Sextus avalia o governo de PPC ou quando se pede a confirmação da diabetes a uma radiografia

Não se pode esperar algo daquilo que, por definição, não o pode fornecer. Na medicina, este sábio princípio é de grande utilidade para prevenir as falsas expectativas enquanto se aguardam os resultados de testes auxiliares de diagnóstico – um teste sanguíneo dá uma resposta diferente da que uma ecografia providencia.

De um governo – e é pena que desde sempre os médicos se tenham afastado da governação, cronicamente dominada por homens das leis – é preciso estar consciente do que se pode esperar.

A equipa de PPC já está em funções há quase quarenta meses, só lhe resta doze se não houver antecipação de eleições. O resultado final já pode portanto ser entrevisto, embora este possa ser moderadamente afectado pelas sequelas do caso BES.

Resumindo, conforme as expectativas o programa da troika foi satisfeito numa parte, o suficiente. Como de costume, a emigração desempenhou o papel estruturante da adaptação e uma fracção significativa do sector privado fez um esforço meritório e parcialmente recompensado na conquista de novos mercados e na mudança de posição naqueles em que já penetrava. Pode-se dizer, o que é que isto tem a ver com o governo, mas tem-no indirectamente.

As consequências mais estritamente derivadas das acções da equipa de PPC exerceram-se em três tabuleiros, na correcção da atribuição de subsídios, na modulação dos alvos da tributação e nas privatizações.

Há que reconhecer que o mundo dos subsídios ainda não está estabilizado, o novo quadro de “apoio” europeu vai voltar a fazer girar a roda da distribuição enquanto que no intervalo, os outros subsídios às empresas amigas continuarão assegurados. Aqueles que são alocados aos estratos do lúmpen pouco podem ser alterados, veja-se o valor real ajustado do salário mínimo que praticamente não se mexeu nos últimos quarenta anos, roçando a subsistência degradada.

Estes dinheiros europeus, em combinação com as receitas tributárias, vão servir para comprar um pouco mais de tempo e aliviar a pressão migratória, sendo o efeito combinado final difícil de antecipar – a emigração pode levar a um agrvamento irreversível da situação porque não se acompanha das remessas de capital que eram usuais no passado.

A modulação da tributação seguiu os moldes habituais. A crença auto alimentada de que os impostos subiram até ao tecto máximo não é partilhada por quem interessa, os nossos credores que por várias vezes claramente opinaram o contrário.

A reforma fiscal nunca será feita por nenhum governo com a excepção daqueles saídos de uma revolução, sendo que o fisco isenta quem está no poder e obriga quem dele está afastado e não se antevê que o capitalismo financeiro seja removido do poder nos próximos cinquenta anos, pelo menos. O modus operandi de qualquer governo mundial é igual ao de PPC no que respeita a tributação, o resultado é que varia conforme a riqueza de cada país. Nos centrais, no império americano, no império embrionário chinês e no núcleo europeu, o que resta à classe média ainda é suficiente para preservar o padrão de vida e de posição relativa que se imaginou ser característica desta classe. Para os países pobres, as ex-colónias, os quintais do império americano e do império embrionário, a periferia europeia, o novo estauto associado ás suas classes médias pouco permanecerá acima da indigência. a única mudança significativa implicaria a alteração da frase”no taxation no representation” para se há isenção não há representação, algo do mundo da anti-matéria.

Esta imensa e nova ralé, a nova face das classes médias da periferia (seguindo a terminologia adaptada de Arendt) terá que ser anestesiada, algo que está a ser feito de modo muito eficaz pelos meios ditos de comunicação – parece que num livro recente, o pró-filósofo A Botton actualiza o pensamento seminal de Tocquevile e o cepticismo de Spengler sobre a imprensa que se alguma vez foi livre não passou de uma nota de rodapé da sua história, tendo regressado ao seu estado natural, seres monstruosos que faleceram depois de algumas décadas penosas de exibição nos circos das excentricidades ou a segunda morte dos bobos da corte.

Há uma actividade do governo de PPC que é mais inovadora e disruptiva, a privatização de várias empresas importantes que acabaram por caír em mãos estrangeiras, ou seja, está quase a fechar-se o círculo, onde a falência do BES constitui outro sinal deste extertor.

É sabido que as elites financeiras são predominantemente avessas aos nacionalismos, com a excepção das próprias aos impérios. Muita gente acha isto muito bem, sinal de um avanço civilizacional dessas elites mais esclarecidas. Sextus acha péssimo porque contém genes de suicídio. A extinção do nacionalismo tem muitos efeitos para além do óbvio central e por vezes, são estas externalidades que predominam no achado do resultado final. Acabar com as nações ser bom ou mau é difícil de afirmar para muitos, se as nações são naturais ou não é também um longo debate de dois séculos – a paz perpétua de Kant foi contaminada pelo positivismo de Comte e resultou numa sopa intragável e venenosa – interessante se profundo e que leva a várias sínteses diferentes, sendo que as melhores devem obedecer à grande premissa de Lord Acton. Mas um dos efeitos laterais do fim das nações será o afastamento cada vez maior entre causas e efeitos, a condição imprescindível para a liberdade. Esta é uma deriva imprevista por muitos do capitalismo tardio e que lhe põe um problema de solução impossível: o capitalismo deve ter como base a propriedade privada – logo posse e responsabilidade – e o risco, novamente responsabilidade. O cindir entre causa e efeito remete o risco para além das colunas de Hércules, para o abismo profundo onde tudo se perde e nada se encontra.

A remoção das grandes empresas da posse nacional altera a natureza dos governos do futuro, os capatazes ficam demasiado longe do senhor do castelo. Aquilo que Sextus antevê são governos zombie ou fantoches, tributadores para a sobrevivência dos capatazes e a acalmia da ralé, obedecendo a ordens de origem misteriosa e não imputável, ininteligíveis, vindas de em centro perdido no nevoeiro das montanhas – o castelo kafkiano. Não haverá mais razões a substanciar a presença desses governos de capatazes que até poderão ter morto os donos do castelo.

A discussão em surdina sobre a parceria comercial trans-atlântica, já sob a barreira de pesada manipulação – se se fechar o acordo, afirma-se que cada família europeia ganhará cerca de 500 euros anuais e cada americana cerca de 600 – tão grosseira que espanta como pode resultar, será o novo e gigantesco passo para o mergulho no magma amorfo e abrasador onde quase todos se diluirão, para acertar a evolução de governos zombie de uma população de fantasmas.

Pretender mais do governo de PPC é esperar que uma radiografia confirma que alguém é diabético. O problema de PPC não será ter morto o dono do castelo, será o dono tê-lo abandonado. Haverá cerveja que chegue?

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