As antigas virtudes desaparecidas por não haver terreno para o seu exercício, ou Burke e Passos, a mesma luta, o mesmo engano

Diziam os gregos que os mortos vagueavam sem cessar no Hades e emitiam de forma constante uns ruídos ininteligíveis que acabavam por se tornarem francamente perturbadores. Porventura,  a fase actual do nosso declínio seja, de certa forma, uma revisita desse sub-mundo antigo.

Se o racionalismo cartesiano afirmava provar a sua existência porque produzia pensamento o mundo do presente (o presente existe?) faz testemunho pela sua agitação browniana.

Se os antigos vivos discursavam, contavam e viviam histórias agora, abusam da inventada novilíngua que cumpre o seu devir quando atinge o ruído desdiferenciado e perturbador. O excesso do recurso à novilíngua está a chegar à fase da anulação do duplipensar – o duplipensar exige o uso intermitente da língua e da novilíngua.

Também dos gregos vem a definição das principais virtudes: a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança mas a decadência do ocidente do presente torna impossível o seu exercício, logo a avaliação se alguém está ou não delas dotado.

Um dos obstáculos mais notório deriva do individualismo extremado. Como se pode inferir facilmente as virtudes não se podem verificar fora da sociedade. a definição de liberdade pelo individualismo é redutora, notoriamente aquém da completude da definição por Arendt, a liberdade apenas se pode inscrever na relação entre os indíviduos, a primeira é exclusiva e subtractiva, a última desenha-se por inclusão e adição.

Durante esta semana, muita gente notória emitiu sons, palavras que pos si só podem ser compreendidas mas quando incluídas no tempo deixam de o ser – a actual crise só vive verdadeiramente fora do tempo.

PPC parece não perceber que muito do que irá ser pesado obedecerá a duas virtudes, a prudência e a justiça. O “discurso” produzido por PPC e a sua ministra das finanças sobre a falência do BES  anuncia que depois de alguns pouco meses, não iremos identificar nenhuma das virtudes na resolução desta falência.  Mais ainda, PPC num afã inábil de aparecer à frente dos microfones emite opiniões desastrosas sobre o penoso trajecto que a PT está calcorrear. Também isto irá ser pesado, não por ser directamente responsável, que não o foi, mas pela ameaçadora dúvida na opinião pública (será que ainda existe?) sobre a sabedoria e razoabilidade das vendas de algumas empresas públicas, principalmente pelo falhanço em reduzir a dívida pública – a dúvida sobre a prudência de um governante costuma ser letal.

Ontem, a Sra Lagarde, a grande gaffeur internacional, compartilhou connosco o seu receio da CE reentrar em recessão. Os números da indústria alemã parecem descobrir o regresso do “homem doente” da Europa após uma remissão de escassos anos, ainda por cima após uma magnífica reforma estrutural entretanto copiada por alguns parceiros europeus.

Um pouco antes, tínhamos visto a entrevista de três antigos ministros da saúde e do actual titular. Tudo se poderá resumir à resposta que o incumbente deu à ultima pergunta, são cerca de cem segundos de jargão da gestão, verdadeiramente essa coisa cheia de nada mas de que tudo se apropria.

Torna-se difícil adiantar hipóteses explicativas deste declínio tão profundo da prudência. No passado, quando esta virtude se via escassa o cerimonial elaborado do poder, só possível pelo distanciamento e parcimónia com que se exibia disfarçava essa escassez. No presente, em que agito-me, logo existo, o poder aproximou-se dos representados. A atribuição do voto universal talvez pudesse sobreviver sem graves prejuízos se houvesse uma imprensa livre, mas se alguma vez ela existiu, desapareceu em combate. A imprensa assumiu cada vez mais o seu papel tradicional, um meio do poder para condicionamento dos representados.

Alguns virão dizer que a sabedoria das multidões desmente os nossos receios, pensamento ingénuo, a sabedoria é outorgada pelo poder. Quase todos concordarão que a primeira condição para lidar com um problema é a sua identificação e caracterização o melhor que for possível. Neste momento, a imprensa consegue lançar uma cortina de nevoeiro tão espesso que nem as formas conseguimos adivinhar.

O efeito produzido por estas condições de terrorismo comunicacional tem levado a um severo recuo do grau de intervenção do cidadão, muito aquém dos mágicos tempos de Atenas ou dos vigorosos dias da formação da burguesia comercial europeia. A deriva neoliberal, balizada de forma paradigmática pela frase de Tatcher (espúria?) “there is no such thing as society” acrediat que o imutável é o indivíduo e o contingente a sociedade. um dos paradoxos dos neoconservadores/neoliberais, a revolução social através da sua negação. Meu caro Burke, o seu conterrâneo nem saberia o que era um castelo para nele se refugiar se não estivesse aos ombros de séculos de sedimentação da matriz inglesa.

O problema fatal de PPC pode ser a descrença na sociedade portuguesa derivada da sua escassa prudência, diminutas fortaleza e temperança e atrofiada justiça.

As virtudes antigas evaporam-se no falar pré-morte do ocidente infantilizado / envelhecido. Só o que restar do nacionalismo poderá resgatá-lo deste atoleiro. A última ameaça, fatal se for desenvolvida até ao fim, será o acordo da parceria europa-américa que ameaça levar-nos de volta até ao caos inicial, antes de novo banho de sangue – quando Cronos castrou o pai e a história se iniciou.

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