos PIB anuais que o determinam sendo necessário um recuo de muitos anos, por vezes séculos para o perceber. Isto torna-se óbvio se pensarmos que o factor predominante nessa riqueza é a qualidade do trabalho dessa nação, como Smith bastas vezes refere e essa qualidade tem raízes deitadas á terra há anos, séculos.

No absoluto, o mercado livre só existe fora do espaço e do tempo mas nem os mais exaltados entusiasmos dos modernos gestores os transportaria para o nível quântico. A probabilidade apoia-se solidamente nas certezas múltiplas e mutantes.

Noutro registo mas também que para aqui interessa, o teólogo Kuhn gosta de repetir que as normas à margem das situações concretas são vazias enquanto que as situações sem normas são cegas.

No caso da Lusitânea-cacãnea temos uma multiplicidade de falhanços ou obstáculos ao desenvolvimento da sua riqueza. Tirando a paz social, filha da emigração, constante ao longo da sua história, os impostos são altos e a vontade para os descer desapareceu se é que aquilo que nunca nasceu pode desvanecer e para muitos, a enorme maioria a levar em conta incontáveis inquéritos de opinião, a administração da justiça / regulação não é feita de forma razoável. A isto se pode juntar a apatia das abelhas após décadas numa colmeia democrática e de cristal, de tal modo que os seus vícios privados já não se sublimam em públicas virtudes. Na colmeia já não há zangas, pelo menos filhas da razão alterada, só se ouve resmungos tontos, sobrinhos da repetição senil.

Este pretenso viver democrático leva, tal como Tocqueville tinha antecipado – tal como John Adams tinha escrito – a uma profunda infantilização, procurada e desenvolvida por quem realmente controla ainda o poder, ao estadio da morte da culpa, consequência lógica da falência da administração da justiça. Passos e Pacheco, em trincheiras diferentes, estão errados, o que resta como sinal é o medo profundo e paralisante que torna possível a publicidade da recusa – taxas de aprovação dos políticos e dos juízes em torno dos 15 a 20% – e a famosa TINA. Diga-se em descarga da Lusitânea que esta cacanização é universal neste ocidente cansado, decadente, apenas sobressaltado pelos estragos dos ataques das raposas. Torna-se mesmo difícil identificar onde estão os resíduos de Pareto para além do carácter predatório do mundo financeiro que não pertencia ao quadro que ele desenhou.

Perante o PREC da exuberante involução demográfica, negação incontornável do modus operandi de capital apoiado na dívida e na especulação de melhores tempos que justifiquem esse contraír de dívida – é extraordinária a falácia que nos têm vendido do mistério da coabitação entre gargantuescos alívios quantitativos e inflação baixa e até deflação – a luta mais visível e interessante vai ser entre Lee e Tao, entre Singapura e a velha China do ditado “as montanhas são altas e o imperador está longe”. No intervalo, celebremos a baixa dos juros, os mercados na sua imensa sabedoria já reconheceram que ninguém lhe pode pagar mais.

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