Antígona morreu, a impotência é a sobrevivência, ou como renascer sem nunca morrer

Do tempo em que os homens falavam ficaram algumas obras que quase chegaram a delimitar a vida sem que lhes escapasse o paradoxo, a contradição, a inevitabilidade. Essas histórias contribuíram  para o entesouramento da oralidade e da escrita.  Dito isto, como regra, tudo o que cresce tende a dividir-se e tudo o que é múltiplo pode perder-se por sobrecarga. A maldição da babilónia linguística já tinha chegado antes da infância mágica criadora do mundo helénico, anunciada por Aristófanes, entre muitos outros, na sua descrição dos sofistas. Avançou até aos estádios mais refinados e cristalizados, até ao paradigma da novilíngua.

O papel constituinte e conformador da linguagem no pensamento tem sido debatido em profundidade e variedade e não será pois surpreendente que a novilíngua gerasse o duplipensar, tão inovador como o seu antecessor – parceiro. Chegamos a um ponto em que somos encurralados sem saber do que é que eles estão a falar ou a planear. Vivemos num mundo paralelo, melhor, estamos nele suspensos.

Este duplipensar, ilimitado no seu desdobramento, irreprimível por qualquer padrão atingiu o seu máximo corolário, o escape do tempo. Este casamento da novilíngua com a purga do tempo torna a história impossível, de certo modo, ou então, transfigurou-se num historicismo circular – o dito historiador nipo-americano confundiu o fim com o incansável recomeço.

Um dos paradoxos do presente entronca nesta mancebia entre a TINA e este historicismo circular, círculo vazio de conteúdo, preenchido bastardamente pelo poder incumbente, avançadamente desvitalizado. De facto, a suspensão do tempo veio perturbar o mundo financeiro que não acautelou a sua sobrevivência da teia totalitária que tão pacientemente teceu e que ameaça agrilhoá-lo. O par essencial das finanças é o tempo – tempo é dinheiro, já diziam – e este divórcio, melhor esta viuvez, apenas pode prometer o prolongamento, por inércia, de mais algumas volteios mas já desprovidos do feitiço dos olhos nos olhos.

Nos níveis mais inferiores e intermédios esta ameaça de estasis – segundo o sr. draghi e tutti quanti, a deflação –  tem sido superada com bastante desembaraço e despudor, no fundo qualidades constitutivas de qualquer poder. Este subdivide-se, multiplica-se e depois recolhe como uma mola. Adicionada a destemporalização, amalgamando o passado com o futuro em ordenamentos alternados para tentar construir um presente que verdadeiramente sempre renega.

No exemplo lusitano há ainda outros ingredientes, de natureza radical cacânica – falta criar o partido radical cacãnico para reunir a maioria por aclamação –   a projecção para fora da origem das coisas, do motor de qualquer movimento. É do exterior, do outro, que virão os fundos e os motivos, é do exterior que virão as ordens que nos guiarão no caminho do endividamento imparável, é do exterior que herdamos a inacção, é pelo exterior que alcançamos a impotência.

É no exterior que conseguem a ligação aos blocos que tanto acarinham, garantia do emparedamento para onde queremos fugir, para nos aquietar. Em qualquer ministério isto é aparente mas a visibilidade é mais fácil nos casos da economia e da saúde.

A impotência certificada por Bilhim garante a sobrevivência. A imprensa enroupa as notícias, traduz para a novilíngua a desorientação percepcionada, alimentada pelo duplipensar.

Vivemos e estamos em lado nenhum, fora do tempo, sem passado. Conseguimos renascer sem nunca crescer, sem nunca morrer.

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